impactos da estiagem

Comunidade rural de Manaus enfrenta seca, isolamento e êxodo

Moradores do Abelha enfrentam viagens de mais de duas horas, poços secos e impacto emocional com a intensidade do verão amazônico

Waldick Júnior
waldick@acritica.com
22/08/2026 às 08:29.
Atualizado em 22/08/2026 às 11:09

Reportagem visualizou crianças caminhando descalças em um sol da tarde para retornar para casa depois da escola, na comunidade do Abelha, na zona rural da capital (Foto: Jorge Alberto/Studio C/A CRÍTICA)

A vida na comunidade ribeirinha do Abelha, na zona rural de Manaus, é uma durante a cheia e outra, muito pior, na seca. Se o percurso entre a cidade e o porto da comunidade leva 15 minutos de lancha em condições normais, na estiagem passa facilmente de duas horas, somando trechos a pé e de rabeta, com forte exposição ao calor.

É nesse cenário que mais de 300 famílias vivem hoje o que a ciência chama de ansiedade climática: um medo ou angústia persistentes diante dos impactos das mudanças do clima. Esse sentimento se intensificou desde o início do El Niño, em junho, que pode ganhar força e evoluir para uma versão mais intensa até dezembro.

“A gente fica apreensivo, porque nos outros anos nós sofremos demais”, conta a aposentada Maria de Deus Santos da Costa, 67. O sentimento é compartilhado pela dona de casa Carol Tavares, 27, beneficiária do Bolsa Família, um perfil frequente na região.

“A gente se sente abandonado aqui. Infelizmente, os políticos só vêm na época da eleição”, desabafou, após caminhar por 20 minutos no sol de 15h para buscar o filho na escola a pé, e antes de fazer o mesmo percurso de volta, totalizando 40 minutos.

A reportagem visitou a comunidade no último dia 17 de agosto, quando os termômetros em Manaus marcaram máximas de 37ºC (à sombra) O solo arenoso, o excesso de poeira, a fumaça de queimadas que já chegou na comunidade e o sol escaldante são desafios que precisam ser enfrentados diariamente pela população, que inclui idosos, crianças e gestantes.

Todos os moradores ouvidos pela reportagem mostraram ciência sobre a previsão de estiagem intensa e a expectativa de um forte El Niño. A líder comunitária Joana Batista Freire conta que a memória das secas de 2023 e 2024 ainda são presentes.

“Foi um período muito difícil. Tivemos que abrir um outro caminho, só limpando uma trilha, sem derrubar árvore, porque ninguém aguentava vir pra comunidade andando pela beira (do rio, que secou), porque o sol era muito quente”, lembra.

A comunidade, que já vive sem água encanada, apenas com poços com menos de 30 metros, medida insuficiente para garantir água de qualidade por todo o ano, aguarda agora a doação de caixas d’água que dizem ter sido prometidas pela Defesa Civil. A reportagem entrou em contato com o governo e aguarda retorno.

A comunidade também recebeu, no ano passado, uma caixa d’água do projeto Água Boa, do governo estadual. A iniciativa garante acesso à água potável por meio de um sistema que inclui filtros, mas devido à poluição da margem do rio, onde a comunidade precisa deixar o lixo doméstico para ser levado em balsas, a caixa d’água precisou ser conectada a um poço que também corre o risco de secar em uma grande estiagem.

Moradores do Abelha temem o fenômeno El Niño enquanto já enfrentam calor excessivo (Foto: Jorge Alberto/Studio C/A CRÍTICA)

 Nas secas de 2023 e 2024, houve enorme dificuldade para acessar água potável. Boa parte dos poços secou ou passou a fornecer o líquido com muita sujeira. O governo levou cestas básicas e doou caixas d’água, mas não para todos, contam os moradores.

“Quem tinha poço que não secou ajudava o vizinho. A água vinha suja, barrenta, e a gente precisava fazer todo um processo de limpeza que durava três dias, incluindo o uso do cloro. Só depois a gente podia usar aquela água”, lembra Joana.

Outro fator que tem mudado a paisagem da comunidade do Abelha é o êxodo de moradores. As dificuldades de acesso a serviços básicos, o aumento da criminalidade, além da seca e do calor intensos, têm levado famílias a vender os terrenos ou a usá-los apenas nos fins de semana, enquanto passam a viver com parentes ou até a pagar aluguel em Manaus.

“Temos 330 famílias, mas parece que chega um e saem três. Esses problemas têm feito as pessoas irem embora”, conta ela, que vive na comunidade desde 2008.

Além de contar apenas com uma pequena unidade de saúde, com atendimentos às terças-feiras, a comunidade também enfrenta quedas de energia e baixa tensão, o que dificulta o uso de ar-condicionado e até de alguns refrigeradores. Relatos de apqueimados são comuns, embora a líder comunitária diga que a situação tem melhorado.

Os moradores da zona rural de Manaus, especialmente ribeirinhos, estão entre os mais afetados pela mudança do clima, mas quem vive na zona urbana também sente os impactos. O principal deles é o calor, a fumaça de queimadas e as interrupções de energia e água, mais comuns no verão.

Enquanto isso, a cidade e o estado continuam sem planos de adaptação climática, documentos que poderiam apontar diretrizes para lidar com esse problema. A previsão no caso estadual é de a primeira versão pública do plano seja finalizada em setembro. No caso da prefeitura, o plano já está em consulta pública, mas ainda sem prazo de conclusão e execução.

O governo estadual também se reuniu, na quarta-feira, com representantes do governo Lula para tratar da estiagem. A gestão de Roberto Cidade enviou à Defesa Civil nacional um documento que aponta as necessidades do estado para a seca. Ainda em junho, o governo estadual decretou emergência climática e ambiental no Amazonas, o que permite a tomada de medidas com menor restrição, como uso extra de recursos.

Dentro do debate sobre ansiedade climática, o doutor em Geografia Humana Marcos Castro, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), vem desenvolvendo o conceito de geoansiedade para descrever uma manifestação mais imediata desse medo, associada à vulnerabilidade socioambiental urbana.

Para Castro, essa origem ambiental e social do problema aponta também para o caminho de enfrentamento, que é agir sobre as condições que geram o medo. "Se você muda a situação, o medo pode ser debelado. Ou seja, se você retira as suas populações dessas áreas, elas passam a não ter medo mais da questão da chuva", afirma.

O professor defende que o poder público tem papel central nessa solução, especialmente por meio de políticas habitacionais voltadas às populações em áreas de risco. "Resolvendo o problema da moradia, por exemplo, você pode resolver também o problema da geoansiedade", defende Castro.

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