O que uma casa acolhedora para pessoas autistas precisa ter?
Para a arquiteta Lediane Barbosa, uma das principais mudanças já pode ocorrer na hora de escolher os materiais para um projeto (Divulgação)
A arquitetura, mais do que projetar edificações, é a arte e a ciência de criar espaços que dialogam com as necessidades humanas, influenciando comportamentos, sensações e formas de viver. Ao longo do tempo, esse campo expandiu seu olhar para além da estética e da funcionalidade, incorporando aspectos ligados ao bem-estar e à experiência sensorial. Nesse contexto, surgem abordagens como a neuroarquitetura, que investiga como elementos como luz, cores, sons, texturas e organização dos ambientes impactam diretamente o funcionamento do cérebro e as emoções.Essa perspectiva ganha ainda mais relevância quando aplicada ao Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Segundo dados do Censo 2022, divulgados em 2025, mais de dois milhões de brasileiros declararam ter recebido o diagnóstico, o equivalente a 1,2% da população. Pessoas no espectro autista, em geral, apresentam diferenças na interação social, na comunicação e no comportamento, além de uma percepção sensorial mais intensa, o que pode tornar estímulos cotidianos,como ruídos, iluminação ou cheiros,fontes de desconforto e sobrecarga.
Diante disso, pensar a arquitetura como ferramenta de acolhimento torna-se essencial. Projetos voltados para pessoas com TEA consideram aspectos como acústica, iluminação, organização dos espaços e escolha dos materiais para criar ambientes mais previsíveis, tranquilos e confortáveis. Ao alinhar conhecimento técnico e sensibilidade, a arquitetura contribui para reduzir o estresse, promover bem-estar e transformar a casa em um espaço verdadeiramente adaptado às diferentes formas de perceber o mundo.
Para a arquiteta, Lediane Barbosa, uma das principais mudanças já pode ocorrer na hora de escolher os materiais para um projeto. "Os materiais interferem diretamente na forma como o ambiente é percebido pelo toque, pela visão, pela audição e até pelo olfato. Para algumas pessoas autistas, superfícies muito brilhantes, estampas intensas, texturas ásperas ou ruídos produzidos pelo contato com o piso podem gerar desconforto e sobrecarga sensorial.
Além da escolha adequada de materiais, um ambiente pensado para pessoas com TEA deve priorizar o equilíbrio sensorial e a previsibilidade. Isso inclui o controle de ruídos, com soluções que minimizem sons externos e ecos; o uso de iluminação suave, preferencialmente natural ou indireta; e uma organização espacial clara, com ambientes bem definidos para cada atividade. Cores neutras ou suaves, redução de estímulos visuais excessivos e a criação de espaços de refúgio, onde a pessoa possa se recolher em momentos de sobrecarga, também são estratégias importantes para promover conforto e segurança no cotidiano.
Dessa forma, a psicóloga Adriana Rodrigues, especializada em psicopedagogia, que lida diretamente com crianças com TEA, reforça que o ambiente tem papel fundamental no comportamento e no desenvolvimento. Segundo ela, espaços desorganizados ou com excesso de estímulos podem intensificar crises e dificultar a concentração, enquanto ambientes estruturados e sensorialmente equilibrados contribuem para a regulação emocional e a autonomia.
Ainda sobre a construção do espaço, Adriana destaca sobre a criança com autismo, se sentir pertencente ao local. "Temos que pensar no espaço paraque a criança identifique o ambiente aquele espaço ali é para ela se sentir acolhida, de certa forma. Ele tem que ter um espaço que tenha os brinquedos dele, tem as atividades pedagógicas, que se faz necessário também nesse ambiente, que ele tenha um ambiente separado para que ele consiga identificar que aquele ambiente ali pertence a ele, então ele já se sente à vontade", afirma.
Adriana Rodrigues, psicologa, destaca a importância de que a criança com autismo precisa se sentir pertencente ao ambiente
Além disso, a flexibilidade do ambiente é outro ponto essencial em projetos voltados para pessoas com TEA, permitindo que um mesmo espaço atenda a diferentes necessidades ao longo do dia. Em vez de ambientes rígidos e estáticos, a proposta é oferecer possibilidades: áreas mais silenciosas, espaços de convivência, zonas de concentração e pequenos refúgios para momentos de sobrecarga.
Essa adaptação pode ser feita por meio de soluções como painéis deslizantes, cortinas, portas de correr, mobiliário móvel e iluminação setorizada, possibilitando dividir ou integrar ambientes conforme a necessidade. Assim, uma sala pode ser mais aberta em momentos de interação e se tornar mais reservada quando for preciso reduzir estímulos.
Por fim, a adequação dos espaços impacta diretamente na qualidade de vida das pessoas com autismo, tornando o ambiente não apenas funcional, mas verdadeiramente acolhedor. A psicóloga Adriana Rodrigues reforça que cada detalhe deve ser pensado de forma individualizada.