Aos 100 anos, seu Antônio mantém uma rotina que revela a lucidez preservada ao longo das décadas.
(Foto: Paulo Bindá)
Se existe um desejo que muitos filhos carregam, é o de ter o pai por perto pelo maior tempo possível. Neste domingo (9/8), Dia dos Pais, a família do comandante aposentado Antônio Martins de Melo celebra não apenas esta data, mas um século inteiro ao lado do patriarca, que completa 100 anos justamente no mesmo dia, tornando o aniversário ainda mais simbólico.
Aos 100 anos, seu Antônio mantém uma rotina que revela a lucidez preservada ao longo das décadas. Segundo a filha dele, a pedagoga Maria Antônia, de 63 anos, todos os dias ele lê o jornal A Crítica e acompanha os noticiários pela televisão. O que ele ainda não sabe é que, neste domingo, ao abrir o jornal que acompanha há tantos anos, vai se encontrar nas páginas que, por uma vida inteira, leu para conhecer as histórias dos outros.
“Meu pai teve uma vida de muito trabalho. Começou ainda criança no roçado, passou pelo seringal, trabalhou na extração do látex e, aos 17 anos, começou como taifeiro no navio Itacoatiara. Depois, estudou, tornou- -se comandante e veio para Manaus com o desejo de dar uma boa educação aos filhos. Hoje, aos 100 anos, continua com uma lucidez invejável, lendo A Crítica todos os dias e acompanhando os noticiários”, contou Maria Antônia.
LONGO PERCURSO
Os filhos contam que foram décadas atravessadas por seringais, rios, viagens, trabalho, família e sonhos realizados com as próprias mãos. Uma trajetória que começou no Acre, passou pela vida nos seringais e encontrou na navegação pelos rios da Amazônia uma profissão e um caminho para sustentar e oferecer uma vida melhor aos cinco filhos que teve com a esposa, Maria de Lourdes.
Nascido em 9 de agosto de 1926, em Sena Madureira (AC), Antônio foi o segundo dos 11 filhos de João e Petronília. Ainda criança, ajudava o pai no roçado. Aos 14 anos, começou a estudar com um professor contratado pelo patrão do seringal. Aos 16, foi para Boca do Acre morar com os padrinhos para continuar os estudos. Chegou até o terceiro ano primário.
Mas foi outro cenário que despertou sua atenção ao passar pelo porto a caminho da escola.
“Ele se encantou pelos navios e pela farda dos marinheiros quando passava pelo porto. Fez amizade com alguns marinheiros, ganhou uma caixa de engraxate e começou a engraxar sapatos para juntar dinheiro. Com esse trabalho, conseguiu comprar o primeiro par de sapatos. Aos 17 anos, começou como taifeiro no navio Itacoatiara e foi aprendendo as funções a bordo até se tornar piloto fluvial e comandante”, relatou Maria Antônia.
Junto da família
E neste domingo, quando Antônio Martins de Melo completar um século de vida exatamente no Dia dos Pais, ele estará ao lado daqueles que cresceram sabendo que, mesmo quando os rios da Amazônia o levavam para longe, havia uma certeza que nunca mudou: aquele homem partia para trabalhar, mas sempre voltava para casa.
O mesmo lar que hoje reúne filhos e família para celebrar a história de um homem que transformou suas viagens pelos rios em caminhos para construir um futuro melhor para quem amava.
Longas viagens… mas sempre retornava
Outro filho de Antônio Martins, o técnico em Agropecuária Janes Melo, de 59 anos, conta que além de seringueiro, o pai trabalhou em regatão, alimentando de lenha a caldeira, e até como operador de projetor de cinema em Rio Branco (AC). Ele também era conhecido pelo jeito alegre e, nas festas, gostava de tocar violão e cavaquinho, segundo os filhos.
(Foto: Paulo Bindá)
Com o fim do ciclo da borracha e o desejo de continuar os estudos para se tornar comandante e garantir uma boa educação aos filhos, Antônio decidiu mudar-se com a família para Manaus, onde fez o curso para piloto fluvial na Capitania dos Portos e conseguiu seguir a carreira que tanto sonhava.
“Ele sempre teve muita dedicação ao trabalho. Mesmo depois de se aposentar como comandante, não conseguiu ficar longe dos rios. Continuou trabalhando com barco de recreio e no transporte de passageiros entre Manaus e Santarém(PA). Depois, ainda abriu dentro de casa uma pequena usina de processamento de açaí, o Açaí Du Bom”, relembra o filho.
Janes destacou que a vida profissional do pai foi marcada por viagens e períodos longe de casa. Para os filhos, porém, ele sempre deixava uma certeza: logo, logo estaria de volta para casa.
“De uma longa história, desde o seringal nas trilhas da floresta até os rios do Amazonas, deixamos aqui nossa admiração, nosso respeito e nossa gratidão por todo o esforço do nosso pai. Apesar do sacrifício de se afastar da família durante longas viagens para garantir nosso sustento, ele sempre deixava uma promessa que cumpria: a volta para casa”, destaca Janes.