Entrevista

‘Fundo Amazônia não substitui orçamentos', afirma Denis Minev

Para o   enviado especial da COP  para o empresariado da Amazônia, setor privado ainda tem uma “natural desconfiança” com temas ligados ao meio ambiente devido a experiências anteriores

Waldick Júnior
10/08/2025 às 10:34.
Atualizado em 10/08/2025 às 10:34

(Foto: Junio Matos/A CRÍTICA)

Para o enviado especial da COP 30 para o setor privado na Amazônia, Denis Minev, o Fundo Amazônia não é um mecanismo para cobrir orçamentos públicos, mas sim financiar a busca por atividades econômicas sustentáveis na região.

Em abril, o governo Lula anunciou R$ 45 milhões do Fundo para cada um dos Corpos de Bombeiros dos estados do Amazonas, Amapá, Roraima, Pará e Mato Grosso. O investimento, comemorado pelos governadores, aconteceu após dois anos com alto nível de queimadas na região, em especial no Amazonas, que bateu recorde em 2024.

Para A CRÍTICA, Minev falou sobre seu papel de dialogar com o empresariado da Amazônia sobre as mudanças climáticas, os desafios de uma COP na região – incluindo as hospedagens – e o papel que a BR-319 trafegável teria para o ecosistema logístico do Amazonas. Confira a entrevista.

O que é um enviado especial da COP e especialmente para o setor empresarial da Amazônia?

A presidência da COP decidiu nomear 30 enviados especiais para temas ou para segmentos diversos que, na opinião deles, são segmentos importantes de engajamento da COP. Então, por exemplo, tem um enviado especial para tratar só a temática de oceanos. Tem um enviado especial para tratar só a temática de povos originários. Tem enviados especiais para regiões específicas. Tem um enviado especial para a Oceania. Tem enviados especiais para temas de ilhas que têm um problema climático relevante. E eles decidiram que gostariam de ter um enviado especial para o tema do setor privado da Amazônia.

O que o senhor deve levar para a presidência da COP?

Bem, são seis eixos e 30 objetivos dentro dos eixos. Alguns enviados especiais estão responsáveis por estimular o debate dentro daqueles eixos e aí trazer para a COP e administrar durante o evento, no que eles chamam de Blue Zone, como esse debate deve ser conduzido. Então, no meu caso, o tema é floresta, recomposição florestal e agricultura regenerativa na Amazônia. Ou seja, como a gente, por exemplo, aproveita terras degradadas na Amazônia. Aqui tem uma ligação climática grande, porque uma das formas principais de, por exemplo, financiar essa utilização é através de créditos de carbono, que são um tema central da COP. Como é que nós podemos receber esses créditos na Amazônia e nos beneficiar.

O senhor já tem, naturalmente, essa relação com o empresariado local, mas agora a gente está falando ao nível de Amazônia. Pelo seu diálogo com eles até o momento, qual é a percepção que eles têm em relação à COP?

(Foto: Junio Matos/A CRÍTICA)

 O senhor fala em possibilidades de atividades econômicas sustentáveis na região, inclusive, ligadas ao mercado de carbono. Quais são esses caminhos possíveis?

Muito da Amazônia é ocupada por pecuária. No nosso território, a atividade mais tradicional é: você desmata, você planta um capim e você estabelece a pecuária ali. Essa pecuária normalmente é uma pecuária de baixa produtividade e ela exaure o solo rapidamente. E aí a gente fica com muita terra degradada. A Amazônia tem 500 milhões de hectares, 90 milhões de hectares desmatados e 70 milhões desses 90 são terras hoje degradadas com baixíssima produtividade. É um enorme desperdício da nossa sociedade. Então, uma oportunidade enorme para a Amazônia é dar uma boa utilização para esse espaço. Uma esperança que eu tenho é que nesses espaços a gente encontre formas de viabilizar a recuperação dessas áreas e a transformação delas em agroflorestas ou em outros modelos que gerem muitos empregos, que gerem muita comida, mas também que armazenem carbono e que gerem riqueza para a região. Não gosto da ideia de nós recebemos um pagamento pelo carbono sem fazermos nada. Penso que o caminho mais adequado é produzirmos nesses sistemas agroflorestais e, ao mesmo tempo, recebermos pelo crédito de carbono gerado. É uma maneira, inclusive, de o carbono financiar a atividade desse sistema agroflorestal.

A Amazônia tem problemas históricos e a logística em um ambiente com grandes distâncias é um dos principais desafios da região. Quem vai à COP em Belém, neste ano, parece já estar sentindo esses desafios. O assunto da vez é a hospedagem cara, por falta de leitos suficientes. Como o senhor vê essa questão?

A gente já tem esses problemas aqui e isso está ficando claro para quem não é da região agora. Está se expressando, por exemplo, na questão da hospedagem. Faz parte. Você quer conhecer a Amazônia, você tem que passar um pouquinho de perrengue logístico. Mas eu também acho que tem um grande exagero e a mídia gosta de causar uma polêmica, apontar os casos mais extremos de gente cobrando muito caro. Mas o evento vai acontecer, vai ser um pouco mais caro do que as pessoas estavam esperando, mas Belém vai conseguir receber bem. Por exemplo, Baku recebeu a COP no ano passado. É uma cidade do tamanho de Belém e sem uma estrutura hoteleira robusta. Deu-se um jeito. Se você procurar no Airbnb e outras plataformas, o governo também tem a sua plataforma, tem bastante hospedagem disponível em Belém.

O senhor diz que o Fundo Amazônia não deveria ser utilizado, ao menos a maior parte do seu recurso, para o orçamento dos governos. O que lhe faz pensar isso?

A minha primeira avaliação é que o Fundo Amazônia pouco conhece a Amazônia. Ele é baseado no Rio de Janeiro. Para mim, isso é absurdo. E as escolhas do Fundo Amazônia, bom, ele tem sido sujeito a um certo grau de pressão política, então, em muitos casos, o que o Fundo Amazônia investiu foi em substituição de orçamentos públicos. O governo deve investir nas secretarias de meio ambiente, em corpo de bombeiros. Não o Fundo Amazônia. O desenho do Fundo Amazônia não foi para substituir orçamentos públicos.

Mas quem deve receber? Os governos, especialmente prefeituras, dizem que o recurso vai muito para ONGs e defendem o direcionamento para as gestões.

Na minha avaliação, deveria ser em busca de criar oportunidades na região que substituam as atividades que causam desmatamento. Como você estimula empreendedores a fazerem atividades sustentáveis? Como você investe? Pode ser em questões de ciência e tecnologia ou questões de aprendizado. Um dos motivos que muita gente investe em pecuária é porque é a única coisa que a pessoa sabe fazer. Em todos os municípios do Amazonas tem gente que sabe lidar com gado. Não tem gente que tem experiência com agrofloresta. Então você precisa de aprendizado. Nossa sociedade é uma sociedade que não tem aprendido num ritmo adequado. Então, por exemplo, essas são frentes. Sempre acredito que deveria ser voltada a atividades econômicas que substituam as atividades que causam desmatamento.

O senhor diz que o debate não deveria mais ser sobre se a BR-319 deveria existir ou não, já que a estrada é utilizada hoje, mesmo no barro. Então, partindo do ponto de vista da utilização da estrada, acredita que ela poderia baratear o custo logístico da região? É mais barato do que os rios?

Logística é um tema complexo. Tem coisas que é muito melhor transportar por rio do que por estrada. Por exemplo, soja. Soja, idealmente, assim que você encontrar um rio, você tem que transportar de balsa, porque é muito mais eficiente. Soja ocupa muito espaço e o valor agregado é pequeno. Uma tonelada de soja vale X, uma tonelada de televisores é muito mais valor. Então, tem produtos que não faz sentido transportar por estrada, tem produtos que faz todo sentido transportar por estrada. Os produtos da Bemol, por exemplo, em geral, não faz nenhum sentido transportar por rio. O valor dos produtos é alto e estoque é muito caro, o custo de capital.

A estrada baratearia o custo para o consumidor final?

Olha, a estrada já está funcionando, né? Então, aqui a pergunta é, uma estrada de barro versus uma estrada de asfalto seria melhor? No caso da Bemol, por exemplo, baratearia para Rondônia, porque a gente usa a BR-319 para abastecer Rondônia. Para Manaus, tenderia a baratear os gêneros alimentícios que Rondônia produz, que a gente traz para cá.

Aprovamos a reforma tributária e o primeiro texto de regulamentação. Ainda falta o segundo, sobre o Comitê Gestor. Nesse debate todo, havia uma preocupação muito grande com o comércio em operações internas na Zona Franca, porque poderia ficar sem isenção, mas isso foi incluído após atuação da bancada amazonense no Congresso. Há algo que ainda preocupe o comércio?

Olha, na minha opinião, a reforma tributária foi incrível para o Amazonas, sobre todos os aspectos, da indústria, do comércio e de serviços. Sempre tem riscos, mas até aqui não há nada a reclamar sobre a condução da reforma tributária.

Especificamente nesse ponto das transações comerciais, como o senhor avalia? Aparentemente isso não ia passar.

Foi uma vitória. Não consigo descrever de nenhuma outra forma. Teve inserção na Constituição, teve maior clareza para as áreas de livre comércio. Não podemos esquecer, tem Boa Vista, tem Tabatinga no Amazonas, tem várias áreas de livre comércio que viviam num limbo, não tinha tanta certeza se os incentivos de Manaus se aplicavam para lá. Agora ficou claro, se aplica. No comércio se aplica. Então, na minha opinião, foi ótimo.

Assuntos
Compartilhar
Sobre o Portal A Crítica
No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.
Portal A Crítica - Empresa de Jornais Calderaro LTDA.© Copyright 2026Todos direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por