Âmbar Energia assumiu oficialmente a concessionária do estado, prometendo modernizar a rede, atuar contra desvios e fazer acordos sobre dívidas
(Foto: Jeiza Russo)
A Âmbar Energia, empresa do Grupo J&F, tem 60 dias para fazer um aporte de capital de R$ 9,8 bilhões para dar um fôlego à deficitária Amazonas Energia. Na última sexta-feira (10), a companhia com sede em São Paulo e atuação nacional, assumiu oficialmente a concessionária do estado após uma disputa administrativa que chegou à Justiça Federal e encerrou com a assinatura de um acordo.
Nesta terça-feira (14), a Âmbar Energia recebeu a imprensa para anunciar a novidade e destacar prioridades. Entre elas, o foco em modernização da rede, atuação contra desvios de energia e acordos com grandes e pequenos consumidores inadimplentes. A empresa evitou detalhar temas sensíveis, como o atual passivo (dívidas da companhia) e a manutenção do quadro ativo de colaboradores.
“Nós viemos, de fato, entregar resultado concreto. Nosso objetivo no Amazonas é levar energia elétrica de qualidade a toda a população do estado e, para isso, a gente sabe que será necessário trabalho duro, investimento, parceria sólida e gestão”, afirma o presidente da Âmbar na área de distribuição, João Pilla. Com mais de 40 anos de experiência no Grupo J&F, ele assume a direção da Âmbar no Amazonas.
(Foto: Jeiza Russo)
Investimento
O acordo assinado junto à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), responsável por fiscalizar a operação, prevê que a Âmbar Energia faça um aporte de capital de R$ 9,8 bilhões em até 60 dias após a aquisição. O valor, segundo Pilla, pode ser ainda maior.
“Nós vamos cumprir o mínimo que está no contrato, mas, se for [investido] um valor diferente, será maior”, diz ele. A prioridade deste momento, segundo a companhia, é realizar um diagnóstico que permita avaliar se há necessidade de mais recursos.
Desvios e uso de medidores aéreos
Um dos grandes desafios da nova controladora é lidar com o alto número de desvios de energia. “A cada 1 megawatt que eu faturou, 1,2 megawatt é desviado”, diz João Pilla. O roubo de energia chega a mais de 50% do total distribuído, o maior percentual do país, segundo a companhia.
“A gente pretende fazer uma modernização, colocar tecnologia, transformar essa distribuidora em uma rede mais digitalizada, para que a gente possa reduzir esse desvio”, afirmou.
Questionado sobre se há possibilidade de retorno dos medidores aéreos, o diretor afirmou que não. “Nós não vamos trabalhar com SMC. Ele traz ganho, mas é um custo alto para ser implantado”, disse.
A Amazonas Energia conseguiu instalar mais de 15 mil na cidade de Manaus, entre 2023 e 2024, na tentativa de reduzir os desvios. A tecnologia, porém, foi fortemente rejeitada pela população, com apoio político de deputados estaduais. A meta, cancelada, era chegar a 430 mil até 2030.
Devedores
Outro grande problema a ser enfrentado pela Âmbar é o alto número de grandes devedores, especialmente prefeituras e o próprio governo estadual. Em 2024, a Amazonas Energia informou que havia R$ 2,8 bilhões em contas atrasadas de consumidores somente em Manaus. No interior, chegava a R$ 890 milhões.
João Pilla afirmou que a companhia prevê a revitalização dos canais digitais para facilitar o atendimento e resolução de dívidas com pequenos consumidores. No caso de grandes devedores, o esforço precisará ser ainda mais concentrado.
“Estamos fazendo uma grande avaliação. Eu, pessoalmente, quero falar com todas as prefeituras. Quero me aproximar de todos os prefeitos para a gente resolver o passado e garantir o futuro”, pontuou.
Dívidas e pessoal
A Âmbar evitou informar o valor atual de dívidas que ela própria tem com fornecedores, como a Eletrobras, ou com o governo estadual. Um relatório com dados até 2021 e, portanto, defasado, mostrava que até aquele ano os passivos da companhia chegavam a R$ 11,9 bilhões.
“Em algum momento a gente vai publicar esse valor”, afirmou João Pilla, se referindo à quantia atualizada. Para resolver os débitos e realizar a transferência, ele explica que a Amazonas Energia fez acordos com a Eletrobras e o governo. “O fato é o seguinte: entre estado, empresa e poder público já está tudo equalizado, tudo encaminhado”.
A reportagem também perguntou se a Âmbar pretende fazer demissões ou ampliar o quadro da Amazonas Energia. Pilla respondeu apenas que a companhia irá potencializar o time local, sem detalhar as ações.
“Nós somos uma empresa que acredita em gente. E nós, quando a gente compra uma empresa, a gente chega e potencializa o time local. Nós acreditamos que as pessoas que estão aqui detém a expertise”.
Sobre a transferência
A novela da transferência da Amazonas Energia para a Âmbar começou em 2023, quando a Aneel passou a apontar problemas na concessão (especialmente falta de estabilidade financeira), negou uma transferência da empresa à Green Energy e recomendou a caducidade do contrato com a então controladora.
Em junho de 2024, o governo editou a Medida Provisória 1.232 para criar condições à operação e transferência da concessionária, mas o negócio com a Âmbar Energia entrou numa disputa judicial que travou a conclusão por meses. O processo, apresentado pela Amazonas Energia, visava obrigar a Aneel a cumprir o que estava previsto na MP.
Em outubro de 2024, a agência reguladora chegou a autorizar a transferência por ordem da Justiça, mas a assinatura ocorreu no limite do prazo da MP, o que abriu nova controvérsia sobre a validade do ato. A insegurança jurídica manteve o impasse vivo até a justiça reconhecer as assinaturas como válidas.
O desfecho da transferência veio em 31 de março de 2026, quando a Justiça Federal homologou um acordo entre a Amazonas Energia e a Aneel, encerrando a ação. Com isso, a Âmbar ficou livre para assumir a concessão, o que fez no último dia 10 de abril.