Alta de preços de produtos alimentícios de janeiro a setembro é a maior para esse período desde o plano real e afeta principalmente população mais pobre
Trabalhadora autônoma, Valmira Alves, diz que às vezes não dá pra comprar nada porque tudo está caro da carne às verduras (Foto: Junio Matos)
Apesar da deflação geral (-0,32%) observada em setembro pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o valor dos considerar os últimos nove meses. De janeiro a setembro, a inflação para esses produtos chegou a 9,54%, pesando no bolso do consumidor prestes a votar no segundo turno das eleições.
A própria alimentação domiciliar - compra de produtos para preparo de refeições em casa - acumula alta de 13,28% nos últimos 12 meses. Por trás de tantos números, fato é que a população continua a sentir a perda do poder aquisitivo.
Eleição
Em maio, durante a pré-campanha, uma pesquisa Datafolha mostrou que a maior parte dos brasileiros (53%) dá muita importância à economia ao escolher um candidato. Um pouco antes, em março, a inflação havia chegado ao pior nível em 28 anos, 1,62%. para aquele mês.
Temendo prejuízo em ano eleitoral, o governo conseguiu aprovar, em junho, no Congresso, a redução do ICMS sobre combustíveis, energia elétrica e telecomunicações. Após a medida, o país teve uma redução dos preços gerais (-0,68%), ainda com pouco impacto nos alimentos.
Economista Denise Kassama explica que um dos fatores que levou ao aumento de preço dos alimentos foi o aumento de vendas para o mercado internacional
“Não foi uma redução significativa no cenário geral. Além disso, o preço dos combustíveis voltou a subir no mercado internacional e vai subir aqui. A não ser que o governo faça como no governo Dilma e segure artificialmente o preço. Se fizer, vai ser em razão da eleição, porque, não tem jeito, o preço do combustível vai subir”, afirma Denise Kassama.
Segundo turno
Somente no segundo turno, o governo federal já fez ao menos sete anúncios na área econômica. O movimento começou no dia 3, quando divulgou a antecipação do Auxílio Brasil e do Vale Gás.
Já na última terça-feira aprovou crédito com ‘FGTS Futuro’, permitindo a trabalhadores que comprometam em financiamento imobiliário o que vão receber do benefício até dezembro.
Até farinha
Segundo o IPCA, o produto que ficou mais caro nos últimos 12 meses é a cebola, com alta de 127,30%.. Isso quer dizer que a hortaliça mais do que dobrou de valor em apenas um ano, no Brasil.
Logo atrás, vem o melão (73,31%) e o mamão (53,89%). Ambos estão na segunda e terceira posição, respectivamente, como produtos que ficaram mais caros em um período de 12 meses.
Com a inflação sobre os alimentos, nem mesmo a ‘adorada’ farinha dos amazonenses escapou. O produto feito a partir da mandioca encareceu 22,87% de setembro do ano passado até o mesmo mês de 2022.
Motivação
Denise Kassama comenta que o aumento do valor dos alimentos pode ser explicado pelo encarecimento da logística (transporte) e a maior venda dos produtos para o mercado internacional, fazendo diminuir a oferta no país.
“O preço dos alimentos brasileiros estava atrativo no mercado externo, o que motivou os produtores a investirem na importação”, afirma a economista.
Para o doutor em sociologia, Marcelo Seráfico, o custo de vida pode ou não influenciar na definição do voto.
Segundo Seráfico, em alguns casos, essa avaliação da economia é contrastada com orientações religiosas que, por ventura, estimulem o voto em algum candidato. Ou seja, o custo de vida, ainda que seja uma referência, nem sempre é a única ou a determinante.
"Portanto, para se ter essa resposta, é necessário entrevistar pessoas das várias camadas sociais para entender as motivações do voto, se tem a ver mais com afinidades ideológicas ou se a avaliação é mais racional acerca das condições de vida e dos métodos dos candidatos para resolver os problemas".
Otimismo
O autônomo David Borges Ferreira avalia que os preços dos produtos foram afetados pela pandemia. Mas ele acha que a situação econômica vai melhorar.
"Claro que as coisas não estão baixando aos poucos, mas ainda está caro para quem tem uma baixa renda que está tendo dificuldade em fazer suas compras, mas acreditamos em uma melhora. Hoje o que é mais caro mesmo são as proteínas: a carne ou até mesmo o frango. Essas coisas que tornam mais caras as nossas compras. Como minha família é pequena, eu, minha esposa e meu filho, nos gastamos 600 reais em uma compra e depois vai complementando aos poucos. Claro que a questão da economia influencia, mas a gente entende que o que isso é resultado do que aconteceu nos anos anteriores".
Para ele, as consequências das restrições para conter a covid afetou a economia, contudo o problema vai passar.
O também autônomo Paulo Mendes tem opinião diferente e atribui a carestia no Brasil a má gestão do governo Bolsonaro.
"Está pior que em todos os tempos. O preço não baixou nenhum. Aí o IBGE divulga todo dia taxa da economia dizendo que estamos em deflação. Que deflação é essa? Não existe isso. Você vai ver o quilo da farinha está R$ 10. Para impressionar, eles [supermercados] mudam o preço de umas duas coisas, fazem uma promoção, mas não existe isso não. Isso influenciou o meu voto desde o primeiro turno. O pessoal que é doido por Bolsonaro diz que ele dá R$ 600 e o Lula dava R$ 190. O cara que é tapado e não estudou, escuta o que os outros falam. Mas o que aconteceu, quanto era um quilo de carne? Quanto era o quilo do feijão? É só ver em 2010 e quanto é hoje.
Ele ressalta que o real perdeu o poder de compra.