O procedimento ocorrerá em meio a possibilidade de uma forte seca em virtude do fenômeno El Niño, que acentua a estiagem na região.
Vice-presidente da Abac, Fernando Resano, afirmou que existem dois trechos que são muito críticos durante a seca para quem navega para Manaus: a passagem do Tabocal e a enseada do Madeira. (Foto: Divulgação DNIT)
O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) afirmou que as dragagens nos rios do Amazonas previstas para 2026 deverão começar a partir de agosto, conforme o Plano Anual de Dragagem e Manutenção Aquaviária (PADMA) e o Plano de Sinalização Náutica para o estado. O procedimento ocorrerá em meio a possibilidade de uma forte seca em virtude do fenômeno El Niño, que acentua a estiagem na região.
Procurado pela reportagem após o vice-presidente da Associação Brasileira de Armadores de Cabotagem (Abac), Fernando Resano, apontar a necessidade de as dragagens ocorrem preferencialmente em agosto, antes do período crítico da seca previsto para outubro, o Dnit ressaltou que a campanha de 2026 e 2027 já iniciou seus trabalhos na segunda-feira, que devem ser concluídos na primeira quinzena de julho.
“A partir de agosto, terão início as dragagens nos trechos Benjamin Constant–São Paulo de Olivença, Tabatinga–Benjamin Constant, Coari–Codajás e Manaus–Itacoatiara. Como os pontos críticos podem variar a cada campanha, os levantamentos hidrográficos de junho são fundamentais para identificar áreas prioritárias e elaborar os planos de dragagem”, informou.
A licitação para as dragagens foi assinada em 2024 com o objetivo de assegurar a navegabilidade em rotas estratégicas do transporte fluvial. O prazo do contrato é de cinco anos e tem um investimento aproximado de R$ 465,7 milhões para todo o período nos quatro trechos especificados pelo órgão.
Em entrevista à reportagem de A CRÍTICA, Fernando Resano afirmou que caso a dragagem fosse feita em agosto, “em outubro a gente não teria restrições ou teria restrições menores, que é quando fica o período crítico”, dificultando a passagem de navios na rota Manaus-Itacoatiara, principalmente nas regiões da Enseada do Madeira e a passagem do Tabocal.
MUITOS SEDIMENTOS
“Essas áreas tem muitos sedimentos e se não forem feitas as obras de dragagem no momento adequado, acaba tendo a necessidade de os navios levarem menos carga para que continuem passando nessas regiões. Isso significa, para nós, espaço morto”, disse.
A dragagem também é uma cobrança constante do governo do Amazonas em meio à aproximação do período da estiagem. No início do mês, o governador Roberto Cidade (União) decretou estado de emergência climática e ambiental a fim de antecipar e direcionar medidas para mitigar os danos da seca.
“Os rios Juruá, Purus, Madeira e Amazonas, principalmente o Madeira, já estão abaixando. A gente precisa de apoio do governo federal para que possa iniciar os trabalhos de dragagem e a gente não ficar sem essa via tão importante para trazer os insumos para o nosso estado. Os efeitos deste ano são parecidos com os efeitos de 2023”, disse Cidade na semana passada.
Paras A CRÍTICA, Fernando Resano, vice-presidente da Abac, defendeu que a dragagem dos rios ocorra já no mês de agosto, antes do período mais severo da seca, para evitar que os navios fiquem impossibilitados de chegar aos portos de Manaus. Segundo ele, o procedimento foi feito em períodos incorretos nos últimos anos, já durante a fase de maior seca dos rios.
“Fazendo agora em agosto, como a Capitania dos Portos sugeriu, em setembro ela faria a batimetria para verificar quanto tem de água, de acordo com o nível do rio. Aí em outubro a gente não teria restrições ou teria restrições menores, que é quando fica o período crítico”, disse.
A fala do dirigente ocorre em meio à oficialização da ocorrência do El Niño pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês). O fenômeno climático aquece as águas do oceano Pacífico e provoca seca no Norte do Brasil e chuvas em excesso no Sul. Na última ocorrência do fenômeno, o Amazonas atravessou duas secas recordes em sequência.
Estiagem no Amazonas
O Dnit informou que a dragagem nos rios do Amazonas este ano irão começar a partir de agosto. O procedimento ocorrerá em meio a possibilidade de uma forte seca em virtude do fenômeno climático El Niño, que acentua a estiagem na região.
“Nós temos dois pontos que são bastante críticos para atingir os portos de Manaus, que são a passagem do Tabocal e a enseada do Madeira. Essas áreas tem muitos sedimentos e se não forem feitas as obras de dragagem no momento adequado, acaba tendo a necessidade de os navios levarem menos carga para que continuem passando nessas regiões. Isso significa, para nós, espaço morto”, explicou.
Cais provisório ajuda, mas gera custo
Vice-presidente da Abac, Fernando Resano lembrou as medidas que os terminais de Manaus tiveram de tomar durante a seca, com a instalação de píeres provisórios em Itacoatiara para descarregar navios e colocar os contêineres em balsas, que tinham calado suficiente para chegar à capital. Porém, a dificuldade da operação encareceu o transporte.
“Foi uma solução ótima, mas ela não atende a totalidade das cargas, então houve cargas que não chegaram a Manaus. E no próprio cais há uma fila de navios, foi o primeiro problema. O segundo problema é que houve um custo adicional, porque com a instalação dos píeres ali na região é uma operação mais complexa, nós tivemos que contratar balsas para pegar a carga ali e levar de Itacoatiara até Manaus”, destacou.
Os custos extras com a operação e a impossibilidade de levar mais cargas levaram à cobrança de uma sobretaxa pelos armadores, que ficou conhecida como “taxa da seca”, que foi suspensa pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). Fernando Resano afirmou que a falta de cobrança da taxa prejudica o fluxo dos armadores, que começariam a diminuir a frequência de ida até Manaus.
“Diferentemente do que foi falado, os armadores não estão cobrando antecipadamente a taxa. É porque a Antaq nos obriga a informar os usuários 30 dias antes de cobrar a taxa, de forma preventiva. Foi entendido que a gente estava cobrando antes, o que não é verdade, e isso gerou um mal entendido muito grande”, disse.
Questionado se haveria medidas alternativas além da dragagem dos rios, Fernando Resano disse não ver outras soluções de curto prazo que não encarecessem o transporte de cargas ou que possam levar a quantidade de cargas transportadas pelo navio, a exemplo da rodovia BR-319, apontada como uma via alternativa para períodos de seca.
“Você imagina um caminhão de arroz saindo do Rio Grande do Sul, indo para Porto Velho para poder chegar a Manaus? A BR-319 pode ser uma solução para emergências, para algumas cargas, mas para esse movimento que nós temos, não. Em um mês, a gente embarca e desembarga em Manaus de 35 a 40 mil contêineres. Daria mil contêineres por dia passando na BR-319, é impensável”, constatou.