OFICINA DE NHEENGATU

Língua indígena Nheengatu desperta interesse de estudantes em oficinas do Amazônia das Palavras

Projeto cultural percorre municípios do Amazonas com atividades gratuitas e promove valorização da identidade amazônica por meio da língua indígena

Lucas Vasconcelos
20/05/2026 às 08:11.
Atualizado em 20/05/2026 às 08:11

A proposta surgiu da necessidade de aproximar os jovens das raízes culturais amazônicas (Foto: Divulgação)

Após passar por municípios do Médio Solimões, o projeto Amazônia das Palavras – quarta edição segue percorrendo o Amazonas com oficinas literárias e atividades culturais gratuitas voltadas a estudantes e educadores da rede pública. Entre as ações que mais têm despertado a atenção dos alunos está a oficina de Nheengatu, língua indígena da família Tupi-Guarani que marcou a formação histórica e cultural da Amazônia.

O projeto já realizou atividades em Coari, Anori e Anamã e seguirá para outras cidades do estado até o dia 18 de maio, promovendo debates sobre identidade amazônica, pertencimento e valorização cultural.

Ao longo da programação, estudantes participam de oficinas de produção de texto, slam, música, cinema, moda, animação e atividades ligadas à cultura amazônica. A oficina de Nheengatu tem sido uma das experiências que mais despertam curiosidade entre os participantes.

O projeto já realizou atividades em Coari, Anori e Anamã e seguirá para outras cidades do estado até o dia 18 de maio, promovendo debates sobre identidade amazônica, pertencimento e valorização cultural. Foto: Divulgação

 Para a reportagem de A CRÍTICA, Fernanda Kopanakis, coordenadora-geral do projeto, contou que a proposta surgiu da necessidade de aproximar os jovens das raízes culturais amazônicas.

“A oficina de Nheengatu surgiu a partir da própria proposta do Amazônia das Palavras, que é valorizar as múltiplas identidades culturais da Amazônia. Quando pensamos a programação desta edição, entendemos que era fundamental incluir uma atividade que dialogasse diretamente com as raízes linguísticas da região”, afirmou Kopanakis.

Ela destaca ainda que o projeto busca descentralizar o acesso a atividades culturais e formativas no estado.

“O projeto escolheu percorrer municípios do interior justamente porque entendemos a importância de descentralizar o acesso às ações culturais e literárias. Muitas vezes, grandes projetos acabam concentrados nas capitais, enquanto estudantes do interior têm pouco acesso a oficinas, artistas e atividades formativas como essas”, disse a coordenadora.

Segundo Fernanda, o Amazônia das Palavras pretende fortalecer a relação dos estudantes com suas próprias vivências e identidades.

“Mais do que realizar oficinas, o projeto busca provocar encontros. Queremos estimular nos estudantes o senso crítico, a criatividade, a percepção sobre a própria realidade e também o entendimento de que eles podem ocupar espaços através da arte, da leitura e da cultura”, destacou.

Ela também ressalta o impacto humano da experiência dentro das escolas. “Existe uma dimensão muito humana nesse processo. Quando um aluno percebe que sua história, sua cidade e sua vivência também têm valor, isso transforma a forma como ele se vê no mundo”, completou Fernanda.

Uma língua presente

Conhecida como “língua boa”, a partir dos termos nhee (fala) e gatu (boa ou bela), o Nheengatu foi, durante séculos, a principal forma de comunicação na Amazônia. Ainda hoje, influencia o português falado na região, embora muitas vezes passe despercebido no cotidiano.

Durante as oficinas, os estudantes tiveram contato com expressões da língua, como awá taá īdé? (quem é você), mãã taá ne rera? (qual é teu nome), ikatú reté (tudo bem), té kurí (tchau), çerá? (tem certeza?), çairé (festa religiosa) e açaiçú īdé (eu te amo).

As atividades são conduzidas por Yaguarê Yamã, escritor, professor, geógrafo, artista plástico e líder indígena amazonense do povo Maraguá. Autor de mais de 40 livros, ele também integra a Academia Parintinense de Letras e a Academia da Língua Nheengatu.

Para Yaguarê, o Nheengatu representa diretamente a identidade amazônica. “Você não pode falar de Amazônia sem compreender o mínimo de Nheengatu. Na verdade, foi, é e sempre será a própria face da Amazônia como pátria”, pontuou o professor.

 O escritor também ressalta que a oficina provoca nos estudantes uma redescoberta sobre a própria cultura.

“Quando eles percebem que, na verdade, falam Nheengatu e não percebiam. Quando descobrem que grande parte de tudo o que falam é Nheengatu puro, como palavras do cotidiano, essa descoberta é sensacional”, disse Yaguarê.

O trabalho conduzido pelo líder indígena vai além do ensino da língua e busca fortalecer a identidade amazônica entre as novas gerações.

“Eles veem o quanto é importante valorizar nossa identidade como amazônidas e que não há nada que forças opostas à amazônidade possam fazer para tirar nossa identidade”, ressaltou o líder indígena.

Yaguarê também argumenta que o Nheengatu não deve ser visto apenas como uma língua indígena, mas como parte da formação cultural da própria Amazônia. “Não se trata de ‘uma língua indígena’, mas sim da língua de todos nós amazônidas”, declarou.

O avanço do projeto faz parte de um movimento maior de revitalização cultural. “Muita coisa está mudando. Esse projeto inserido na Amazônia das Palavras é só mais um dos muitos esforços que nós, ativistas da língua amazônica, temos feito para revitalizar nossa identidade através de nossa verdadeira língua”, contou.

Importante ressaltar que, apesar de parte da população do país desconhecer, o uso do Nheengatu segue presente em diversos elementos do cotidiano amazônico. “80% dos nomes de peixes, 70% dos lugares, de animais, de árvores… tudo é Nheengatu”, disse Yaguarê.

Descoberta da própria identidade

Entre os estudantes, o contato com o Nheengatu despertou curiosidade e sentimento de pertencimento. Para a aluna Ludmila Melo, de 15 anos, a experiência revelou uma dimensão até então desconhecida da própria cultura.

“A gente ter essa oportunidade de estudar uma língua da nossa própria região é muito importante. Nós, como amazônidas, não sabíamos da nossa própria língua. Foi como descobrir de onde a gente veio”, relatou a estudante.

A curiosidade também marcou a percepção de Glenda da Silva, também de 15 anos. “É muito legal a gente rever sobre o nosso passado. A gente fica se perguntando como não sabia disso antes. Dá vontade de aprender mais, porque é muita coisa que a gente não conhece”, afirmou a adolescente.

Para a diretora da Escola Estadual Prefeito Alexandre Montoril, Teresa Cristina Gama dos Santos, o projeto amplia o contato dos estudantes com a cultura regional.

“O projeto traz novas formas de trabalhar a leitura, valoriza a cultura da nossa região e desperta nos estudantes um interesse que muitas vezes não conseguimos alcançar apenas com o conteúdo tradicional em sala de aula”, destacou a gestora.

Próximas cidades

Após passar por Coari, Anori e Anamã, o Amazônia das Palavras seguirá para os municípios de Codajás, Manacapuru, Iranduba e Manaus.

Além das oficinas realizadas durante o dia, o projeto também promove apresentações culturais, exibições audiovisuais e atividades abertas ao público nas cidades participantes.

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