Entre telas e terras: brincar longe do digital; rotinas com mais natureza, criatividade e brincadeiras livres para fortalecer o desenvolvimento infantil
Maria Odara, de 4 anos, adora o contato com a natureza. (Arquivo Pessoal)
Com os pés sujos de terra e a cabeça cheia de ideias, Miguel Castro, de 9 anos, passa boa parte do tempo explorando o quintal. Ele cria mundos com dinossauros, lagos e montanhas e até simula um meteoro. Já Maria Odara, de 4 anos, preenche o tempo com livros, desenhos e histórias inventadas. Ela adora brincadeiras ao ar livre e o contato com a natureza. Para eles, isso é muito mais divertido do que qualquer tela.
A mãe de Miguel, a professora Carolina Cecília, afirma que o filho sempre teve uma rotina diversa, com espaço para brincadeiras e descobertas. Ela conta que, aos finais de semana, Miguel gosta de ir para o sítio, onde passa o dia plantando e subindo nas árvores. Mas, até em casa, ele gosta de brincar com terra no quintal e cuida de colônias de formigas que vivem lá, inclusive dando nomes a elas.
Miguel Castro passa boa parte do tempo explorando a casa e o quintal, criando mundo com dinossauros, lagos e montanhas
A jornalista Natália Lucas também faz parte de um grupo crescente de mães que buscam o equilíbrio - ou, no caso dela, o "zero telas".
Sua filha, Maria Odara, nunca teve acesso a celular, tablet ou televisão para entretenimento. A decisão, segundo ela, foi baseada nas recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que orienta que crianças de até dois anos não tenham contato com telas e, a partir daí, o uso seja moderado.
Odara adora as músicas da Liniker, do Chico Chico e da Rita Lee, então às vezes a família mostra algum vídeo deles cantando ou um clipe. Mas coisas muito pontuais.
A mãe de Maria Odara, no entanto, faz questão de frisar que a escolha não é uma regra universal. Ela afirma que reconhece as diferentes realidades e que há famílias que não conseguem adotar o mesmo.
A psicóloga e neuropsicóloga Shyrllene Soares também ressalta que impor limites não precisa gerar culpa nem conflitos
A pediatra Adeliane Bianchini explica que o uso excessivo de telas traz consequências sérias para o corpo e para a mente das crianças. Segundo ela, no físico, há menos atividade motora, aumento da obesidade e casos de miopia. Já no emocional, há possibilidade de aumento da ansiedade, irritabilidade, hiperestímulo cerebral, insônia e até depressão.
Já a psicóloga e neuropsicóloga Shyrllene Soares completa as recomendações com o foco nas emoções. Para ela, as telas, quando usadas em excesso, “abduzem” as crianças da vida real. Ela afirma que o brincar livre é o verdadeiro alicerce da saúde emocional.
A psicóloga e neuropsicóloga Shyrllene Soares também ressalta que impor limites não precisa gerar culpa nem conflitos. Ela defende que, mais do que proibir, é preciso substituir telas por experiências reais, como um piquenique, uma receita em família, um jogo de tabuleiro, entre outras atividades simples, mas que criam memórias e fortalecem o vínculo.
Enquanto o tempo de exposição a telas preocupa especialistas, crianças como Miguel e Maria Odara ainda preferem a brincadeira raiz, a terra nas mãos, as tintas espalhadas no papel, a fantasia e as descobertas que nascem da convivência e do brincar.