Estado acompanha tendência nacional de avanço das igrejas evangélicas; aumento reflete também na política e amplia diversidade religiosa
Milhares de fiéis lotaram a pista e as arquibancadas do sambódromo na Convenção Estadual da Assembleia de Deus (Foto: Reprodução)
Os dados do Censo 2022 sobre religião mostram que o número de evangélicos no Amazonas cresceu 52% em relação a 2010. Na época, os seguidores das vertentes protestantes eram 833,8 mil. Doze anos depois, cresceram para mais de 1,2 milhão, tornando-se 39,3% da população total do estado. Na linha inversa, o número de católicos caiu 6,7%: eram 1,63 milhão em 2010 e passaram a ser 1,52 milhão em 2022. Na proporção estadual, os católicos correspondem a 47,3% da população.
Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados na última semana levam em conta todas as pessoas com 10 anos ou mais que declararam ser seguidores de alguma fé, nenhuma fé ou que preferiram não declarar se possuíam alguma crença.
Em números absolutos, a cidade em que ocorreu o maior crescimento de evangélicos foi Manaus, com aumento de 179,4 mil nos seguidores do protestantismo. Percentualmente, o crescimento foi de 35%. O movimento evangélico também identificou aumento em Manacapuru (mais 18,9 mil), Itacoatiara (mais 15,1 mil), Iranduba (mais 13,7 mil), Tefé (mais 13,6 mil) e Tabatinga (mais 11,4 mil).
Todos os outros municípios também registraram aumento no número de evangélicos, em maiores ou menores proporções. A cidade com o menor aumento numérico e percentual foi Barcelos, com apenas 315 novos fiéis, uma variação positiva de 9% em relação ao Censo de 2010. Já o município com a maior variação percentual positiva foi Itamarati, com 311% novos fiéis. Eram 790 em 2010 e passaram para 3,2 mil em 2022.
A cidade com o maior número de seguidores das igrejas evangélicas é Manaus: 686,9 mil declararam seguir essa fé, ou 39,5% da população. Já Santa Isabel do Rio Negro é a cidade com o menor número de evangélicos do Amazonas, com apenas 1,7 mil seguidores. Embora tenha havido um aumento de 45% em relação a 2010, os evangélicos são apenas 16,8% da população local.
Apesar da queda, os católicos ainda são a maioria do Amazonas, representando 47,39% da população. A nível municipal, houve queda no número de católicos em 46 cidades, enquanto em 16 foi registrado aumento nos seguidores da Igreja Católica Apostólica Romana entre os anos de 2010 e 2022.
Católicos ainda são a maioria do Amazonas, representando 47,39% da população
Em termos percentuais, os maiores crescimentos registrados foram em Boa Vista do Ramos (77%), São Gabriel da Cachoeira (33%), Urucurituba (32%), Silves (16%) e Humaitá (14%). No outro eixo, as maiores quedas percentuais ocorreram em Barcelos (48%), Atalaia do Norte (46%), Juruá (45%), Manaquiri (41%) e Santo Antônio do Içá (37%).
Nos números totais, a cidade de Manaus ainda concentra o maior número de católicos do Amazonas, com mais de 772 mil seguidores da Santa Sé. A segunda colocada é Parintins, com 57,8 mil pessoas. A terra dos bumbás também é conhecida pela catedral de Nossa Senhora do Carmo e pelas festividades católicas locais. Completam o pódio de municípios com mais fiéis católicos: Maués (31 mil), Humaitá (30,4 mil) e Manacapuru (30,3 mil).
O Censo 2022 mostrou que houve também um aumento de 100% no número de seguidores de tradições indígenas, categoria que não existia no Censo de 2022. Segundo o IBGE há mais de 11 mil praticantes de crenças indígenas, embora o Censo não detalhe quais seriam elas. O número corresponde a 0,35% da população do Amazonas.
Os espíritas foram outro grupo que registraram queda, com 6,5% a menos de seguidores da religião codificada por Allan Kardec. O Censo 2022 contabilizou 12,1 mil espíritas amazonenses contra mais de 13 mil em 2010. Em relação à proporção total, os kardecistas são 0,38% da população.
Os seguidores da Umbanda e Candomblé experimentaram um aumento exponencial em doze anos, com 591% de novos adeptos. Em 2010, pouco mais de 1,5 mil pessoas seguiam religiões de matriz africana. Já em 2022, esse número subiu para 10,4 mil, com quase a totalidade se localizando em Manaus. Ainda assim, são apenas 0,33% da população amazonense.
Membros de outras religiosidades cresceram mais de 94%, de acordo com o IBGE. Eram 75,7 mil em 2010 e subiram para 147,1 mil em 2022, o equivalente a 4,57% de toda a população do Amazonas.
POR Helso Ribeiro - Cientista político
O expressivo aumento de evangélicos nos últimos anos reflete também na representação eleitoral, com diversos candidatos eleitos sendo oriundos dos templos protestantes. O cientista político Helso Ribeiro destacou que, se aumenta o percentual de um determinado nicho eleitoral, “é natural que aumente os políticos desse nicho eleitoral. Então, aumentando a população evangélica, é natural que o que antes tinha três representantes”.
Ainda assim, ele pondera que o extenso número de denominações evangélicas acabe por fragmentar os votos de candidatos. Alguns nomes vêm da Igreja Universal, outros da Assembleia de Deus, da Restauração e várias outras vertentes.
“Aí você consegue ver, por exemplo, nas últimas eleições: o Marcel Alexandre não foi reeleito vereador, não conseguiu, e é evangélico. Por que? Porque hoje são muitos candidatos muito fragmentados em várias denominações. Às vezes, uma denominação tem dois ou três candidatos. Se você for ver o João Carlos, ele não teve a quantidade de votos que teve anteriormente, porque vai fragmentando também o eleitorado”, disse.
O Censo revelou um aumento de 44% no número de pessoas que afirma não ter nenhuma religião. Em termos numéricos, são mais de 237 mil amazonenses que não seguem nenhum credo. O único município a registrar uma parcela maior de não religiosos em comparação com religiosos foi Atalaia do Norte, onde 26,2% dos moradores declarou não ter religião. Mais de 5 mil pessoas não declararam aos pesquisadores qual era sua religião, enquanto 2,7 mil não soube responder em que acreditava.