Prevenção

Acidente com estireno alerta para a segurança do trabalho

Especialista afirma que segurança depende de planejamento, treinamento e do compromisso conjunto  

Lucas Motta
26/07/2026 às 16:15.
Atualizado em 26/07/2026 às 16:15

Ipaam autuou a unidade industrial em R$ 12,5 milhões por infração à legislação ambiental, em razão do vazamento (Junio Matos/ A Crítica)

No mês da prevenção aos acidentes de trabalho, celebrado este mês com a campanha Julho Verde, o vazamento de estireno em uma empresa do Distrito Industrial reacende o debate a respeito dos direitos e das obrigações de empregados e empregadores para garantir a segurança no ambiente laboral.

Na tarde de quarta-feira (15), trabalhadores da indústria, estudantes e moradores da zona Sul de Manaus foram surpreendidos com um forte odor. Um dos tanques com estireno da empresa Innova sofreu uma reação química e liberou o material no ar. O Corpo de Bombeiros precisou de três dias para conter o vazamento, enquanto o Departamento de Polícia Técnico-Científica (DPTC) ainda realiza o trabalho de perícia nas instalações da empresa.

O laudo não tem prazo para conclusão em razão do volume de informações que ainda serão levantadas e analisadas em conjunto com os vestígios encontrados no local. A perícia busca esclarecer as circunstâncias do sinistro, e todas as hipóteses relacionadas ao caso serão avaliadas tecnicamente. Com a emissão de vapores do produto zerada na atmosfera, as atividades das empresas no entorno, além das escolas públicas e dos serviços públicos, voltaram ao funcionamento normal.

O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) autuou a unidade industrial em R$ 12,5 milhões por infração à legislação ambiental, em razão do vazamento de vapores de monômero de estireno. A penalidade foi aplicada com fundamento na Lei Federal nº 9.605/1998 (Lei de Crimes Ambientais), no Decreto Federal nº 6.514/2008, que regulamenta as infrações e sanções administrativas ambientais, e no Decreto Estadual nº 51.355/2025, que estabelece procedimentos de fiscalização e aplicação de penalidades ambientais no Amazonas.

Em meio a esse cenário, os alertas e debates a respeito da segurança ganham mais evidência em razão da proximidade do Dia Nacional de Prevenção de Acidentes de Trabalho, celebrado anualmente em 27 de julho. Por isso, a equipe de A CRÍTICA conversou com a engenheira de segurança do trabalho e CEO da JP Consultoria, Joice Paiva.

Engenheira de segurança do trabalho, Joice Paiva.

Responsabilidade compartilhada

 De acordo com a especialista, existem 38 normas regulamentadoras que definem como funciona a segurança no trabalho. Elas são bastante diversificadas e explicam quais são as documentações legais, as informações que devem ser prestadas ao Ministério do Trabalho, os controles administrativos, os treinamentos e os equipamentos de segurança. O papel da empresa é aplicar essas regras, porém Joice Paiva lembra que a responsabilidade precisa ser entendida como algo compartilhado entre empregadores e funcionários.

"Não adianta ter o melhor equipamento de segurança e o trabalhador não usar; não adianta ter o melhor procedimento de inspeção e controle e a pessoa não executar", destacou.

Excesso de confiança

Para a engenheira, existe uma falta muito grande de cultura de segurança eficaz no Amazonas, seguindo uma tendência nacional. O excesso de confiança, por exemplo, ao realizar algumas tarefas com risco de acidentes é uma das explicações para essa ausência, vista como uma característica enraizada e antiga no mercado de trabalho.

Por outro lado, as empresas precisam adotar medidas reais de controle. A primeira opção é sempre evitar a exposição ao perigo, e não apenas reforçar o uso de equipamentos de proteção. De acordo com Paiva, essa determinação está prevista na NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1), que estabelece a adoção de medidas de engenharia, medidas administrativas e, por fim, dos equipamentos de proteção individual (EPIs).

"Hoje, a prática comum é assim: tem um ruído na máquina? Protetor auricular para o funcionário. A norma pede que você identifique primeiro a fonte do ruído. É falta de manutenção? É de isolamento dessa máquina? Eu consigo eliminar essa fonte de ruído? Se sim, ótimo; se não, aí sim vou fornecer o protetor auricular", explicou.              

                                                                                                                                                                                                                                                           

Saúde Mental como parte da segurança                                             

"Estamos falando de mapear jornadas excessivas, lideranças tóxicas, falta de autonomia, fatores que podem adoecer o trabalhador em virtude do trabalho", disse Paiva.

A forma de lidar com esse cenário também é importante. No mercado de trabalho, é comum a promoção de palestras nas empresas em datas como o Janeiro Branco, voltado à saúde mental e ao bem-estar emocional. O mesmo acontece durante o Setembro Amarelo, campanha de prevenção ao suicídio. Porém, não é apenas com a abordagem desses temas que a segurança na área psicossocial é alcançada. É necessário que haja um entendimento completo sobre a realidade de cada empresa e de cada setor.

Direito de Recusa e Denúncia

Como já vimos, a prevenção de acidentes é uma tarefa compartilhada e que demanda atenção em todos os seus aspectos. Ao mesmo tempo, é preciso que os colaboradores tenham consciência de como proceder diante de riscos. Paiva lembra que existe o "direito de recusa", que ocorre quando o trabalhador identifica que a atividade oferece riscos superiores às medidas de segurança ou quando faltam condições para executar determinada ação.

"Quando ele se sente em uma situação que pode levá-lo ao óbito ou ao trabalho sem segurança, ele tem o direito de se recusar. E é obrigação de cada empregador garantir que o trabalhador saiba qual canal pode utilizar para isso, seja por meio de um formulário, um rádio ou um telefone. É preciso registrar e tratar isso", comentou.

A empresa também precisa ter um canal de denúncia e, por meio da NR-5, constituir um grupo de representantes dos trabalhadores e da empresa responsável por tratar e compreender essas situações. Mas, quando todos os recursos disponibilizados pelo empregador são esgotados e o risco continua, é hora de acionar o Ministério do Trabalho. No aplicativo ou na plataforma Gov.br existe um canal de denúncias que deve ser utilizado. Além disso, há a possibilidade de buscar orientação com advogados trabalhistas.

"Quando eu falo de direito do trabalhador no sentido de corrigir ou ser recompensado por uma exposição, temos os advogados. Geralmente, eles são acompanhados por assistentes técnicos de perícia: no caso de doenças, um médico do trabalho; e, no caso de insalubridade ou periculosidade, um engenheiro de segurança do trabalho", complementou.
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