ESPECIAL COPA

Brasileira divide coração entre Brasil e Noruega

Morando na Noruega há 25 anos, Andrea Nakata vive a expectativa do duelo entre o país onde nasceu e o que escolheu para construir a família na Copa de 2026.

Daniel Brandão
online@acritica.com
05/07/2026 às 09:45.
Atualizado em 05/07/2026 às 09:45

A história do casal, Andrea e Stig Ole, é marcada por encontros de culturas e pela paixão compartilhada pelo futebol (Foto: Arquivo Pessoal)

Quase três décadas depois do encontro histórico no Estádio Vélodrome, na Copa do Mundo de 1998, quando a Noruega surpreendeu o Brasil com uma vitória de virada por 2 a 1, o destino voltou a cruzar os caminhos das duas seleções. Neste domingo (5), pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, o duelo reacende memórias e expectativas, colocando frente a frente tradição e ousadia em um jogo que promete mexer com os corações de torcedores espalhados pelo mundo.

Entre esses corações está o da brasileira Andrea Nakata, que há 25 anos divide a vida com o norueguês Stig Ole Nordaas na pequena cidade de Finnsnes, no condado de Troms, no norte da Noruega. A história do casal, marcada pelo encontro de culturas e pela paixão compartilhada pelo futebol, ganha contornos especiais neste Mundial, em que amor, cumplicidade e celebração se encontram dentro e fora de campo.

Nascida em São Paulo, Andrea cresceu em Manaus e se considera amazonense. No fim de 1998, conheceu Stig por meio da internet. O norueguês veio ao Brasil para que os dois se conhecessem pessoalmente. Eles namoraram por cerca de dois anos e meio, depois Andrea se mudou para a Noruega com ele. O casal se casou e passou a viver no país de origem de Stig, onde mora há 25 anos.

Casados há 25 anos, o duelo entre Brasil e Noruega, pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, representa um momento único para o casal, que se conheceu justamente no ano em que o Brasil foi derrotado pelos noruegueses na Copa de 1998. Independentemente do resultado, porém, a família veste a camisa amarelinha com orgulho.

“Todos os países torcem para o Brasil. Qualquer outro país, no futebol, é Brasil. O meu marido sempre torceu pelo Brasil desde que a gente se casou. A última Copa que a Noruega disputou foi em 1998. É claro que ele torce pela Noruega, mas, como ela não se classificou para as últimas Copas, ele e meu filho passaram a torcer pelo Brasil. Eles vestem a camisa da Seleção, a gente pendura a bandeira do Brasil em casa. É uma experiência única para a gente”, relatou Andrea.

Morando na Noruega há 25 anos, a brasileira já considera o país sua segunda pátria. Entretanto, quando as duas nações entram em campo, é o país onde nasceu que fala mais alto.

Em partida onde as duas nacionalidades entram em campo, a primeira pátria é quem leva vantagem. (Foto: Arquivo Pessoal)

“Eu torço para o Brasil e torço para a Noruega. Só que não tem jeito. O coração fala pela minha pátria. Agora que é Brasil e Noruega, todo mundo está me perguntando para quem eu vou torcer. Eu nunca recebi tantas mensagens desde que me mudei para a Noruega. Pessoas do Brasil e da Noruega estão me perguntando isso. Mas não tem jeito: meu coração escolhe o Brasil”, salientou Andrea.

Independentemente do resultado do jogo eliminatório, a brasileira confessa que não ficará triste. Mesmo que o Brasil seja eliminado, ela diz que ficará feliz por ver a Noruega seguir na competição. Da mesma forma, comemorará caso a seleção brasileira avance às quartas de final da Copa.

“Não tem como esconder das pessoas que eu vou torcer para o Brasil. Meu marido e meu filho até ficam sem graça, porque nem sabem como torcer para a Noruega contra o Brasil. Meu marido diz que vai torcer para a Noruega e ainda brinca que ela vai ganhar”, declarou Nakata.

Significados

“Perder para o Brasil é quase uma honra”, comentou o norueguês Stig Ole Nordaas, marido da brasileira Andrea Nakata, sobre o confronto entre Brasil e Noruega, pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, que será disputado neste domingo (5), no MetLife Stadium, em East Rutherford, no estado de Nova Jersey (EUA).

Andrea explica que, para os noruegueses, a vitória de virada sobre a seleção brasileira na Copa do Mundo de 1998 representa o maior feito da história do futebol do país. Por isso, o reencontro entre as duas seleções em 2026 desperta grande expectativa entre a família.

“Em 98 eles ganharam do Brasil na Copa. E, assim, o maior feito da história do futebol norueguês até hoje é esse jogo de que a gente quase nem lembra. Mas, para eles, é o maior feito. Ele, claro, torce para a Noruega, mas não tem briga. Meu filho ficou sem graça quando a seleção norueguesa ganhou. Ele falou: ‘Mãe, eu vou torcer para a Noruega’. Eu disse que tudo bem. Ele nasceu aqui, fala português e adora o Brasil”, comentou Andrea.

Os momentos especiais vividos pela família nipo-brasileira e norueguesa também representam a reafirmação da cultura e das tradições. Nascida em São Paulo, criada em Manaus e amazonense de coração, Andrea faz questão de manter presentes, nesses encontros, pratos típicos dos dois países.

Momentos especiais entre a família norueguesa-brasileira representam também a reafirmação da cultura e das tradições. (Foto: Arquivo Pessoal)

“Quando o Brasil vai jogar, eu faço pão de queijo e tapioca, e a gente assiste ao jogo comendo. No primeiro tempo eu preparo a tapioca e, quando começa o segundo, meu marido é quem faz a goma. Ele é norueguês, mas aprendeu a preparar tapioca. Em casa, a culinária amazonense está sempre presente, e o prato preferido dele é o tambaqui”, contou Andrea.

A brasileira relata que, desde a infância, seu filho e os amigos costumavam ir à casa da família para comer tapioca, que eles chamavam de “panqueca brasileira”. Além da culinária brasileira, os encontros também reservam espaço para uma tradição gastronômica norueguesa.

“Agora já vende Guaraná nas lojas da Noruega. É o refrigerante preferido deles. E esta será a primeira vez que teremos um jogo com Guaraná na mesa. Quando a Noruega joga, eles fazem um waffle norueguês, que é uma tradição. Assim como comemos tapioca e pão de queijo, também comemos o waffle. Primeiro a tapioca, que é salgada, e depois o waffle, que é doce”, declarou Andrea.

Diferentes torcidas

Se, no Brasil, a torcida se manifesta em explosões de cantos, fogos e cores que transformam cada partida em um espetáculo, na Noruega o futebol é acompanhado com respeito e entusiasmo mais contidos, traduzidos em aplausos e vibrações discretas, mas igualmente apaixonadas. Foi nesse contraste que Andrea Nakata percebeu o impacto cultural: a paixão pelo jogo existe dos dois lados, mas se expressa de maneiras bastante diferentes.

“Uma diferença que eu percebo na torcida é que ela é mais calma. Apesar de os torcedores gostarem muito de futebol, não existe ódio entre as torcidas. Tanto que muita gente torce para dois times: um da primeira divisão e outro da segunda”, comentou Andrea Nakata.

Paixão que une nações (Foto: Arquivo Pessoal)

 Na avaliação da brasileira, no Brasil a polarização entre torcidas e torcedores é muito mais presente.

“Eles amam tanto o próprio clube que acabam odiando o outro. Isso eu não vejo na Noruega. Essa polarização não existe. Eles gostam muito de futebol, usam a camisa do time e jogam, tanto meninos quanto meninas. Inclusive, a seleção norueguesa de futebol feminino é muito forte e tradicional. Os noruegueses torcem, cantam os hinos. O que eu vejo é que nós, brasileiros, somos muito engraçados”, concluiu Andrea.

Casada há 25 anos com o norueguês Stig Ole Nordaas, Andrea Nakata construiu sua vida no norte da Noruega, mas nunca deixou de retornar ao Brasil com a família. Formada em Direito, no Brasil, e em Assistência Social, na Noruega, ela atua no Conselho Tutelar de Finnsnes, onde se dedica ao atendimento de pessoas com deficiência. Ainda encontra tempo para abrir as portas de casa e oferecer jantares típicos noruegueses a turistas — uma rotina que traduz, em gestos e afetos, a ponte entre dois mundos que aprendeu a chamar de seus.

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