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'Gelo Caboclo': energia solar transforma a pesca e o turismo no rio Negro

Iniciativa na comunidade Santa Helena do Inglês permite produção local de gelo, reduzindo custos logísticos e perdas para centenas de famílias em Iranduba

acritica.com
18/04/2026 às 13:09.
Atualizado em 18/04/2026 às 13:09

Fábrica possui capacidade média de produção de cerca de uma tonelada de gelo por dia (Rodolfo Pongelupe/FAS)

Uma solução inovadora, baseada em energia solar e desenvolvida a partir de uma demanda da própria comunidade, começa a transformar a realidade de pescadores e empreendedores na comunidade Santa Helena do Inglês, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Rio Negro, no município de Iranduba, Amazonas. O projeto Gelo Caboclo permite a produção local de gelo, reduzindo custos logísticos, evitando desperdícios e fortalecendo a economia da região.

Antes da iniciativa, pescadores precisavam se deslocar até Manaus para adquirir gelo, enfrentando altos custos com combustível, tempo de viagem e perdas durante o transporte. Em muitos casos, o investimento era comprometido antes mesmo da comercialização do pescado.

“É muito importante ter essa fábrica de gelo aqui, tanto para os pescadores quanto para os empreendedores, donos de pousadas e do barco turístico que frequentam a região. Antes, o pescador precisava ir até a cidade, gastava com combustível e perdia até dois dias nesse deslocamento. Muitas vezes, o gelo começava a derreter no trajeto e, se ele não conseguisse pescar, o investimento de R$ 800 a R$ 1.200 era perdido”, explica Demétrio Júnior, comunitário e empreendedor da fábrica.

Com a produção local, a lógica da atividade mudou. Agora, os pescadores das comunidades próximas podem primeiro capturar o pescado e, só depois, adquirir o gelo necessário para armazená-lo e transportá-lo.

Atualmente, duas pessoas atuam diretamente na operação da fábrica

 O projeto está sendo executado pela FAS e conta com o apoio da Positivo Tecnologia, por meio do Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio) — política pública da Suframa, coordenada pelo Idesam, além da parceria da UCB Power e da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (Sema/AM). A iniciativa impacta diretamente a cadeia produtiva do pescado, especialmente do jaraqui, espécie fundamental para a alimentação e a geração de renda na região. Também fortalece outras atividades econômicas, como o turismo e o comércio local.

O líder comunitário Nelson Brito destaca que o projeto já abre novas perspectivas para o futuro da comunidade. “Quando um projeto começa a funcionar, ele abre um leque de oportunidades. A expectativa era grande e, hoje, ele já atende tanto a cadeia do pescado quanto o turismo e a agricultura familiar. A gente já pensa em avançar, futuramente armazenando também o peixe, para dar continuidade ao empreendimento”, afirma.

Com capacidade média de produção de cerca de uma tonelada de gelo por dia, a fábrica opera com água de poço artesiano exclusivo e energia gerada por uma usina solar dedicada, garantindo qualidade e autonomia no funcionamento. A estrutura também conta com câmara fria e espaço de armazenamento, permitindo atender à demanda mesmo em períodos de maior atividade pesqueira.

Além dos pescadores, o projeto atende empreendedores locais e embarcações turísticas que circulam pela região. “Hoje, os barcos turísticos já não precisam trazer gelo de Manaus, eles compram aqui. Isso gera renda para quem trabalha na fábrica e fortalece a economia da comunidade como um todo”, reforça Demétrio.

Além dos pescadores, o projeto atende empreendedores locais e embarcações turísticas

 Atualmente, duas pessoas atuam diretamente na operação da fábrica, mas os impactos da iniciativa já alcançam mais de 200 famílias, totalizando cerca de 600 pessoas ligadas à cadeia produtiva da pesca, do turismo e do comércio no entorno da fábrica.

Valcléia Lima, superintendente-geral adjunta da FAS, destaca que o diferencial da iniciativa está no protagonismo local. “O diferencial desse projeto está na gestão comunitária. Ele nasce de uma demanda da própria comunidade e só se sustenta com compromisso e continuidade. Além de fortalecer a geração de renda, é uma iniciativa com impacto social e ambiental, ao usar energia renovável e contribuir para a descarbonização da Amazônia”, explica.

“Tão importante quanto a infraestrutura e a tecnologia envolvidas no projeto é garantir um plano de negócio viável e conectado à realidade local. A FAS tem atuado para amadurecer esse processo com educação financeira, mentorias de gestão e apoio estratégico ao empreendedor comunitário. Os impactos já são visíveis, especialmente na redução dos custos com a produção local de gelo, o que fortalece a bioeconomia na Amazônia”, destaca Wildney Mourão, gerente do programa de empreendedorismo da FAS.

A iniciativa também reforça o papel da inovação com propósito na bioeconomia amazônica. “Uma inovação sem propósito, sem melhorar a vida das pessoas, é uma inovação vazia. E aqui a gente vê, na prática, o impacto dessa solução. Muitas vezes não pensamos em toda a cadeia e nas dificuldades envolvidas para que o peixe chegue até nós. A bioeconomia vem justamente para fortalecer essas soluções e melhorar a vida de todos”, destaca Karol Barbosa, gestora de projetos do Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio) do Idesam.

Para Thiago Mendes Boutin, Líder Técnico de PD&I da Positivo Tecnologia, iniciativas como essa mostram o potencial da tecnologia aplicada a contextos reais. “Esse tipo de projeto é muito importante porque nos permite ver de perto o impacto na vida das pessoas. A gente tem muito orgulho de participar e, junto com a FAS e o Idesam, é muito gratificante acompanhar as melhorias que estão sendo geradas na comunidade”, afirma.

Com impactos diretos sobre a pesca artesanal, o turismo e a economia local, o Gelo Caboclo mostra como soluções pensadas a partir da realidade das comunidades podem reduzir perdas, gerar renda e fortalecer a bioeconomia na Amazônia.

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