BR-319

BR-319 mantém 86% de vegetação nativa, enquanto agropecuária avança na Amazônia

Entre as principais rodovias da Amazônia, a BR-163 apresenta 39% de agropecuária em seu raio de 20 quilômetros, enquanto na BR-364 esse percentual chega a 43,5%.

Omar Gusmão
15/10/2026 às 08:15.
Atualizado em 15/10/2026 às 08:15

(Foto: Agência Brasil)

O entorno das rodovias na Amazônia costuma ser ocupado pela agropecuária. Nos territórios localizados até 5 quilômetros das vias, a atividade ocupa 40,2% da área, o equivalente a 63 milhões de hectares. A BR-319, entretanto, é uma exceção: a vegetação nativa ainda ocupa 86% em um raio de 20 quilômetros da estrada. Os dados fazem parte da Coleção 11 do MapBiomas, com mapas anuais da cobertura e do uso da terra do Brasil entre 1985 e 2025.

Para se ter uma ideia da diferença, Entre as principais rodovias da Amazônia, a BR-163 apresenta 39% de agropecuária em seu raio de 20 quilômetros, enquanto na BR-364 esse percentual chega a 43,5%.

Na média, nos territórios localizados até 5 quilômetros das vias, a agropecuária ocupa 40,2% da área, o equivalente a 63 milhões de hectares. A atividade diminui à medida que aumenta a distância das estradas. Considerando um raio de 20 quilômetros das vias, ela representa 26,7% da área.

A vegetação nativa segue o movimento inverso: corresponde a 56,7% da área localizada a até 5 quilômetros das estradas e chega a 69,3% considerando um raio de 20 quilômetros. A Amazônia tem 618 mil quilômetros de estradas, considerando vias identificadas a partir de diferentes bases de dados, dos quais 41,5 mil quilômetros estão dentro de áreas protegidas do bioma.

ACESSO FACILITADO

O pesquisador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e do MapBiomas Bruno Ferreira destaca que as estradas facilitam o acesso ao território e favorecem a expansão da agropecuária. Esse processo, segundo ele, não se limita às rodovias principais: a abertura de ramais também permite que a ocupação avance sobre áreas de floresta antes mais isoladas.

“No caso da BR-319, a pavimentação pode estimular novas frentes de ocupação e ampliar a pressão sobre áreas ainda preservadas. Por isso, é fundamental avaliar os impactos indiretos da obra e fortalecer o ordenamento territorial e a fiscalização ambiental antes que essa ocupação se consolide”, alerta o pesquisador. Bruno Ferreira ressalta a importância de um plano de governança de curto e longo prazo para evitar conexões de frentes de desmatamento a áreas ainda preservadas.

AVANÇO DA AGROPECUÁRIA

Muito embora a Amazônia tenha registrado, em 2025, o menor desmatamento da série histórica, o bioma perdeu 54,7 milhões de hectares de vegetação nativa desde 1985, enquanto a agropecuária avançou 440%. Esse movimento mostra que, em grande parcela, o desmatamento no bioma dá lugar à agropecuária.

“É importante diferenciar esses indicadores. O desmatamento representa a supressão de vegetação nativa, primária ou secundária, em determinado período, enquanto os 54,7 milhões de hectares representam a perda acumulada de vegetação nativa desde 1985”, afirma Bruno Ferreira.

“Já o crescimento de 440% da agropecuária mostra a dimensão da transformação do território ao longo dessas quatro décadas, e mostra para onde foi a vegetação nativa. Ela deu lugar, na maioria das vezes, à Agropecuária”, pontua.

TERRAS INDÍGENAS

Outro dado interessante revelado pela Coleção 11 do MapBiomas é que o estudo aponta que as terras indígenas mantêm 98,9% de sua área coberta por vegetação nativa, enquanto áreas de imóveis rurais apresentam maior participação da agropecuária.

“O fato de as terras indígenas manterem 98,9% de sua área coberta por vegetação nativa reforça a importância desses territórios para a conservação da Amazônia. Em contrapartida, os imóveis rurais apresentam maior participação da agropecuária, evidenciando diferentes padrões de uso e ocupação do território”, avalia o pesquisador.

Indagado sobre que políticas públicas e mecanismos de fiscalização são necessários para conter o avanço do desmatamento no entorno das áreas protegidas, Bruno Ferreira afirmou que o desafio é conter o avanço do desmatamento tanto no entorno das áreas protegidas quanto nas áreas privadas.

“ Para isso, precisamos fortalecer a fiscalização ambiental, combater a grilagem, aprimorar o controle sobre o uso da terra e incentivar a recuperação de áreas degradadas e a produção em áreas já abertas”, aconselha o especialista. “No Amacro, essas medidas são especialmente importantes para reduzir a pressão sobre as florestas remanescentes, visto que essa é uma fronteira recente do desmatamento na Amazônia”, diz, se referindo à área que reúne Amazonas, Acre e Rondônia, conhecida como Amacro.

Diferenças

O recorte por estado também mostra diferenças dentro do bioma. Considerando apenas a área de cada estado inserida na Amazônia, a proporção de vegetação nativa em 2025 variava de 95,5% no Amapá a 24,6% no Tocantins. Amazonas (94,6%), Roraima (92,3%) e Acre (84,2%) completam o grupo com as maiores proporções. Na outra ponta, depois do Tocantins, aparecem Maranhão (49,8%), Rondônia (59,1%) e Mato Grosso (61,7%).

As áreas úmidas da Amazônia, que reúnem rios e lagos, florestas alagáveis, campos alagados, mangues e apicuns, somavam 59,8 milhões de hectares em 2025, 2,7 milhões de hectares (4,4%) a menos que em 1985. Os dez anos com menor área úmida da série foram registrados na última década. Das áreas úmidas convertidas para outros usos no período, 60% passaram a ser pastagem.

Amacro: queda de 16%

As transformações não ocorreram de maneira uniforme em todo o bioma. No chamado Amacro, área que reúne municípios do Amazonas, Acre e Rondônia, a vegetação nativa diminuiu cerca de 7 milhões de hectares desde 1985, uma redução de 16%.

A região, que ocupa 11% do bioma, responde por 13% de toda a perda de vegetação nativa registrada na Amazônia no período. A maior perda na região ocorreu na última década: 2,7 milhões de hectares entre 2015 e 2025. Desde 1985, a área de pastagem na região ficou cerca de 15 vezes maior, com acréscimo de 6,6 milhões de hectares na região.

A situação também varia conforme a categoria territorial. Em 2025, as Terras Indígenas mantinham 98,9% de sua área coberta por vegetação nativa. Nas áreas de imóveis rurais, a agropecuária ocupava 38,8% da área. Já nas terras públicas ou sem registro fundiário georreferenciado, a vegetação nativa correspondia a 76,4% e a agropecuária a 21,5%.

Agro ocupa 15,5% da Amazônia

No bioma como um todo, a agropecuária ocupava 65,3 milhões de hectares em 2025, o equivalente a 15,5% da Amazônia. A pastagem responde pela maior parte dessa área, com 50,8 milhões de hectares (12% do bioma), enquanto a agricultura soma 8,6 milhões de hectares (2%).

Parte das áreas abertas para pastagem foi convertida depois em agricultura: são 3,7 milhões de hectares, ou 6,2% das áreas desmatadas mapeadas, concentrados principalmente em Mato Grosso, Rondônia e Pará.

A mineração também ampliou sua área. Em 1985, as áreas de mineração ocupavam 32 mil hectares na Amazônia. Em 2025, chegaram a 440 mil hectares, quase 14 vezes a área registrada no início da série. Do total acumulado de mineração, 47% foi aberto nos últimos dez anos.

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