Ausência de normas sobre redes socais abre margem para autopromoção e uso da função para fins políticos. Além de publicar vídeos de prisões, policiais fazem até ‘publi’ para empresas de rastreadores
Policiais aparecem em vídeos publicados nas redes sociais com armas em punho, atendendo ocorrências e, em alguns casos, rendendo suspeitos (Foto: Reprodução)
Um novo estudo do Instituto Sou da Paz coloca a Polícia Militar do Amazonas entre 19 corporações que não possuem regras para regulamentar o uso das redes sociais por agentes de segurança. O cenário abre margem para servidores que usam da profissão para o crescimento pessoal, inclusive como trampolim para alcançar cargos políticos.
Segundo a diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo, é fundamental garantir a liberdade de expressão dos policiais, mas também se deve “vedar o uso da autoridade policial para autopromoção ou engajamento político”.
De acordo com o relatório “Policiais Influenciadores: Regulação do uso de redes sociais por policiais no Brasil”, 849 vereadores oriundos das forças policiais foram eleitos no pleito municipal de 2024. A reportagem apurou que, no estado do Amazonas, foram 76 candidaturas de policiais, sendo 14 civis e 62 militares.
Desses, 71 foram candidatos a vereador e cinco, a prefeito. Ao todo, cinco policiais militares foram eleitos vereadores em 2024: Sargento Cobra (Republicanos), em Beruri; Sargento de Macêdo (PL), em Humaitá; Sargento Salazar (PL), em Manaus; Nonato Policial (PSD), em Pauini; e Gois (Republicanos), em Tonantins.
O número tende a ser maior, já que os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram apenas os novos eleitos cujas profissões anteriores eram “policial militar” ou “policial civil”. No entanto, existem nomes como o de Capitão Carpê (PL), policial militar eleito vereador de Manaus em 2020, com sua ocupação sendo alterada nos sistemas eleitorais.
O relatório do Sou da Paz aponta que o uso das redes sociais se tornou uma ferramenta estratégica para impulsionar candidaturas de agentes das forças de segurança. No último pleito, o PM Sargento Salazar, conhecido por utilizar seus perfis na internet para criticar a gestão do ex-prefeito David Almeida (Avante) e o ex-governador Wilson Lima (União), foi o candidato mais votado em 2024, recebendo 22,5 mil votos.
A reportagem procurou a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) para questionar se poderia ser criada alguma regulamentação para a Polícia Militar, mas não obteve resposta até o fechamento da edição. O espaço continua aberto.
Um policial adota até slogan; Outro posta sucesso de prisão
O instituto elaborou uma cartilha sugerindo às corporações o que poderiam fazer para coibir o mau uso das redes por agentes durante o período das eleições. Um dos primeiros passos seria deixar claro o que é proibido e o que é permitido nos perfis pessoais dos servidores, especialmente na época das eleições.
A primeira sugestão é proibir, de forma geral, o uso de símbolos e bens da corporação em postagens de perfis sociais, principalmente para obter vantagens políticas. Dentre os itens estão fardas, armas e viaturas. Eventuais exceções devem ser previstas de forma expressa, como no caso de conteúdos de solenidades ou com autorização.
Outra sugestão é adoção de uma responsabilização célere durante o período eleitoral e determinar que as proibições e demais normas se apliquem tanto a policiais na ativa ou na reserva. Um exemplo dado foi um procedimento adotado pela Polícia Civil do Rio Grande do Sul, que proibiu a vinculação da imagem da corporação com críticas eleitorais, negação da validade do pleito ou ataques a governos e instituições.
O Sou da Paz destaca que existem casos documentados do mau uso das redes por policiais influencers que vieram a se tornar políticos, sendo o mais emblemático o caso do ex-vereador Gabriel Monteiro, do Rio de Janeiro. Antes, o policial militar produzia conteúdos “que produzia tinham caráter sensacionalista e antiético: recorriam a ‘experimentos sociais’ gravados sem consentimento, frequentemente com pessoas em situação de vulnerabilidade”.
Monteiro foi cassado em 2022 por quebra de decoro parlamentar após o vazamento de uma filmagem em que aparecia tendo relações sexuais com uma adolescente, além da exposição vexatória de crianças e pessoas em situação de rua em seus vídeos, e de assédio moral contra assessores.
Outro caso é o de Delegado da Cunha, eleito deputado federal por São Paulo em 2022 e que também produzia vídeos para o YouTube, mas dessa vez cobrindo operações e seu cotidiano na atividade policial. O canal era monetizado e, segundo a Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo, o delegado conseguia um rendimento de R$ 500 mil ao ano.
“A monetização, além de gerar incentivos à produção de conteúdos de viés sensacionalista para aumentar o número de visualizações, pode levantar sérias questões éticas e jurídicas. Em 2020, o problema se materializou quando o então delegado publicou um vídeo sobre uma operação de resgate em cativeiro que, mais tarde, se revelou encenada”, detalha o relatório.