Paixão transmitida entre gerações garante a continuidade da festa, da cultura e do folclore
(Fotos: Jeiza Russo e Paulo Bindá / A Crítica)
A cultura é a manifestação de um povo e passada entre as gerações garante a continuidade da história de uma nação. Oriundo do município de Parintins (distante 369 quilômetros de Manaus) há mais de 100 anos, o Boi-bumbá permanece forte na cultura do Amazonas devido ao legado transmitido de mãe para filhos, como no caso das mães Franciane e Roseane, torcedoras dos bois Caprichoso e Garantido, respectivamente. Manter nas futuras gerações a paixão pelos bumbas é a certeza da continuidade da festa, da cultura e do folclore.
Torcedora do boi Caprichoso, ritmista da Marujada de Guerra desde 2014 e mãe, Franciane Oliveira, 35 anos, vê crescer nos filhos, Gean David, 6 anos, e Geovana Oliveira, 10 anos, a paixão pelo boi da Francesa. Em 2007 a dona de casa fazia parte de uma das torcidas organizadas do boi azul e naquela época conheceu o marido, o parintinense Patrick Oliveira, 35 anos, que recebeu da avó materna a missão de manter na família a paixão pelo boi da estrela na testa.
Franciane lembra que grávida de Geovana frequentava os eventos do Caprichoso e no ano de 2016 viajou para o festival já com Gean David na barriga. Hoje a filha toca roca ao lado da mãe, e o menino tem o surdo como instrumento, próximo do pai que domina as caixas da Marujada de Guerra.
De maneira natural a paixão pelo boi Caprichoso foi aflorando nos pequenos Gean David e Geovana. “A gente nunca forçou, na realidade, a gente mostra e apresenta o que vivemos no ano todo”, disse a dona de casa. Questionada sobre o sentimento de ver os filhos herdando a cultura do boi-bumbá e em especial pelo Caprichoso, ela relata que vive uma grande emoção.
Ritmista da Marujada de Guerra, Franciane Oliveira vê aflorar nos filhos a paixão pelo Boi da Francesa
No verso “Desde criança eu brinco boi no Caprichoso” da toada ‘Eu te amo, Caprichoso (2010)’ do compositor César Moraes, a família encontra a expressão do que vivem junto do boi negro de Parintins.
No acervo da família estão bois em miniatura e pelúcia, CDs, DVDs com as apresentações das três noites de festival e fotos dos anos 90 e 2000 da família de Patrick que herda o DNA marujeiro da avó. “Eu digo que não tive para onde correr. Você não escolhe você é escolhido. Quando a minha avó me levava para o Zeca Xibelão, ali era o meu mundo. Me deixava em êxtase”, lembrou. Franciane recorda que por incentivo de amigas começou a frequentar os eventos do Caprichoso realizados ainda no TV Lândia. “Eu nunca imaginei que o Caprichoso me daria uma família. Nunca imaginei que eu casaria com alguém que sempre viveu o festival”, pontuou.
O festival desse ano será a estreia de Geovana na arena ao lado da mãe, que já adiantou que não vai conseguir segurar a emoção e se renderá às lagrimas. “Eu fico imaginando a sensação de quando ele (Patrick) entrou pela primeira vez na arena com a mesma idade dela, aos 10 anos. Eu sei que eu vou chorar”, declarou. “Eles (os filhos) gostam. A nossa felicidade maior é ver que eles realmente gostam. Não estão ali forçadas. Dá para ver que amam está ali’, acrescentou.
A empresária Roseane Pereira, 35 anos, inspirada pela toada de 1999 do álbum ‘Mito, cultura e arte’ colocou na filha o nome de Naiá Vitória. A pequena de 8 anos já veste a camisa vermelha e branca e acompanha os passos da mãe na paixão pelo boi da Baixa do São José. Foi nos anos 2000 que levada pela mãe, Fátima Silva, Rose teve o primeiro contato com o curral do Boi Garantido, lugar de onde nunca mais saiu, mesmo com uma gravidez complicada e o falecimento do irmão mais velho, Rodrigo Silva, ocorrido no ano de 2014.
Rose menciona que desde criança ainda no período escolar tem registros já dançando boi. Ela relata ainda que no final de 2005 ingressou na torcida oficial organizada do boi Garantido, o Comando Garantido, permanecendo por seis anos e já foi a Parintins aproximadamente nove vezes.
Mesmo grávida de Naiá, Rose frequentava os eventos do boi Garantido em Manaus. “Foi uma gravidez meio complicada. Fui no lançamento do cd em 2014 que realizaram como uma avant-première. Tive problemas com nove meses de gestação devido ao falecimento do meu irmão e fiquei reclusa para curtir o fim da gravidez”, complementa. Naiá por pouco não se torna Naruna, inspiração buscada na toada Naruna das Amazonas (2012) do álbum ‘Tradição’ dos compositores Rafael Marupiara e Ronaldo Jr.
Roseane Pereira desde cedo insere a filha em sua paixão pelo Boi da Baixa do São José
Do ponto de vista de Rose passar a cultura do boi-bumbá para as crianças é garantir a continuidade da história.
A expectativa de conhecer o festival pela primeira vez é grande em Naiá. A empresária conta que a pequena fez até um cofre para a viagem, que por conflitar com o calendário escolar, foi adiada para 2024.
Perguntada qual toada representa o amor que sente pelo Garantido, Rose pontua a toada ‘Flor de Tucumã’, composição de Emerson Maia, para o álbum de 1997 chamado ‘Parintins para o mundo ver’.