No cenário nacional, o Amazonas aparece como o terceiro estado com maior alta percentual neste primeiro semestre
No interior, há serviços de apoio à mulher em Itacoatiara, Maués, Tefé, Parintins, Humaitá, Tabatinga, Barcelos, Tapauá e Coari (Foto: Divulgação)
Na contramão de uma redução sutil de 2,5% nos casos de feminicídio no Brasil, o Amazonas registrou alta de 66,7% nas ocorrências no primeiro semestre deste ano. Enquanto os seis primeiros meses de 2025 tiveram oficialmente seis vítimas do crime, neste ano já são dez. Os dados foram divulgados pelo Ministério da Justiça.
No cenário nacional, o Amazonas aparece como o terceiro estado com maior alta percentual neste primeiro semestre, atrás apenas de Sergipe (71,4%) e Goiás (113,6%). Também houve aumento no Paraná (17%), Amapá (16,7%), Rio Grande do Sul (13,9%), São Paulo (10,1%) e Rio Grande do Norte (10%).
A cientista social Valéria Marques afirma que uma queda nacional de 2,5% indica estagnação em patamares ainda absurdamente elevados. “Não significa que o país esteja seguro, mas que a violência estabilizou no topo”, resume.
Ela ressalta que as políticas públicas nacionais ainda são insuficientes para enfrentar o problema, o que ajuda a explicar o cenário no Amazonas. “Políticas de combate à violência contra a mulher não levam em conta a geografia e a vulnerabilidade territorial dos estados amazônicos", diz.
SUBNOTIFICAÇÃO
Outra questão relevante é o risco de subnotificação, seja em centros urbanos, por medo de denunciar ou falta de uma rede de apoio, seja por fatores territoriais, como mulheres que vivem em comunidades rurais, pequenas vilas ou aldeias indígenas, longe de delegacias e outras estruturas de segurança.
A diretora da Faculdade de Psicologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Iolete Ribeiro, diz que é preciso enfrentar a violência considerando os diferentes perfis de mulheres que podem ser alvo do crime.
"Com essa diversidade a gente precisa pensar políticas específicas. Essa deve ser uma atenção também que o estado do Amazonas deve prover às diferentes mulheres, como a gente diz, as diferentes mulheridades, em especial as mulheres indígenas, mas também as mulheres quilombolas do estado”, afirma.
EDUCAÇÃO
Segundo ela, também é importante que governos e sociedade atuem com mais força na educação contra a violência, incluindo as mulheres, mas principalmente os homens. “A gente precisa ensinar os homens a não estuprarem, a não violentarem as mulheres, e é falando sobre gênero, porque tem também uma pressão sobre os homens, uma cobrança para que reproduzam esse modelo da masculinidade hegemônica”, diz.
"O debate precisava ter maior profundidade e muitas vezes é raso, porque fica naquela coisa de comemorar o mês disso ou daquilo, colorir a cidade de rosa, mas sem oferecer assistência de fato, uma rede de serviços públicos que considere a pessoa e a demanda que ela tenha”, acrescenta.
Casa da Mulher ainda sem data
A Casa da Mulher Brasileira, anunciada para o Amazonas há mais de seis anos, em 2020, continua sem data prevista de abertura. O espaço, nascido de uma política federal, é um centro de atendimento humanizado e integrado para mulheres em situação de violência doméstica e familiar, mas que as mulheres amazonenses ainda não têm.
Fundadora do projeto Fênix Amazonas, que acolhe vítimas de todas as formas de violência, Jacqueline Suriadakis afirma que a ausência dessas políticas públicas também ajuda a explicar o aumento de casos de feminicídio no Amazonas.
"Esse aumento dos casos decorre da falta de conscientização das pessoas e de políticas públicas voltadas às mulheres. Acredito que outros estados fazem uma campanha incisiva em cima disso no ano todo, mas aqui no Amazonas isso não acontece muito”, pontua.
Procurada, a Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania do Amazonas (Sejusc-AM) afirmou que, em relação ao cronograma de retomada da obra e à previsão de publicação do edital para contratação da empresa responsável pelos serviços, a pasta já cumpriu todas as exigências solicitadas e que está em tratativas com a Caixa Econômica Federal para ajustes técnicos e orçamentários.
"O cronograma para conclusão dos serviços será definido após a contratação da nova empresa executora”, diz.