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NR-1 amplia responsabilidade sobre riscos psicossociais e coloca liderança no centro da prevenção

Atualização da norma reforça que saúde mental deixou de ser apenas uma pauta de bem-estar e passa a integrar a gestão dos riscos ocupacionais nas empresas.

acritica.com
10/07/2026 às 16:47.
Atualizado em 10/07/2026 às 16:47

(Foto: Reprodução)

Durante muito tempo, a saúde mental ocupou um espaço periférico nas estratégias corporativas. Campanhas de conscientização, programas de qualidade de vida e benefícios voltados ao bem-estar passaram a fazer parte da rotina de muitas empresas, mas, na prática, frequentemente permaneceram desconectados da gestão do trabalho.

A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) sinaliza uma mudança importante nesse cenário. Ao incluir os riscos psicossociais na gestão de riscos ocupacionais, a norma amplia a responsabilidade das organizações e reforça que fatores ligados à forma como o trabalho é organizado também devem ser identificados, avaliados e tratados preventivamente.

A mudança acompanha um contexto que já preocupa especialistas em saúde pública. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 15% dos adultos em idade produtiva convivem com algum transtorno mental. A OMS estima ainda que depressão e ansiedade sejam responsáveis pela perda de aproximadamente 12 bilhões de dias de trabalho por ano, gerando um impacto econômico próximo de US$ 1 trilhão em produtividade.

Na avaliação de profissionais que atuam com comportamento organizacional, o maior desafio não será adaptar documentos ou atualizar procedimentos internos, mas desenvolver uma capacidade mais consistente de identificar fatores que favorecem o adoecimento antes que eles se transformem em afastamentos, conflitos ou perda de desempenho.

Entre esses fatores estão sobrecarga de trabalho, metas incompatíveis com os recursos disponíveis, baixa autonomia, comunicação deficiente, relações interpessoais deterioradas e estilos inadequados de liderança. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) destaca que os riscos psicossociais surgem justamente da forma como o trabalho é planejado, organizado e conduzido, e não apenas de situações extremas ou eventos isolados.

Esse novo contexto também reacende uma discussão recorrente dentro das empresas: afinal, quem é responsável pelos riscos psicossociais?

Embora áreas como Recursos Humanos e Segurança e Saúde no Trabalho tenham papel fundamental na construção de políticas e processos, especialistas defendem que concentrar toda a responsabilidade nesses departamentos reduz a capacidade preventiva das organizações.

Para Andrea Bracelis, fundadora da JAIA e especialista em inteligência emocional, a mudança mais significativa trazida pela atualização da NR-1 acontece na rotina das lideranças.

"Os riscos psicossociais quase nunca surgem de forma repentina. Eles costumam deixar sinais discretos no comportamento das equipes, na comunicação e nas relações de trabalho. Organizações mais maduras conseguem perceber esses movimentos antes que eles apareçam nos indicadores tradicionais."

Na prática, isso significa que líderes passam a desempenhar um papel estratégico na observação do ambiente de trabalho, identificando mudanças comportamentais, aumento de conflitos, isolamento de colaboradores, perda de engajamento e outros sinais que frequentemente antecedem o adoecimento ocupacional.

Essa abordagem está alinhada às recomendações da ISO 45003, primeira norma internacional dedicada à gestão da saúde psicológica e dos riscos psicossociais. O documento orienta que esses fatores sejam incorporados aos processos permanentes de gestão, e não tratados apenas como iniciativas pontuais de bem-estar ou campanhas de conscientização.

Além do aspecto regulatório, estudos mostram que organizações capazes de atuar preventivamente tendem a reduzir custos relacionados ao absenteísmo, turnover, presenteísmo e queda de produtividade. Em um cenário em que saúde mental e desempenho passam a caminhar lado a lado, especialistas avaliam que investir em prevenção deixou de ser apenas uma questão de conformidade para se tornar uma decisão estratégica.

Como resume Andrea Bracelis:

"O maior erro é agir somente quando o problema já se tornou evidente. A prevenção começa muito antes dos indicadores tradicionais. Ela começa quando a empresa aprende a observar os sinais que as pessoas deixam no dia a dia."

Para aprofundar esse debate, a JAIA reúne estudos e análises sobre riscos psicossociais e disponibiliza outros conteúdos em seu portal institucional https://www.somosjaia.com.br⁠.

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