Mídias sociais

Brasil tem mais influenciadores, e Manaus disputa espaço online

Com 3,8 milhões de criadores, o país transforma seguidores em ativo, e empreendedores do Amazonas disputam visibilidade para vender.

acritica.com
17/04/2026 às 14:39.
Atualizado em 17/04/2026 às 14:39

(Foto: Reprodução/Freepik)

Em novembro de 2025, um levantamento do Reglab, Centro de Estratégia & Regulação, entregou um dado que poucos setores produtivos tinham. O Brasil é o país com mais influenciadores digitais no mundo, com 3,8 milhões de criadores de conteúdo num mercado que movimenta R$ 20 bilhões por ano.

A comparação feita pelos próprios pesquisadores é dura e reveladora. Existem mais influenciadores no país do que médicos, engenheiros ou advogados com registro profissional ativo.

Esse número não é apenas uma curiosidade estatística. Ele descreve uma categoria econômica inteira que se consolidou fora do eixo tradicional do trabalho formal, ocupando espaço em praticamente todas as capitais brasileiras.

Em Manaus, o efeito é visível no dia a dia do comércio. Confeitarias de Adrianópolis, lojas do Centro, pequenos restaurantes da Ponta Negra, artesãs do São Raimundo, produtores do interior que mandam açaí, castanha e guaraná para o país inteiro, todos compartilham o mesmo cenário. Para existir comercialmente, precisam existir digitalmente. E existir digitalmente, na prática, significa ter número.

Por que o tamanho da audiência virou vitrine

A lógica do algoritmo mudou o que antes era uma métrica de vaidade. Quando um consumidor pesquisa um restaurante, uma pousada em Presidente Figueiredo ou uma marca de cosméticos da floresta no Instagram, o perfil com 800 seguidores compete em condição desigual com o de 8 mil.

Não é apenas percepção. Pesquisas recentes indicam que micro e nanoinfluenciadores apresentam taxas de interação até quatro vezes maiores do que influenciadores com grandes audiências, e são justamente esses perfis menores que dominam o mercado brasileiro de criadores.

O retrato interno do setor confirma a relevância das contas pequenas. O Censo de Criadores de Conteúdo no Brasil 2025 mostra que 33% dos influenciadores entrevistados têm até 10 mil seguidores, 38% têm de 10 mil a 50 mil e 12%, de 50 mil a 100 mil.

Ou seja, oito em cada dez criadores profissionais atuantes no país operam abaixo da casa dos cem mil seguidores. É neste estrato que a maior parte do empreendedorismo brasileiro se encaixa, incluindo a quase totalidade das pequenas marcas amazonenses.

A escala do mercado acompanha a especialização. A Creator Economy deve praticamente dobrar nos próximos cinco anos, movimentando US$ 480 bilhões no mundo até 2027, segundo dados da Goldman Sachs.

No marketing de influência especificamente, as projeções do HypeAuditor em parceria com a ESPM indicam expansão global até US$ 31,2 bilhões em 2027, um crescimento de 57% em relação a 2024, enquanto 61% dos líderes de marketing no Brasil planejam ampliar investimentos na área nos próximos 12 meses.

Há uma mudança de função em curso. A rede social deixou de ser canal de marketing auxiliar e passou a ser canal primário de prospecção, catálogo de produtos e prova social ao mesmo tempo.

Para o pequeno empreendedor amazonense, que muitas vezes não tem orçamento para agência de publicidade, o perfil é o site, a vitrine e o portfólio. O número que aparece ao lado da arroba funciona como selo de reputação.

O que o Sebrae Amazonas identificou

A digitalização do comércio local não passou despercebida pelas instituições que acompanham o empreendedorismo no estado. O Sebrae no Amazonas projeta alcançar R$ 60 milhões em operações de crédito em 2026, em parceria com a Agência de Fomento do Estado do Amazonas (Afeam).

Em 2025, já foram viabilizados R$ 55,8 milhões em crédito no estado, sendo R$ 13 milhões por meio das Salas do Empreendedor, reforçando o alcance da iniciativa e a capilaridade do atendimento nos 62 municípios amazonenses.

Boa parte desse dinheiro, que chega pelas mãos dos microempreendedores individuais e das pequenas empresas, acaba passando, em algum momento, pela conta de marketing digital.

O próprio Sebrae/AM mantém em sua linha de capacitações pautas específicas como "Microinfluenciadores: aliados dos pequenos negócios no Amazonas" e o Digital Day Sebrae, evento que já impactou mais de 25 mil empreendedores em edições anteriores e concentra conteúdos sobre redes sociais, tráfego pago e marketing de influência.

A leitura é pragmática. Existe demanda no Amazonas, existe mercado consumidor aquecido pelo polo industrial de Manaus e pela Zona Franca, e existe uma lacuna entre o pequeno empreendedor do interior ou da capital e o profissional capaz de estruturar sua presença digital. Fechar essa lacuna virou linha de negócio.

A matemática da prova social

O termo técnico usado por pesquisadores de comportamento de consumo é prova social. Quando alguém chega a um perfil novo, o cérebro busca atalhos para decidir se aquela conta merece atenção. Um dos atalhos mais poderosos é o número de seguidores. Perfis baixos acionam o filtro da desconfiança. Perfis altos acionam o filtro da curiosidade.

A consequência comercial é direta. Uma pousada nova em Presidente Figueiredo com 400 seguidores tem muito mais dificuldade de converter o olhar de um turista em reserva do que a concorrente instalada há dois anos com 15 mil seguidores. A diferença não está na qualidade do atendimento nem na estrutura do empreendimento. Está na percepção prévia, construída antes do primeiro contato real.

Nesse ponto, muitos empreendedores iniciantes passam a considerar estratégias pagas de crescimento, seja por anúncios dentro da plataforma, seja por serviços externos de aquisição de seguidores.

Uma das opções mais baratas do mercado brasileiro, para quem está testando, é comprar seguidores a partir de valores simbólicos, funcionando como ponto de partida para perfis comerciais que precisam sair da estaca zero. A lógica é a mesma de qualquer investimento inicial em prova social, criar um piso de credibilidade que encurte o tempo entre a descoberta do perfil e a primeira conversão.

Não é uma estratégia isolada. Ela convive, na rotina dos pequenos negócios, com anúncios pagos no Instagram, parcerias com microinfluenciadores locais, presença em eventos como o Festival de Parintins e a Expoagro, e produção de conteúdo orgânico. O que mudou é o reconhecimento de que a base numérica importa e que existe um mercado paralelo dedicado a fornecer essa base.

O perfil de quem vive de conteúdo no Brasil

Entender quem compõe essa economia ajuda a dimensionar o tamanho do jogo. Segundo a mesma pesquisa do Reglab, as mulheres cisgênero dominam o setor, com 74,7% do total. A maioria está na faixa dos 30 aos 39 anos, proporção de 36%, e 49% dos influenciadores são brancos, 31% pardos e 16% pretos.

O peso regional mostra o desafio amazonense. A região Sudeste concentra 56% dos influenciadores digitais, enquanto o Nordeste tem 18% e o Sul, 14%. O Norte responde por fatia menor, mas tem produzido nos últimos anos fenômenos de alcance nacional e até global.

O caso mais emblemático é o da cantora Juliette, amazonense por adoção cultural, que em passagem recente divulgou ONGs do estado e fez a publicação alcançar mais de 14 milhões de pessoas. Festival de Parintins, turismo na floresta, produtos da sociobiodiversidade e a cena gastronômica manauara viraram geradores recorrentes de pauta nas redes.

A infraestrutura de conectividade também evoluiu. O número de pessoas conectadas à internet no Brasil aumentou em 6,1 milhões nos últimos dois anos, atingindo 89,1% da população com 10 anos ou mais em 2024, segundo a PNAD Contínua.

A internet estava presente em 93,6% dos domicílios brasileiros em 2024, conforme dados do IBGE, e mais de 90% dos usuários acessam redes sociais pelo celular, de acordo com o Digital Report 2025. No interior do Amazonas, onde a logística física ainda impõe custos altos e prazos longos, o celular passou a ser a principal vitrine e, em muitos casos, a única acessível.

Em resumo, o público está disponível, o acesso está resolvido, as marcas estão dispostas a pagar, e a questão que resta para o criador iniciante ou para o pequeno empreendedor é operacional. Como sair do zero sem gastar o que não tem.

O risco de ignorar a base numérica

A tentação natural de um gestor é imaginar que o crescimento orgânico resolverá o problema. Em alguns casos, resolve. Em muitos, não. O criador que está começando enfrenta o paradoxo clássico do setor.

Ninguém o segue porque ele não tem seguidores, e ele não tem seguidores porque ninguém o segue. A mesma armadilha se aplica ao pequeno comerciante, seja ele dono de uma lancheria em Cidade Nova, de um ateliê de roupas em Flores ou de uma pousada ribeirinha no Rio Negro.

O dado da Favikon sobre monetização ajuda a dimensionar esse gargalo inicial. Apenas 22% dos influenciadores conseguem monetizar diretamente seu conteúdo em 2025, conforme relatório da Favikon.

A maioria recorre a fontes alternativas de receita, como venda de produtos próprios, cursos e acordos de afiliados. Ou seja, a renda do criador raramente vem diretamente da plataforma. Vem da conversão do seguidor em cliente, em aluno, em participante de uma comunidade paga. E essa conversão depende, em primeiro lugar, da existência do seguidor.

O setor privado já enxerga isso com clareza. Segundo o Censo de Criadores, 74% das pessoas dizem ser influenciadas a experimentar produtos a partir de conteúdo trazido por microinfluenciadores.

A decisão de compra do consumidor brasileiro passa hoje, em grande parte, por um perfil de até cem mil seguidores que ele considera confiável. E o que torna um perfil confiável aos olhos do novo visitante, na primeira fração de segundo, é a combinação entre conteúdo visível e número verificável.

Para onde o mercado caminha

A tendência de profissionalização não deve recuar. Entre 2015 e 2025, o Congresso Nacional recebeu 88 projetos de lei para regular a atividade dos influenciadores digitais, cujas justificativas revelam uma construção ambígua.

Reconhecido em alguns momentos como profissional legítimo, o influenciador também é descrito como risco social. A regulação virá, em algum ponto, e tende a separar ainda mais o amador do profissional.

Para o pequeno empreendedor amazonense, a leitura prática é a seguinte. A presença nas redes deixou de ser acessório. Ela é canal de vendas, cartão de visita e argumento de autoridade ao mesmo tempo. O custo de ficar invisível é maior do que o custo de investir em estruturação digital, seja por meio orgânico, seja por meio pago, seja pela combinação dos dois caminhos.

Manaus, que sempre concentrou sua atividade econômica na Zona Franca e no comércio de fronteira, diversificou. Restaurantes, pousadas, produtoras de vídeo, artesãs, nutricionistas, personal trainers, arquitetos, professores particulares e pequenos varejistas estão disputando atenção numa vitrine que abre vinte e quatro horas por dia e não fecha nunca. Nessa vitrine, o seguidor é a moeda que abre ou fecha portas.

Quem entendeu isso cedo construiu audiência. Quem entender agora ainda está dentro da janela. Quem ignorar continua invisível, num mercado de R$ 20 bilhões que cresce todo ano e não espera por ninguém.

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