Iniciativa

Empresas aceleram agenda climática em meio à crise mundial

Iniciativa mapeou 128 soluções do setor privado e agora discute a melhor forma de escalar projetos que gerem retorno para a sociedade

Lucas dos Santos
18/03/2026 às 17:37.
Atualizado em 19/03/2026 às 14:01

A transição da economia e a aceleração da agenda climática iniciada na 30ª Conferência das Partes (COP-30) levou um conjunto de empresas a trazer visibilidade a soluções já implementadas pelo setor privado e focar nas que possuírem mais potencial de gerar um “exemplo brasileiro” na COP-31. O relatório com as principais soluções foi divulgado pela Climate Action Solutions & Engagement (C.A.S.E) durante um evento em São Paulo nesta quarta-feira (18), para o qual a reportagem viajou a convite.

Iniciativa idealizada por Bradesco, Itaúsa, Itaú Unibanco, Marcopolo, Natura, Nestlé e Vale, a C.A.S.E divulgou o estudo feito pela consultoria global Accenture, que identificou pelo menos 128 soluções climáticas e socioambientais que possuem a capacidade de escalar a nível internacional em diversas áreas, como bioeconomia, infraestrutura, restauração florestal e transição energética.

Segundo o head de sustentabilidade da Itaúsa, Marcelo Furtado, o principal objetivo é buscar soluções concretas e implementá-las. Ele também rechaçou a ideia de que iniciativas de transição climática não possuem financiamento, já que o estudo da C.A.S.E identificou 100% de adesão às soluções apresentadas pelas empresas. No entanto, ele defendeu que haja uma concentração nas soluções mais aplicáveis para apresentar ao final do ano.

“A gente sabe que se a gente tentar fazer as 128 este ano, a gente não fazer nada. Então, a gente tem conversado muito sobre a ideia de selecionar cinco, sete soluções, focar nelas e entregar para que vocês tenham um exemplo brasileiro disso. A gente está falando com um conjunto muito importante de pessoas que nos ajudarão a fazer isso acontecer”, disse.

Marcelo Furtado destacou que as empresas brasileiras já entenderam a necessidade de se alinhar às soluções climáticas, dando como exemplo setores do agronegócio que compreenderam que, “para produzir mais e melhor, precisam usar menos água, ter boa qualidade, ter uma leitura de adaptação”.

“A aderência com a agenda climática não está vindo porque teve uma COP no Brasil, ela está vindo porque um país rico em natureza, cuja economia depende da natureza, está aprendendo com isso. O agronegócio, uma boa parte dele já entendeu que é preciso ter uma Amazônia em pé, porque ela é a nossa caixa d’água, nosso ar-condicionado, é bom para o negócio”, ressaltou.

Presente no evento, o embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP-30, afirmou que o interesse do setor privado nas soluções climáticas é um dos maiores legados da conferência, além do foco dado pela liderança brasileira à implementação das iniciativas, indo além da negociação tratada em COPs anteriores.

“Nós conseguimos, eu acho, realmente mostrar para o mundo que a gente já tem suficientes decisões em todas as convenções do clima para fazer já muita coisa. Já dá para fazer muitas coisas e quem está provando isso são vocês, e o Brasil pode ter esse papel adicional que vai muito além da presidência da COP. Eu fico feliz de saber que vai haver a continuidade do trabalho da COP-30 graças a vocês e ao governo”, disse.

Cases amazônicos

A região amazônica esteve presente nos casos de sucesso levados pela iniciativa privada ao evento. Um deles foi apresentado pela diretora de sustentabilidade da Natura, Angela Pinhati. Em entrevista para A CRÍTICA, ela informou que hoje a empresa trabalha com 45 comunidades espalhadas na Pan-Amazônia, não se restringindo apenas ao Brasil, mas também tendo iniciativas na Colômbia, Peru e Equador.

No território brasileiro, há comunidades parceiras no Acre, Amazonas, Pará e Rondônia, as quais fazem parte da cadeia de abastecimento de insumos da produção da Natura.

“Tem patauá, andiroba, castanha-do-pará, cupuaçu, tucumã, são ao redor de 45 ingredientes que já são transformados nas comunidades. No início desse processo, a gente comprava as sementes das comunidades e levava até São Paul para ser processado na fábrica. O que a gente fez ao longo do tempo foi instalar minifábricas dentro das comunidades. Atualmente temos 20 minifábricas instaladas nessas comunidades”, disse.

Com o investimento, Angela Pinhati pontuou que não só aumentou a renda das comunidades por venderem produtos de maior valor agregado como também influenciou na descarbonização da Natura, que economizou com o transporte e, consequentemente, no consumo de combustíveis fósseis.

Outra iniciativa foi apresentada por Fabiana Costa, head de sustentabilidade do Bradesco, que mantém há 17 anos uma parceria com a Fundação Amazônia Sustentável (FAS) para trabalhar juntamente a comunidades na Amazônia. O caso da FAS inclusive é uma das 128 soluções mapeadas pela C.A.S.E e consta no relatório apresentado no evento.

Segundo Fabiana, ao longo de todos esses anos foram destinados R$ 129 milhões para o projeto, que se divide em diversos eixos como empreendedorismo, agenda de educação e inclusão financeira, além do desenvolvimento de novas iniciativas.

“Hoje a gente tem com a FAS um projeto da cadeia de pirarucu, onde a gente trabalha, dentro da pauta da bioeconomia, toda a parte do manejo sustentável da cadeia do pirarucu. Esse projeto começou com a formação desses pescadores, preparando para que fizessem cada vez mais um manejo sustentável. Nós também fizemos uma série de capacitações até de educação financeira e, no final do ano passado, a gente entregou um flutuante que vai permitir com que eles consigam fazer o armazenamento correto”, explicou.

O superintendente da FAS, Virgílio Vianna, ressaltou à reportagem que a parceria com o Bradesco impactou positivamente a região do Médio Solimões e que um dos reflexos foi que o preço do pirarucu vendido pelos pescadores da região triplicou após a implementação do manejo sustentável.

“Nós estamos com uma iniciativa nova, que é a certificação de origem com uso de tecnologia blockchain de última geração, para rastreabilidade do manejo do pirarucu até chegar aos restaurantes em Manaus e a outros lugares do Brasil e do mundo. Esse evento reforça que o mundo privado empresarial está caminhando com vida própria. Virou uma oportunidade de negócios”, completou.

Achados

O mapeamento divulgado pela C.A.S.E em articulação com o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) e a Sustainable Business COP (SBCOP) identificou que a transição energética foi o eixo mais frequente entre as soluções analisadas, com iniciativas voltadas à descarbonização de cadeias produtivas e da infraestrutura energética. 

Entre os exemplos estão o caminhão 100% elétrico desenvolvido no Brasil, o briquete de minério de ferro que reduz o impacto ambiental da produção de aço e o uso de drones na construção de linha de transmissão, reduzindo a supressão de vegetação.

Bioeconomia e restauração florestal também aparecem entre os destaques do relatório. No primeiro caso, o estudo aponta a combinação entre tecnologia, conhecimento tradicional e inovação produtiva. No segundo, reúne soluções baseadas na natureza voltadas à recuperação de áreas prioritárias, recomposição de paisagens e geração de benefícios para territórios e comunidades.

O relatório também reúne soluções em infraestrutura e economia circular, com iniciativas ligadas à mobilidade, logística, segurança hídrica, eficiência energética, logística reversa e reaproveitamento industrial. Entre os exemplos mapeados estão transporte coletivo sustentável, semeadura natural de nuvens associada à segurança hídrica, produção de polietileno a partir de etanol de cana-de-açúcar e re-refino de óleo lubrificante usado.

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