Amor por Parintins

Mães torcedoras dos bois Garantido e Caprichoso passam a tradição da festa aos filhos

Paixão transmitida entre gerações garante a continuidade da festa, da cultura e do folclore

Robson Adriano
15/05/2023 às 16:01.
Atualizado em 15/05/2023 às 17:58

(Fotos: Jeiza Russo e Paulo Bindá / A Crítica)

A cultura é a manifestação de um povo e passada entre as gerações garante a continuidade da história de uma nação. Oriundo do município de Parintins (distante 369 quilômetros de Manaus) há mais de 100 anos, o Boi-bumbá permanece forte na cultura do Amazonas devido ao legado transmitido de mãe para filhos, como no caso das mães Franciane e Roseane, torcedoras dos bois Caprichoso e Garantido, respectivamente. Manter nas futuras gerações a paixão pelos bumbas é a certeza da continuidade da festa, da cultura e do folclore. 

Torcedora do boi Caprichoso, ritmista da Marujada de Guerra desde 2014 e mãe, Franciane Oliveira, 35 anos, vê crescer nos filhos, Gean David, 6 anos, e Geovana Oliveira, 10 anos, a paixão pelo boi da Francesa. Em 2007 a dona de casa fazia parte de uma das torcidas organizadas do boi azul e naquela época conheceu o marido, o parintinense Patrick Oliveira, 35 anos, que recebeu da avó materna a missão de manter na família a paixão pelo boi da estrela na testa. 

Franciane lembra que grávida de Geovana frequentava os eventos do Caprichoso e no ano de 2016 viajou para o festival já com Gean David na barriga. Hoje a filha toca roca ao lado da mãe, e o menino tem o surdo como instrumento, próximo do pai que domina as caixas da Marujada de Guerra.

“Esse ano é o primeiro ano dela (Geovana) já na arena. Ela cresceu no meio da gente e em 2012 eu fui grávida dela para Parintins, ano em que fomos campeões. E ela nasceu no dia 22 de agosto, dia do Folclore. E desde lá não paramos mais. Começou a surgir a vontade neles em brincar o boi”, lembrou.

De maneira natural a paixão pelo boi Caprichoso foi aflorando nos pequenos Gean David e Geovana. “A gente nunca forçou, na realidade, a gente mostra e apresenta o que vivemos no ano todo”, disse a dona de casa. Questionada sobre o sentimento de ver os filhos herdando a cultura do boi-bumbá e em especial pelo Caprichoso, ela relata que vive uma grande emoção.

“Eu tenho maior orgulho em vê-los. Principalmente a mais velha que agora está me acompanhando (na Marujada), mas, quando eles estão juntos ao meu lado, é algo que nunca imaginei. Ver que os meus filhos também gostam de estar ali”, acrescentou.

Ritmista da Marujada de Guerra, Franciane Oliveira vê aflorar nos filhos a paixão pelo Boi da Francesa

No verso “Desde criança eu brinco boi no Caprichoso” da toada ‘Eu te amo, Caprichoso (2010)’ do compositor César Moraes, a família encontra a expressão do que vivem junto do boi negro de Parintins.

“Para nós é muito importante, sabe? Eles nasceram no meio. Para quem vive o boi e ter um filho que participa da Marujada ou que vira um apresentador e até mesmo artista plástico é muito gratificante. Eu sou muito feliz enquanto mãe deles, sou muito feliz de vê-los crescer envolvidos”, disse.

No acervo da família estão bois em miniatura e pelúcia, CDs, DVDs com as apresentações das três noites de festival e fotos dos anos 90 e 2000 da família de Patrick que herda o DNA marujeiro da avó. “Eu digo que não tive para onde correr. Você não escolhe você é escolhido. Quando a minha avó me levava para o Zeca Xibelão, ali era o meu mundo. Me deixava em êxtase”, lembrou. Franciane recorda que por incentivo de amigas começou a frequentar os eventos do Caprichoso realizados ainda no TV Lândia. “Eu nunca imaginei que o Caprichoso me daria uma família. Nunca imaginei que eu casaria com alguém que sempre viveu o festival”, pontuou.

O festival desse ano será a estreia de Geovana na arena ao lado da mãe, que já adiantou que não vai conseguir segurar a emoção e se renderá às lagrimas. “Eu fico imaginando a sensação de quando ele (Patrick) entrou pela primeira vez na arena com a mesma idade dela, aos 10 anos. Eu sei que eu vou chorar”, declarou. “Eles (os filhos) gostam. A nossa felicidade maior é ver que eles realmente gostam. Não estão ali forçadas. Dá para ver que amam está ali’, acrescentou. 

Paixão de mulher e coração de menina 

A empresária Roseane Pereira, 35 anos, inspirada pela toada de 1999 do álbum ‘Mito, cultura e arte’ colocou na filha o nome de Naiá Vitória. A pequena de 8 anos já veste a camisa vermelha e branca e acompanha os passos da mãe na paixão pelo boi da Baixa do São José. Foi nos anos 2000 que levada pela mãe, Fátima Silva, Rose teve o primeiro contato com o curral do Boi Garantido, lugar de onde nunca mais saiu, mesmo com uma gravidez complicada e o falecimento do irmão mais velho, Rodrigo Silva, ocorrido no ano de 2014. 

“Foi minha mãe quem me levou no curral. Faz muito tempo que vivo nesse meio bovino (sic). Dizem as más línguas que quando eu era criança gostava do contrário, mas, não me lembro (risos). Daquela época de curral, lembro que uma noite teve a presença da Valéria Valenssa (Globeleza) e achei ela linda toda de vermelho. É uma imagem que ficou na minha memória bem forte. Eu não sei explicar, mas, fui tomada por um amor muito grande. Uma emoção gigantesca”, comenta.

Rose menciona que desde criança ainda no período escolar tem registros já dançando boi. Ela relata ainda que no final de 2005 ingressou na torcida oficial organizada do boi Garantido, o Comando Garantido, permanecendo por seis anos e já foi a Parintins aproximadamente nove vezes.

“Com 10 anos já podia entrar no curral e ela (minha mãe) me convidava. Desde que pisei os meus pés no curral e nunca mais quis saber de outra vida”, declarou.

Mesmo grávida de Naiá, Rose frequentava os eventos do boi Garantido em Manaus. “Foi uma gravidez meio complicada. Fui no lançamento do cd em 2014 que realizaram como uma avant-première. Tive problemas com nove meses de gestação devido ao falecimento do meu irmão e fiquei reclusa para curtir o fim da gravidez”, complementa. Naiá por pouco não se torna Naruna, inspiração buscada na toada Naruna das Amazonas (2012) do álbum ‘Tradição’ dos compositores Rafael Marupiara e Ronaldo Jr. 

Roseane Pereira desde cedo insere a filha em sua paixão pelo Boi da Baixa do São José

“A lenda de ‘Naiá’ é coisa mais linda. Fala sobre o amor. Não tem outra coisa que explique mais a paixão que tenho por minha filha do que o amor. Então, eu escolhi essa lenda e esse nome pois traz o amor como centro da história. Na verdade, ela iria se chamar apenas Naiá, o Vitória se deu em virtude do que aconteceu no fim da gravidez pelo falecimento do tio dela e o fato de eu conseguir me manter calma. Foi uma vitória ela não vir antes do tempo”, pontuou.

Do ponto de vista de Rose passar a cultura do boi-bumbá para as crianças é garantir a continuidade da história.

“Eu vejo que é do ser humano passar a tradição. Mais à frente quem dará continuidade nessa paixão são eles (as crianças), como antigamente, passaram para mim. É importantíssimo passar para os filhos a tradição para as crianças e mostrar a nossa cultura que é a coisa mais rica que temos”, analisou.

A expectativa de conhecer o festival pela primeira vez é grande em Naiá. A empresária conta que a pequena fez até um cofre para a viagem, que por conflitar com o calendário escolar, foi adiada para 2024.

“Queria muito levá-la esse ano, mas, conflitou com a semana de provas e cancelamos. Ano que vem ela terá 10 anos e já poderá entrar em alguns eventos. Ela tem muita vontade de conhecer e só fala disso. Juntou um monte de moeda no cofre e tem expectativa de conhecer o festival”, revelou.

Perguntada qual toada representa o amor que sente pelo Garantido, Rose pontua a toada ‘Flor de Tucumã’, composição de Emerson Maia, para o álbum de 1997 chamado ‘Parintins para o mundo ver’.

“O dia e a hora que essa toada tocar eu sei que vou chorar. É uma letra que fala do amor do torcedor com o Boi. Mas, também expressa a emoção da festa. A palavra que resume o Garantido para mim é amor”, finaliza.
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