Rodovia Manaus – Porto Velho

Ambientalistas sinalizam judicialização de obra recém anunciada

Ibama diz que trecho precisa de licenças e Observatório do Clima já prepara judicialização de novo edital anunciado 

Waldick Júnior
04/04/2026 às 12:45.
Atualizado em 04/04/2026 às 13:18

Rodovia BR-319 foi construída nos anos 70, mas alto custo para manutenção resultou em abandono quase total (Arquivo/ AC)

A euforia expressa pelo governo federal e por parlamentares aliados ao anunciar o retorno de obras no trecho do meio da BR-319, em meio à pré-campanha eleitoral, pode durar pouco. Além de não ter sido recebida com o mesmo entusiasmo por defensores históricos da estrada, que citam ausência de detalhes, a medida já enfrenta a ameaça de uma nova disputa judicial.

Ex-diretora do Ibama e atual coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima (OC), Suely Araújo afirma que se o governo realmente estiver se baseando na Lei de Licenciamento Ambiental, como diz que está, há caminho para contestação. 

“Se estiverem usando o artigo 8º, inciso 7º, isso gera judicialização na hora, porque é um processo com significativo impacto ambiental. Não faz nenhum sentido aplicar o dispositivo. Mas nós temos que verificar”, diz ela, destacando que o OC vai aguardar a publicação do edital do governo no dia 10.

O Observatório conseguiu derrubar na Justiça, em 2024, a licença prévia para o trecho do meio da estrada, sob a alegação de desconsideração de dados técnicos. A decisão foi posteriormente revertida e a licença restaurada. Agora, há possibilidade real de a licitação anunciada também ir parar nos tribunais.

Em entrevista à Agência Cenarium, na quarta-feira (1), o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, reforçou o entendimento do órgão de que as obras na BR-319 precisam passar por todas as etapas do licenciamento ambiental, o que ainda não ocorreu.

“O Ibama entende que a BR-319 precisa de licenciamento. Por enquanto, o Dnit está abrindo os processos de contratação das obras, mas o entendimento da equipe técnica do Ibama é que as obras só podem começar após a conclusão do processo de licenciamento. Não houve solicitação ainda do licenciamento de instalação”, disse, abrindo margem para uma contestação das obras futuras.

Alerta

Até mesmo entre ativistas em favor da BR-319, o entusiasmo foi recebido com alerta.O presidente da Associação de Amigos e Defensores da BR-319, André Marsílio, afirma que ficou espantado com a falta de informações sobre a recuperação da estrada.

“Me espanta, neste momento de ano eleitoral, anunciar a repavimentação sem ter apresentado o plano, alguns estudos relacionados ao meio ambiente. A gente sabe que a Justiça está batendo nesses pontos”, comentou.

A visão é compartilhada pelo advogado e engenheiro civil Maurício Costa, que atua há 30 anos em defesa da rodovia. “Não se trata das obras de repavimentação do trecho do meio, e sim da continuidade dos serviços de manutenção e conservação de 339,4 quilômetros desse segmento central, de um total de 405,7 quilômetros. Isto evidencia a perpetuação da chamada “indústria da Manutenção”, termo este de autoria do ex-deputado estadual Serafim Correia”, argumenta.

Para ele, a reconstrução do trecho do meio ainda depende da aprovação do Plano Básico Ambiental (PBA) pelo Ibama para, só então, obter a Licença de Instalação (LI), sem a qual as obras não podem ser iniciadas.

Novo entendimento possibilitou autorização

Durante uma coletiva de imprensa, na última terça-feira (31), o ministro Renan Filho anunciou ações estruturantes para a BR-319/AM e serviços de melhorias na BR-174/AM. Ao lado dele, estavam o senador Omar Aziz (PSD), pré-candidato ao governo, e o senador Eduardo Braga (MDB), pré-candidato à reeleição, além de outros parlamentares do estado.

“Nós vamos iniciar a pavimentação de um trecho muito importante da BR-319. É um trecho desafiador da rodovia e conseguimos garantir não só a manutenção, mas também o melhoramento e a pavimentação. Isso vai tirar as pessoas do Amazonas da lama no inverno e da poeira no verão, além de reduzir o isolamento”, afirmou Renan Filho.

A BR-319 é dividida em dois trechos de cerca de 250 quilômetros nas extremidades, entre Manaus e Porto Velho, e o trecho do meio, com pouco mais de 400 quilômetros. É nesse segmento que o governo anunciou novas obras estruturantes, incluindo drenagem, elevação da via, base e revestimento.

O governo diz que o avanço foi possível a partir da nova Lei do Licenciamento Ambiental, que afrouxou a legislação para esse tema, e de um novo entendimento jurídico da Advocacia-Geral da União (AGU), que passou a diferenciar obras de implantação de novas rodovias daquelas voltadas à recuperação de estradas já existentes.

Na coletiva de terça-feira, o senador Eduardo Braga citou o artigo 8º da lei, que lista atividades e empreendimentos não sujeitos a licenciamento ambiental. No inciso VII, o texto inclui “serviços e obras voltados à manutenção e ao melhoramento da infraestrutura em instalações preexistentes ou em faixas de domínio e de servidão, incluindo rodovias anteriormente pavimentadas e dragagens de manutenção”.

“Quero fazer justiça ao ministro Jorge Messias, da AGU, que, consultado pela Procuradoria do Ministério dos Transportes, deu parecer favorável, em anuência com o Ministério dos Transportes e com o DNIT, para que pudéssemos culminar, no dia de hoje, com a assinatura das ordens de serviço e dos editais que serão publicados no dia 10 para a pavimentação e o melhoramento do trecho do meio.”, disse Eduardo Braga.
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