Originalmente criada em 2023 como Amesolar (Associação Amazonense de Energia Solar), a Amerenováveis (Associação Amazonense de Energias Renováveis), presidida pela amazonense Helane Souza, a primeira mulher a trabalhar com energia solar no Norte do Brasil, passou por uma reestruturação estratégica. A entidade deixou de focar apenas em energia solar para expandir sua atenção a diversas fontes renováveis, visando o desenvolvimento sustentável da Amazônia.
Entre os dias 23 e 25 de março, a associação participou da 3ª edição do evento Amazonas Óleo, Gás & Energia, realizado pelo Governo do Amazonas por meio da SEMIG (Secretaria de Estado de Energia, Mineração e Gás). Na ocasião, a presidente apresentou durante entrevista, um panorama da reestruturação da entidade, abordando avanços, desafios e as perspectivas para projetos voltados para o setor no estado. Confira trechos:
1. A última edição do “Amazonas Óleo, Gás e Energia 2026 – Expo & Conferência”, que aconteceu no final de março de 2026, destacou o tema “Amazonas e o Arco Norte do Desenvolvimento Energético”. O objetivo foi fomentar uma agenda de integração regional alinhada à Margem Equatorial e ao fortalecimento da cadeia produtiva. O que isso representou?
HS: Geograficamente, o Arco Norte compreende a infraestrutura logística e energética que conecta Amazonas, Pará, Amapá, Maranhão e Rondônia. No contexto energético, ele representa a fronteira da segurança e da transição. Historicamente, o Norte foi visto apenas como fornecedor de matéria-prima ou um desafio logístico. Hoje, o Arco Norte representa autonomia; é a integração das nossas hidrelétricas, do potencial solar em áreas degradadas, da biomassa amazônica e, agora, da nova fronteira exploratória na costa. A Margem Equatorial (que se estende do Amapá ao Rio Grande do Norte) é, sem dúvida, a "nova fronteira" do setor. Para nós, na Amerenováveis, ela tem um papel duplo. Primeiro, de segurança e recurso: o desenvolvimento da região pode atrair os investimentos necessários para financiar a própria transição energética local. Segundo, o binômio petróleo-renováveis: defendemos que a riqueza gerada pelo petróleo deve ser obrigatoriamente reinvestida na cadeia de renováveis, como o hidrogênio verde e a infraestrutura de baterias para comunidades isoladas.
2. A fundação e homologação da Amesolar aconteceram em 1º de junho de 2023, quando você foi aclamada presidente. De lá para cá, muita coisa mudou. Pode fazer um balanço sobre a importância da associação e seu crescimento?
HS: O primeiro grande avanço é que crescemos tanto que a "roupa" ficou pequena. A Amesolar evoluiu para Amerenováveis porque entendemos que, para liderar o Arco Norte, precisávamos abraçar não só o sol, mas a biomassa, o armazenamento (baterias) e o hidrogênio verde. A fundação foi o alicerce para que o setor deixasse de ser um grupo de empresas isoladas e passasse a ser uma força política e técnica respeitada em Manaus, Brasília e no mundo. Outro ponto crucial foi nossa capacidade de articulação. Hoje, a associação senta à mesa com a SEMIG, com as concessionárias e com a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) para discutir o "Custo Amazonas" e a geração distribuída. Saltamos de uma posição tímida para um dos crescimentos mais expressivos do Brasil, com uma taxa de expansão em capacidade instalada que superou os 500% nos últimos três anos no estado.
3. O que essa expansão tem trazido para o fornecimento de energia na região amazônica? Atualmente, quantas empresas fazem parte da associação?
HS: Estamos levando energia limpa para além de Manaus, provando que o interior do Amazonas é o maior laboratório de sistemas híbridos do planeta. Se conseguirmos estabilizar o fornecimento no interior, mudamos a realidade da região. Hoje, nosso quadro conta com mais de 55 empresas, um salto enorme em relação às 15 empresas pioneiras do início. Tornamo-nos um ecossistema robusto que une desde integradores locais e distribuidores até grandes players de tecnologia de armazenamento e consultorias jurídicas especializadas. Isso mostra que o mercado amadureceu e confia na união institucional.
4. Você foi a pioneira no setor solar no Norte e agora segue à frente da Amerenováveis para o biênio 2025-2027. Como você vê essa missão e o processo de transição da entidade?
HS: Sim, continuo à frente desta missão! Em 2025, fui reeleita por unanimidade. Sinto que este segundo mandato é o da consolidação. Se o primeiro serviu para fundar e dar voz, este agora é para atrair investimento pesado e garantir que o Amazonas seja o hub energético do Arco Norte. Além disso, assumi a vice-presidência de relações institucionais da ANER (Associação Nacional das Entidades Representativas de Energias Renováveis), o que nos dá uma ponte direta com as decisões em nível nacional.
5. Como você enxerga o panorama atual e as perspectivas da energia solar e dos sistemas de armazenamento no Brasil, com destaque para o Amazonas?
HS: O Amazonas deixou de ser espectador para se tornar protagonista da resiliência energética no Brasil. O principal avanço é a viabilidade econômica da descarbonização e hibridização. Um estudo da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), de março de 2026, validou que a interligação de 14 localidades isoladas no Amazonas não apenas reduz emissões, mas gera uma economia bilionária na CCC (Conta de Consumo de Combustíveis). O estado também abriga o maior complexo de armazenamento de energia do país. Em 2026, as baterias deixaram de ser "promessa" para se tornarem o pilar que permite que a energia solar flutue sem desestabilizar as microrredes do interior. Manaus se consolida como a capital da energia solar no Norte, com crescimento proporcional de conexões residenciais e comerciais acima da média nacional.
6. Qual sua opinião sobre a posição que o Amazonas ocupa hoje no setor?
HS: Nossa posição é clara: o Amazonas é o laboratório de baterias do mundo. Se uma tecnologia de solar + armazenamento funciona em uma comunidade isolada no meio da floresta, ela estará pronta para qualquer metrópole global. O Arco Norte não é apenas sobre exportar energia, mas sobre fortalecer nossa cadeia produtiva. Queremos que a Amerenováveis e suas associadas não sejam apenas instaladoras, mas gestoras de ativos de inteligência energética.
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