Cultura & Gastronomia

Chef carioca faz sucesso ao desvendar a história da comida amazônica

Com 75 mil seguidores, série documental no Instagram investiga aspectos sociais e culturais da produção de alimentos da região

Stephane Brasil
online@acritica.com
13/09/2026 às 09:59.
Atualizado em 13/09/2026 às 09:59

Chef e gastrônomo Thiago Loeser em pesquisa sobre a influência indígena e socioambiental na culinária da Amazônia (Foto: Acervo pessoal)

O chef e gastrônomo carioca Thiago Loeser conquistou mais de 75 mil seguidores no Instagram ao transformar comida da região amazônica em conteúdo sobre história e cultura.

No perfil ‘Odisseia Gourmet’, ele já falou sobre x-caboquinho, tambaqui, pirarucu, açaí, guaraná, cupuaçu, bodó e piracuí, além de abordar questões sociais e ambientais relacionadas à produção dos alimentos.

Apesar de ainda não conhecer o Amazonas pessoalmente, Thiago pesquisa a gastronomia da região por meio de livros, artigos, trabalhos acadêmicos e conhecimentos tradicionais. O interesse faz parte da série “Brasil”, criada para apresentar as diferentes culturas alimentares do país.

“O Norte acaba sendo um desafio maior porque é uma região que ainda é muito subvalorizada e menos pesquisada e documentada do que outras. Então, eu acabo dedicando um tempo maior para pesquisar os assuntos amazônicos, até mesmo fora da série ‘Brasil’.”

Alimentos dos Sateré-Mawé

Entre os conteúdos produzidos por Thiago está uma pesquisa sobre a alimentação dos Sateré-Mawé. O contato com esses conhecimentos fez o gastrônomo refletir sobre a influência indígena na formação da gastronomia brasileira.

“Quando a gente procura pelas raízes da cultura brasileira, o pilar está nos povos indígenas. E uma coisa que me surpreende positivamente é perceber que esse conhecimento ancestral ainda está muito mais preservado no cotidiano do Norte do que em outras regiões do Brasil.”

Segundo ele, a gastronomia profissional ainda valoriza muito referências estrangeiras, enquanto os conhecimentos indígenas permanecem pouco difundidos.

Histórias por trás dos pratos

Um dos pratos que chamou a atenção de Thiago foi o pirarucu de casaca. Embora seja associado à culinária amazônica, a preparação reúne diferentes influências culturais.

O pirarucu tem forte relação com os povos indígenas e pode ser consumido de maneiras tradicionais, como o moqueado. Já a forma como o peixe é preparado no pirarucu de casaca apresenta semelhanças com o bacalhau à Gomes de Sá, receita portuguesa.

Para Thiago, o exemplo mostra como a história de um prato pode ser muito mais complexa do que a ideia de “comida típica” sugere.

Série documental no Instagram investiga os impactos socioambientais da produção do açaí, guaraná e peixes da Amazônia (Foto: Acervo pessoal)

Da cozinha para a internet

 A relação de Thiago com a gastronomia vai além da cozinha. Antes mesmo da
graduação, enquanto trabalhava em restaurantes, ele já buscava conhecimentos sobre história e cultura que não encontrava no dia a dia profissional.

Em 2018, ingressou no curso de Gastronomia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A experiência ampliou o interesse por temas que, segundo ele, ainda recebem pouco espaço na internet.

“A mídia acaba focando muito na parte de cozinhar, de fazer receitas, mas a gastronomia tem um outro lado. Eu percebi que esse lado era pouco explorado e que poderia levar esse conhecimento para a internet de uma forma mais acessível.”

Depois de pesquisar a região à distância, Thiago pretende conhecer pessoalmente os lugares sobre os quais fala nas redes sociais. A lista inclui Manaus, Parintins e Uarini, além de comunidades ribeirinhas e áreas mais afastadas.

A expectativa é conhecer os alimentos diretamente com quem mantém essas tradições e entender aspectos que, segundo ele, não podem ser aprendidos apenas por meio de livros e pesquisas.

“Viver de perto, experimentar como um nativo e conversar com aqueles que vivem aquilo no dia a dia será uma experiência completamente diferente de aprender sobre a cultura apenas lendo e estudando.

Quero chegar às regiões mais afastadas e tentar sentir na pele essas diferenças regionais entre as cidades grandes e as comunidades ribeirinhas.

Conteúdos do perfil

Além de apresentar curiosidades, Thiago também utiliza o perfil para discutir problemas relacionados à produção dos alimentos. A proposta ganhou uma série chamada “Lado Obscuro da Comida”.

Em um dos conteúdos sobre o açaí, ele abordou os riscos enfrentados pelos peconheiros, responsáveis pela coleta do fruto. Para alcançar os cachos, eles podem subir açaizeiros com mais de 20 metros de altura usando a peconha.

O conteúdo também chama atenção para situações de trabalho infantil na cadeia produtiva e para a vulnerabilidade social que pode estar por trás desse cenário.

“Sempre que um assunto tem algum problema relacionado, eu tento trazer isso para o conteúdo. Pode ser uma questão ambiental, de coletores, pescadores, produtores que são afetados ou marginalizados, ou até grupos indígenas que estão em situação de risco.”

Thiago afirma que o objetivo não é impor uma opinião ao público, mas apresentar os problemas e estimular a reflexão sobre o que existe por trás dos alimentos.

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