Estudantes da Ufam enfrentam escassez de alimentos, bloqueios, falta de transporte e insegurança durante intercâmbio acadêmico no país
Em meio à crise política e econômica que atinge o país, pesquisadores relatam dificuldades para encontrar alimentos (Foto: Reuters)
O que deveria ser um período de aprendizado e troca cultural se transformou em uma rotina marcada pela incerteza para estudantes brasileiros que vivem atualmente na Bolívia. Em meio à crise política e econômica que atinge o país, pesquisadores relatam dificuldades para encontrar alimentos, falta de transporte, suspensão de aulas e preocupação constante com a própria segurança.
A amazonense Derlane Rocha, de 34 anos, natural do Quilombo do Lago de Serpa, em Itacoatiara, está em La Paz há três meses realizando um mestrado sanduíche pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Ela conta que sabia das dificuldades econômicas enfrentadas pela Bolívia, mas não imaginava encontrar um cenário tão crítico.
"Hoje a situação afeta todos os aspectos da minha vida. Os bloqueios e as manifestações dificultam a circulação pela cidade e impactam diretamente a universidade e a continuidade da minha pesquisa... Estamos reduzindo as refeições porque não encontramos alimentos. Há filas enormes para comprar um quilo de carne ou um frango. Quando encontramos, ainda precisamos disputar o produto com outras pessoas", relatou.
Segundo Derlane, a falta de alimentos e até de água tem mexido com ela emocionalmente, chegando a prejudicar seu desempenho acadêmico. Além disso, ela também vive a preocupação de estar acompanhada da filha de 10 anos.
"É muito difícil manter o foco na pesquisa quando você não sabe se conseguirá comprar comida suficiente para a semana. A sensação é de viver em constante preocupação. Quando você vê mercados vazios, filas por combustível e alimentos e dificuldades para conseguir água e medicamentos, começa a pensar até que ponto consegue permanecer em meio a isso tudo", disse.
Em El Alto, um dos principais focos das manifestações, o estudante da Ufam Erik Rubem, de 31 anos, natural de Amaturá, no interior do Amazonas, relata que a rotina mudou completamente após o agravamento dos protestos. O amazonense está na Bolívia há três meses.
"Aquilo que parecia algo simples, como sair para tomar um café ou cumprir atividades da pesquisa, deixou de ser possível. Com a universidade sem funcionamento e o comércio fechado, nossas atividades precisaram ser interrompidas", contou.
Erik afirma que na cidade há muitos pontos de bloqueio, queima de pneus, interdições de vias e a formação de “cordões humanos”. Ele afirma que passou dias sem conseguir sair de casa devido à paralisação dos transportes públicos e privados.
"Os táxis, aplicativos e micro-ônibus não conseguiam circular. Até mesmo o teleférico teve as atividades suspensas em alguns momentos. Além disso, houve falta de dinheiro nos caixas eletrônicos e desabastecimento nos supermercados... Faltam água, gás e itens como frango, carne, peixe e ovos. Ir ao mercado diariamente se tornou uma experiência de angústia e insegurança", contou o amazonense.
Outro brasileiro que acompanha de perto os impactos da crise é o pesquisador mato-grossense José Antonio Ramos, de 39 anos, indígena do povo Chiquitano e estudante da Universidade de Brasília (UnB). Há pouco mais de dois meses em El Alto, ele afirma que a crise afeta diretamente as atividades acadêmicas e povos indígenas bolivianos, como os Aymara e Quechua.
"Não conseguimos realizar visitas de campo, ir à universidade ou utilizar bibliotecas. Além disso, toda essa situação afeta o psicológico e prejudica o rendimento das pesquisas... Tenho observado que essas populações [Aymara e Quechua] sofrem diretamente com a escassez de recursos básicos e com disputas institucionais que comprometem conquistas históricas desses povos", destacou.
Apesar das dificuldades, os estudantes afirmam que a principal rede de apoio tem sido formada pelos próprios brasileiros que vivem na Bolívia, que compartilham informações sobre alimentos, segurança e deslocamento.
A crise na Bolívia combina dificuldades econômicas e tensões sociais. A escassez de dólares e os problemas no abastecimento de combustíveis provocaram alta nos preços e levaram a protestos e bloqueios de estradas em diversas regiões do país desde o início de maio.
O Ministério das Relações Exteriores recomendou recentemente que brasileiros evitem viagens para algumas regiões bolivianas em razão dos bloqueios e da instabilidade no país. Enquanto aguardam uma normalização do cenário, os estudantes seguem divididos entre a vontade de concluir os projetos acadêmicos e a preocupação crescente com a própria segurança.