Sem telas

Especialistas incentivam crianças a trocarem telas por brincadeiras reais

Entre telas e terras: brincar longe do digital; rotinas com mais natureza, criatividade e brincadeiras livres para fortalecer o desenvolvimento infantil

Amariles Gama
19/10/2025 às 18:21.
Atualizado em 19/10/2025 às 18:21

Maria Odara, de 4 anos, adora o contato com a natureza. (Arquivo Pessoal)

Com os pés sujos de terra e a cabeça cheia de ideias, Miguel Castro, de 9 anos, passa boa parte do tempo explorando o quintal. Ele cria mundos com dinossauros, lagos e montanhas e até simula um meteoro. Já Maria Odara, de 4 anos, preenche o tempo com livros, desenhos e histórias inventadas. Ela adora brincadeiras ao ar livre e o contato com a natureza. Para eles, isso é muito mais divertido do que qualquer tela.

A mãe de Miguel, a professora Carolina Cecília, afirma que o filho sempre teve uma rotina diversa, com espaço para brincadeiras e descobertas. Ela conta que, aos finais de semana, Miguel gosta de ir para o sítio, onde passa o dia plantando e subindo nas árvores. Mas, até em casa, ele gosta de brincar com terra no quintal e cuida de colônias de formigas que vivem lá, inclusive dando nomes a elas.

“Gosto de brincar com pedaços de pau fingindo que são espadas. Também gosto de subir nas árvores e pendurar nos galhos. Brincar com os dinossauros na terra porque fica bem realista. Aí eu pego os galhos pequenos como se fossem árvores. Também gosto de guerra de travesseiro”, afirma o pequeno Miguel, quando perguntado sobre o que ele mais gosta de brincar.

Miguel Castro passa boa parte do tempo explorando a casa e o quintal, criando mundo com dinossauros, lagos e montanhas

‘Zero telas’

 A jornalista Natália Lucas também faz parte de um grupo crescente de mães que buscam o equilíbrio - ou, no caso dela, o "zero telas".

Sua filha, Maria Odara, nunca teve acesso a celular, tablet ou televisão para entretenimento. A decisão, segundo ela, foi baseada nas recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que orienta que crianças de até dois anos não tenham contato com telas e, a partir daí, o uso seja moderado.

"O contato que ela tem é apenas por ligações de WhatsApp com a família ou quando mostramos alguma foto ou vídeo enviado por eles. As poucas vezes em que teve contato com telas foram para mostrar algo com propósito explicativo. Mostramos o Festival de Parintins, com a apresentação do Pajé ou da Cunhã, ou algum clipe musical", conta Natália, que optou por seguir com zero telas para a filha.

Odara adora as músicas da Liniker, do Chico Chico e da Rita Lee, então às vezes a família mostra algum vídeo deles cantando ou um clipe. Mas coisas muito pontuais.

A mãe de Maria Odara, no entanto, faz questão de frisar que a escolha não é uma regra universal. Ela afirma que reconhece as diferentes realidades e que há famílias que não conseguem adotar o mesmo.

"Tem muitas mães solos, por exemplo, que precisam empreender ou trabalhar de casa, e acabam usando a tela como uma rede de apoio. É o que dá conta naquele contexto. E falta estrutura pública para apoiar essas famílias, como creches em número suficiente. Então, a gente não fala de um lugar de julgamento, sabe? É mais sobre reconhecer que existem diferentes realidades e que, em muitos casos, a tela é o recurso possível para muitas famílias", disse.

A psicóloga e neuropsicóloga Shyrllene Soares também ressalta que impor limites não precisa gerar culpa nem conflitos

Tempo de tela preocupa especialistas

 A pediatra Adeliane Bianchini explica que o uso excessivo de telas traz consequências sérias para o corpo e para a mente das crianças. Segundo ela, no físico, há menos atividade motora, aumento da obesidade e casos de miopia. Já no emocional, há possibilidade de aumento da ansiedade, irritabilidade, hiperestímulo cerebral, insônia e até depressão.

“Nas brincadeiras fora das telas vai haver uma interação social, onde a criança vai aprender a se comunicar, vai estimular a criatividade, a imaginação, a empatia, vai ajudar a desenvolver a parte motora, como correr, pular. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda: 0 a 2 anos - zero telas; 2 a 5 anos - até 1h por dia; 6 a 10 anos - até 2h por dia; 11 a 18 anos - até 3h por dia”, disse a especialista.

Já a psicóloga e neuropsicóloga Shyrllene Soares completa as recomendações com o foco nas emoções. Para ela, as telas, quando usadas em excesso, “abduzem” as crianças da vida real. Ela afirma que o brincar livre é o verdadeiro alicerce da saúde emocional.

Substituir telas

A psicóloga e neuropsicóloga Shyrllene Soares também ressalta que impor limites não precisa gerar culpa nem conflitos. Ela defende que, mais do que proibir, é preciso substituir telas por experiências reais, como um piquenique, uma receita em família, um jogo de tabuleiro, entre outras atividades simples, mas que criam memórias e fortalecem o vínculo.

“Os pais devem dizer ‘não’ com amor, explicando que esse limite é um cuidado. Nesse momento a gente precisa dizer para esse filho que o ‘não’ é porque ele é amado e não porque você é quem manda, sabe? Porque quando os pais dizem assim, quem manda aqui sou eu e você tem que obedecer, a criança vai ficar chateada porque passa a ser uma briga por poder, sabe? Então, os filhos precisam de limites e os pais precisam aprender a dizer esse não com amor e vai dar tudo certo", disse Shyrllene.

Enquanto o tempo de exposição a telas preocupa especialistas, crianças como Miguel e Maria Odara ainda preferem a brincadeira raiz, a terra nas mãos, as tintas espalhadas no papel, a fantasia e as descobertas que nascem da convivência e do brincar.

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