Dia das Mães

‘Mães da pandemia’  celebram  a superação e a vida

Histórias de mulheres que deram à luz entre 2020 e 2021 revelam coragem em meio ao medo

Karol Pacheco
11/05/2025 às 07:50.
Atualizado em 11/05/2025 às 07:50

Márcia Almeida teve o pequeno Theodoro durante a pandemia; hoje, ele tem  cinco (Foto: Divulgação)

Neste domingo (11), o Dia das Mães ganha um significado ainda mais profundo para mulheres que viveram a gestação e o parto durante os dias mais sombrios da pandemia de Covid-19. Elas enfrentaram o medo, a solidão, a incerteza e, agora, veem seus filhos crescendo — saudáveis, curiosos, cheios de vida — como símbolos de resistência e esperança.

Entre 2020 e 2021, mais de 5,3 milhões de crianças nasceram no Brasil, mesmo em meio ao colapso dos hospitais e às dúvidas que cercavam o vírus, segundo dados do IBGE. Para cada uma dessas mães, trazer um filho ao mundo nesse período foi um ato de coragem — talvez o maior de todos.

Além do medo do vírus, essas mulheres precisaram lidar com o cancelamento de muitos momentos que fazem parte do ritual da maternidade: não puderam fazer o enxoval com calma nas lojas, frequentar reuniões em família, dividir a expectativa com os amigos, nem realizar o acompanhamento pré-natal de forma integral. 
Consultas foram desmarcadas, exames adiados, visitas proibidas. A ausência de rede de apoio e o isolamento afetaram profundamente o bem-estar emocional dessas gestantes, que tiveram que lidar com o desconhecido sem o conforto da presença física de seus entes queridos.

Chegada da pandemia

Izabel Garcia, de 42 anos, foi uma dessas mães. A chegada da sua primeira filha, Izadora, aconteceu apenas quatro dias antes de ser decretada a pandemia.

“Nosso pré-natal foi ótimo, sem intercorrências”, relembra. Mas logo o mundo virou de cabeça para baixo.

“Não tínhamos muita noção do que seria e o que estaria por vir. As visitas foram suspensas. Os avós a conheceram no dia do nascimento e só voltaram a vê-la cinco meses depois. A gente se falava por vídeo. Não tivemos o aconchego da família, além da sobrecarga de tarefas domésticas. Mas nada superou o medo de eu morrer e deixar minha pequena”, conta Izabel.

Izabel e a filha Izadora, durante a pandemia de Covid-19

 Izabel enfrentou crises de ansiedade intensas, alimentadas pelo receio constante da morte. O suporte da pediatra foi essencial, já que as consultas médicas eram o único momento de contato externo.

“Ficar só nós três também teve um lado bom, porque nos aproximou muito. Lembro de um dia em que eu precisava ir ao banheiro e estava sozinha com a bebê. Liguei por vídeo para minha mãe, que ficou cantando e conversando com minha filha enquanto eu me ausentava por alguns minutos. Foi o suporte possível naquele momento.”

Hoje, Izabel olha para trás com gratidão: pela saúde da filha, pelo apoio mesmo à distância e pela força que descobriu dentro de si.

Medo durante o puerpério

Márcia Almeida, de 40 anos, também viveu os impactos desse período. Mãe de Theodoro, hoje com cinco anos, ela lembra com emoção da mistura de alegria e medo que marcou a chegada do filho.

“O pré-natal e o parto foram ótimos, mas meu médico faleceu antes de eu terminar o puerpério. Tive uma infecção na cirurgia e me vi perdida, sem saber a quem recorrer. O medo de que eu ou meu filho pegássemos covid era constante”, conta. Ainda assim, ela sorri ao ver Theodoro correndo pela casa, saudável. “Ele é minha luz. Foi um começo difícil, mas hoje eu só tenho a agradecer", disse Márcia.

Essas histórias ecoam as palavras ditas pelo Papa Francisco, ainda em 2020, quando ele fez um apelo emocionado ao mundo: “Abençoadas sejam as mães que, mesmo em tempos de pandemia, não desistiram de gerar vida.” Suas palavras trouxeram conforto a muitas mulheres que, confinadas em casa e longe da rede de apoio, enfrentaram a maternidade com uma força quase silenciosa.

Cinco anos após o início da pandemia, Izabel e a filha Izadora, unidas e felizes

 É preciso ressignificar

A experiência da maternidade durante a pandemia precisa ser ressignificada para que não se transforme em um trauma recorrente. Essa é a orientação da psicóloga Neyla Siqueira, em orientação às mães que viveram o puerpério e a primeira infância dos filhos em meio ao isolamento social.

“Já aconteceu, não tem como mudar. O caminho é olhar para essa experiência com um olhar resiliente, entender o que se viveu e o que foi possível tirar de bom. Só assim é possível seguir em frente sem carregar o medo constante”, afirma.

Segundo ela, o pós-pandemia ainda assombra, seja pelo receio de novas infecções, seja pelo peso emocional do que foi vivido.

A rotina das mães durante a pandemia foi marcada por transformações drásticas, inclusive nos rituais da gestação. Neyla destaca que muitos desses momentos simbólicos — como chá de bebê, revelação de sexo e até o acompanhamento médico — precisaram ser adaptados para formatos online ou em carreatas.

“Foram formas diferentes de viver esses marcos da maternidade. São experiências que precisam ser reconhecidas como válidas e importantes, ainda que fora do padrão”, diz.

A psicóloga enfatiza que essas adaptações devem ser entendidas como formas legítimas de conexão e afeto, ainda que distantes do ideal tradicional.
Na hora de contar às crianças sobre esse período, Neyla defende uma abordagem honesta e respeitosa, adequada à idade. “Elas vão ter contato com essa história de forma social, porque foi um marco global. Então é importante que essa narrativa venha da própria família, com afeto e clareza”, orienta. 

Crianças nascidas durante a pandemia, segundo ela, também enfrentam desafios específicos — tiveram menos convívio social e enfrentaram um desenvolvimento marcado pela restrição. Para Neyla, o impacto desse período será inevitável, mas não precisa ser negativo. “O que não pode é viver com medo constante. Isso sim prejudica as relações, o desenvolvimento das crianças e a saúde emocional das mães.”

Desafio pós-parto

A trajetória de Rociane Rebello, 33 anos, também foi marcada por desafios, especialmente após o parto de sua filha Isa, que nasceu prematura e hoje tem quatro anos. 

“Normalmente a mãe tira o leite do peito e deixa pra dar pra criança. Você sabe que pra descer o leite demora, né? E na época da covid eu não podia tirar e deixar lá. Eu tinha que tirar na hora, ou seja, eu estava começando a produzir o leite, tirava e deixava lá. Então, a maior parte do tempo, a Isa não mamava meu leite porque eles não armazenavam por causa do vírus — ela tinha que ir pra fórmula”, relembra.

“Foi difícil, mas hoje, olhando pra Isa — uma menina feliz, saudável, forte e minha grande companheira de vida —, eu vejo que tudo valeu a pena. Cada sacrifício se transformou em força. Ela é meu maior presente.”

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