Decor

Casa com personalidade de volta

Depois de anos de tons neutros, interiores retomam cores, materiais marcantes, peças afetivas e referências históricas para criar ambientes mais autorais

Luyza Rodrigues
27/09/2026 às 18:47.
Atualizado em 27/09/2026 às 18:47

Por muito tempo, o bege pareceu ter encontrado a fórmula perfeita para os interiores. Discreto, versátil e fácil de combinar, o tom ocupou paredes, móveis e objetos enquanto a decoração caminhava para uma estética cada vez mais neutra. Agora, porém, a casa começa a contar outras histórias. Madeira, mármore, couro, metais, cores, peças antigas e objetos afetivos voltam a dividir espaço em ambientes que querem dizer alguma coisa sobre quem vive ali.

Essa retomada também abre espaço para referências que atravessaram diferentes momentos da história do design, como o Art Déco. Consolidado internacionalmente nas décadas de 1920 e 1930, o movimento ultrapassou a arquitetura e chegou aos interiores, mobiliário, moda, joalheria e artes gráficas. Marcado pela combinação entre referências históricas, luxo, geometria e os símbolos da modernidade industrial, o estilo encontrou na Exposition Internationale des Arts Décoratifs et Industriels Modernes, realizada em Paris, em 1925, um de seus principais marcos.

A força do Art Déco estava justamente na mistura: tradição e futuro, artesanato e indústria, sofisticação e funcionalidade. Décadas depois, essa mesma liberdade de combinar referências reaparece nos interiores contemporâneos, agora com outro propósito: criar espaços que não pareçam reproduzir uma tendência, mas revelem a identidade de quem os habita.

Para o arquiteto e designer de interiores Igor Matheus Ferreira, essa retomada está diretamente ligada à busca por espaços que tenham relação com seus moradores.

“Essa retomada de interiores mais autorais vai muito além de uma questão estética. A casa volta a ter personalidade quando passa a refletir a história, os gostos e as experiências de quem vive nela. Madeira, mármore, couro, metais, peças antigas e objetos afetivos ajudam a criar essa identidade quando são combinados de uma forma que faça sentido para o morador. Também vejo uma abertura maior para o uso das cores. Depois de um período em que os tons neutros dominaram os interiores, elas voltam a aparecer de forma pensada, criando diferentes sensações e valorizando cada ambiente.”

Para o arquiteto e designer de interiores Igor Matheus Ferreira, essa retomada está diretamente ligada à busca por espaços que tenham relação com seus moradores

A NEUROCIÊNCIA QUE NÃO VEMOS

 Mas a personalidade de um ambiente não está apenas naquilo que os olhos reconhecem. As escolhas de cores, materiais, formas e objetos também participam da maneira como uma pessoa percebe e vivência determinado espaço. É justamente nessa passagem entre estética e experiência que a neuroarquitetura começa a agir: a casa deixa de ser pensada somente como composição visual e passa a ser observada também a partir das sensações que pode despertar.

Iluminação, cores, materiais, formas, acústica e organização dos espaços podem, dentro dessa perspectiva, ser planejados de maneira integrada para favorecer diferentes experiências, como conforto, acolhimento, concentração ou relaxamento. A decoração, então, não termina naquilo que é bonito, ela também considera como aquele ambiente será vivido.

“Nesse sentido, a neuroarquitetura se torna protagonista, porque nos permite pensar o ambiente não apenas pelo que é visualmente bonito, mas pelos efeitos que ele pode provocar nas pessoas. Iluminação, cores, materiais, formas, acústica e organização dos espaços podem contribuir para sensações de conforto, acolhimento, concentração ou relaxamento. Para os dias atuais, acredito que esse equilíbrio entre estética, memória, personalidade e bem-estar é um dos caminhos mais interessantes para a arquitetura de interiores.”

Se antes a tendência era escolher tudo dentro de uma mesma linguagem, agora a mistura ganha força. Uma peça herdada pode dividir espaço com um móvel contemporâneo; um acabamento clássico pode aparecer ao lado de uma solução tecnológica; e uma referência histórica pode ser incorporada sem transformar o ambiente em uma reprodução de outra época.

A RETOMADA E O ENCONTRO DE REFERÊNCIAS

Em Manaus, essa relação com a memória também encontra espaço em referências como o Art Déco, que chegou à cidade na transição entre o fim da década de 1920 e o início dos anos 1930. Para Igor, elementos históricos podem funcionar como pontos de conexão entre passado e presente.

“Em minha experiência trabalhando com interiores, percebo que peças antigas, objetos afetivos e referências como o Art Déco fazem muita diferença na hora de dar personalidade a um ambiente. Muitas vezes, são justamente esses elementos que trazem memória e significado para o espaço. A decoração não precisa seguir um padrão: pode misturar o antigo e o atual, o clássico e o moderno, trazendo histórias, lembranças e a identidade de quem vive naquele lugar.”

A retomada de interiores mais autorais revela, portanto, uma mudança na própria maneira de enxergar a casa. Mais do que seguir uma tendência, decorar passa a ser também selecionar aquilo que permanece, aquilo que representa e aquilo que transforma um espaço em lugar de pertencimento.

Entre cores, texturas, materiais e memórias, o décor se afasta da ideia de uma casa perfeita para se aproximar de uma casa possível com marcas de quem vive, objetos que carregam histórias e escolhas que não precisam obedecer a uma única estética.

FRASE EM DESTAQUE

“A decoração não precisa seguir um padrão: pode misturar o antigo e o atual, o clássico e o moderno, trazendo histórias, lembranças e a identidade de quem vive naquele lugar.”

Igor Matheus Ferreira
Arquiteto e Designer de Interiores

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