Racismo

Mulheres negras enfrentam mais violência obstétrica, aponta estudo da UFAM

A pesquisa é de Rafaele de Souza Queiroz, doutoranda em Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

Amariles Gama
10/07/2026 às 09:27.
Atualizado em 10/07/2026 às 09:27

(Foto: Reprodução)

Um estudo publicado pela pesquisadora Rafaele de Souza Queiroz, doutoranda em Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), revelou como mulheres negras seguem mais expostas à violência obstétrica e à negligência médica no Brasil. Dados mostram que elas têm 62% mais chances de enfrentar um pré-natal inadequado.

O texto dela, intitulado “Cor Visível, Corpo Desumanizado: experiências de mulheres negras e racializadas na assistência médica”, foi publicado em um capítulo do livro Racismo e Saúde: Perspectivas Antropológicas Contemporâneas, da Fundação Oswaldo Cruz.

O estudo reúne relatos de mulheres negras e racializadas da comunidade Purupuru, no Careiro, sobre situações de negligência, humilhação e desumanização durante atendimentos médicos no Sistema Único de Saúde (SUS).

Segundo Rafaele, a violência obstétrica ainda é pouco reconhecida pelas próprias vítimas porque muitas práticas acabaram sendo naturalizadas ao longo dos anos. A pesquisadora explica que muitas gestantes já chegam às maternidades com medo de expressar dor, reclamar de maus-tratos ou questionar procedimentos médicos, porque cresceram ouvindo que esse sofrimento faz parte do parto e que precisam “se comportar” durante o atendimento.

“Uma em cada quatro mulheres no Brasil já sofreu ou sofre algum tipo de violência obstétrica. Mas muitas dessas mulheres não sabem o que é violência obstétrica porque isso foi naturalizado. Então, frases como ‘não grita’, ‘na hora de fazer não gritou’, ou mulheres sendo orientadas a ficar caladas no parto para o médico não se irritar, tudo isso também é violência”, afirmou.

RACISMO E VIOLÊNCIA

Rafaele destaca que mulheres negras acabam sendo as mais afetadas por esse cenário por causa do racismo estrutural presente na sociedade e reproduzido dentro dos serviços de saúde.

“O racismo obstétrico é uma herança de uma sociedade construída a partir da violação de corpos negros. Existe uma ideia histórica dentro da medicina de que mulheres negras suportam mais dor, que são mais resistentes e, por isso, recebem menos anestesia, menos cuidado e menos acolhimento”, explicou.

Dados citados pela pesquisadora mostram que mulheres negras têm mais chances de enfrentar dificuldades durante a assistência médica. Segundo a pesquisa Nascer no Brasil, mulheres negras possuem 62% mais chances de ter um pré-natal inadequado e são as que mais peregrinam entre maternidades em busca de atendimento.

“São mulheres que passam mais tempo procurando leito, mais tempo esperando atendimento e, muitas vezes, sem acompanhante. Isso não acontece por acaso. É reflexo do racismo estrutural”, afirmou.

SOFRIMENTO TRATADO COMO “NORMAL”

A pesquisadora explica que esse tipo de violência não acontece apenas no momento do parto. Ela pode ocorrer durante toda a gestação e até depois do nascimento do bebê.

“A violência obstétrica acontece no pré-natal, no parto e no pós-parto. Ela pode ser psicológica, física, verbal e até por negligência. A Organização Mundial da Saúde classifica como violência obstétrica qualquer ação que desrespeite, cause sofrimento ou negligência à mulher nesse processo”, disse.

A pesquisa de Rafaele também destacou a realidade de mulheres ribeirinhas do Careiro, que muitas vezes precisam sair da comunidade semanas antes do parto para tentar conseguir atendimento em Manaus ou em municípios próximos.

Uma das histórias reunidas pela pesquisadora é a de uma mulher negra que morreu após sofrer violência obstétrica.

“Além de serem mulheres, elas também são negras, ribeirinhas e moradoras de comunidades tradicionais. Então, existe uma soma de vulnerabilidades que atravessa esses corpos”, disse.

Em maio deste ano, uma mulher deu à luz dentro do banheiro do Instituto da Mulher Dona Lindu, em Manaus, o ocorrido chamou atenção para os casos de violência obstétrica na capital amazonense. A família denunciou a demora no atendimento e possível negligência da equipe médica.

Após a repercussão do caso, a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) informou o afastamento do médico plantonista e da supervisão responsável pelo atendimento até a conclusão da apuração.

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