Audiência na CMM debateu falhas no sistema de saúde e cobrou melhorias na assistência pediátrica após relatos de negligência
Durante a sessão, familiares relataram episódios semelhantes de falhas no atendimento médico (Foto: Junio Matos)
A dor da perda e o pedido por justiça marcaram a audiência pública realizada nesta terça-feira (7), na Câmara Municipal de Manaus (CMM), que reuniu mães, pais e autoridades para discutir casos de suposta negligência no atendimento de crianças na rede de saúde.
Durante a sessão, familiares relataram episódios semelhantes de falhas no atendimento médico e cobraram mudanças estruturais no sistema de saúde, principalmente na assistência pediátrica.
Uma das vozes à frente do movimento, Lisandra Vitória Silva dos Santos, mãe da pequena Alice Vitória, afirmou que os casos não são isolados.
“Negligência médica não é inevitabilidade nem estatística. Existe um padrão nessas falhas. Hoje temos 22 casos semelhantes no nosso grupo, futuros que foram arrancados de mães, pais e familiares. Crianças com doenças tratáveis que saíram dos hospitais sem vida”, disse Lisandra.
Segundo ela, o coletivo, que começou em Manaus, já ganhou dimensão nacional e tem como principal pauta a garantia de atendimento adequado às crianças.
“Queremos pediatras nos hospitais, não clínicos gerais. Essa pauta é urgente, isso não pode mais acontecer”, declarou.
Também presente na audiência, Bruno Freitas, pai do pequeno Benício Xavier, falou sobre o impacto da perda e a transformação do luto em mobilização.
Pais do Benício Xavier também estiveram em audiência pública na Câmara Municipal de Manaus
“Nada do que falarmos aqui vai trazer nossos filhos de volta, mas a gente não vai se calar. Olho para essas mães e vejo uma força que não sei de onde vem”, afirmou.
Em um dos momentos mais fortes da audiência, ele classificou a morte do filho como resultado de falhas no sistema.
“O que aconteceu com nosso filho foi um homicídio. Estamos aqui dando a cara a tapa, gritando e pedindo justiça”, disse Freitas.
Bruno também questionou a ausência de parlamentares na sessão. “Esperávamos uma presença maior dos vereadores, mostrando apreço pela nossa voz”, criticou.
A advogada Isabel Cristina Geraldo detalhou o caso de Alice Vitória, que, segundo a família, apresentou sinais clínicos graves que não foram devidamente considerados ao longo de vários atendimentos.
De acordo com o relato, a criança procurou atendimento por dias consecutivos com sintomas como vômitos, diarreia e sinais de desidratação, mas foi liberada sem diagnóstico adequado.
“Mesmo com a piora significativa dos sintomas, a criança foi avaliada como sem risco. Só depois de muito tempo houve reclassificação e internação”, afirmou.
Ela destacou ainda que, mesmo após a internação, a gravidade do quadro não foi prontamente reconhecida.
“Essa criança foi desidratando e definhando dentro do hospital, diante da equipe médica, enquanto a mãe alertava que a filha não estava bem”, relatou a advogada da família.
Representando o Conselho Regional de Medicina do Amazonas (CRM-AM), a médica Eliana Nunes Feijó Leite reconheceu a gravidade dos relatos e afirmou que o órgão vai apurar os casos.
“Nada do que eu falar aqui vai trazer os filhos de vocês de volta, mas assumo publicamente o compromisso de investigar esses casos”, disse a segunda secretária do conselho.
Segundo ela, em 2025, o CRM-AM recebeu 39 denúncias relacionadas à assistência em saúde, a maioria envolvendo unidades públicas.
A médica explicou, no entanto, que a atuação do Conselho tem limitações legais.
“Nosso poder é administrativo. Precisamos atuar em conjunto com outros órgãos, como o Ministério Público. Existe o direito à ampla defesa, e não podemos queimar etapas”, afirmou.
Ainda assim, defendeu maior atuação preventiva. “Não podemos esperar apenas denúncias. Precisamos fiscalizar de ofício os serviços de saúde”, completou.
Ao final da audiência, as famílias reforçaram que pretendem levar a pauta a outras instâncias, como a Assembleia Legislativa e órgãos de controle. “Nada vai nos parar. Nada para uma mãe. Falamos porque nossos filhos não podem mais falar”, declarou Lisandra.