Streaming

O Morro dos Ventos Uivantes em streaming: qual versão cinematográfica vale mais a pena assistir

Qualquer conversa sobre as adaptações de Wuthering Heights começa com o entendimento de que o romance original não é uma história de amor.

acritica.com
17/04/2026 às 10:11.
Atualizado em 17/04/2026 às 10:11

(Foto: Divulgação)

A pergunta sobre qual é o melhor filme o morro dos ventos uivantes tem respostas diferentes dependendo do que o espectador está buscando, já que o romance de Emily Brontë acumulou mais de dez adaptações cinematográficas e televisivas desde 1920. A versão disponível em streaming gratuito é a de 1992, dirigida por Peter Kosminsky e estrelada por Ralph Fiennes e Juliette Binoche, e merece atenção especial por razões que vão além do elenco.

O romance que resistiu à simplificação

Qualquer conversa sobre as adaptações de Wuthering Heights começa com o entendimento de que o romance original não é uma história de amor. É uma tragédia sobre obsessão e vingança intergeracional, onde o protagonista é ao mesmo tempo o personagem mais atraente e o mais cruel da narrativa. Brontë escreveu uma história onde o bem e o mal coexistem no mesmo ser humano de formas que o cinema frequentemente prefere simplificar.

A versão de 1939 com Laurence Olivier e Merle Oberon é tecnicamente brilhante mas romantiza demais, eliminando a segunda geração do romance e suavizando Heathcliff a ponto de transformá-lo num herói trágico convencional. A versão de 2011 de Andrea Arnold vai na direção oposta, com um Heathcliff negro e uma câmera de estilo documental que abraça a rudeza e o desconforto sem concessões. Ambas têm méritos, mas representam escolhas radicais em relação ao texto.

Por que a versão de 1992 é a mais equilibrada

A adaptação de Kosminsky encontra um equilíbrio que as outras versões raramente conseguem: mantém a escuridão do romance sem perder a acessibilidade para o espectador que chega sem conhecer o texto original. Ralph Fiennes em particular constrói uma performance que captura tanto o carisma quanto a violência do personagem, sem jamais deixar que um aspecto cancele o outro.

A construção da relação entre Heathcliff e Catherine nos anos de infância, que outras versões frequentemente abreviam, recebe aqui o espaço necessário para que o espectador entenda o peso do que foi separado. Sem essa base emocional, a obsessão adulta de Heathcliff parece exagerada. Com ela, parece inevitável.

Juliette Binoche traz ao papel de Catherine uma dimensão que a atriz raramente recebe crédito suficiente: a de uma mulher que age com consciência das consequências de suas escolhas e que mesmo assim escolhe o caminho socialmente adequado em vez do emocionalmente verdadeiro. Essa lucidez trágica é o que torna o personagem de Catherine mais interessante do que a vítima das circunstâncias que outras adaptações constroem.

Os moors como personagem

Um elemento que define a versão de 1992 é o uso da paisagem. As terras ermas de Yorkshire, com suas extensões abertas e ventos constantes, não são apenas cenário: funcionam como externalização do estado emocional dos personagens. Heathcliff em plena charneca tem uma presença que é completamente diferente do Heathcliff nos ambientes fechados da sociedade educada, e a fotografia de Mike Southon explorou essa dicotomia com precisão.

Comparar as adaptações como exercício crítico

Para quem tem interesse em análise cinematográfica, comparar as diferentes adaptações de Wuthering Heights é um exercício particularmente produtivo, já que as diferenças entre elas revelam tanto sobre os períodos em que foram produzidas quanto sobre a obra original. A versão de 1939 diz algo sobre o romantismo hollywoodiano da era dos estúdios; a de 2011 diz algo sobre as ansiedades de representação e identidade do cinema contemporâneo; a de 1992 diz algo sobre o equilíbrio entre fidelidade ao texto e acessibilidade ao público.

Cada versão também revela o que é inevitavelmente perdido na transição da literatura para o cinema: a voz narrativa de Nelly Dean, que no romance filtra e comenta os eventos com uma distância temporal e moral que o cinema não consegue replicar diretamente, está ausente ou reduzida em todas as adaptações. Essa perda não invalida nenhuma delas, mas é importante para entender por que nenhuma delas captura completamente o que torna o romance tão singular. O streaming gratuito disponível no catálogo atual é o acesso mais direto ao material para quem quer explorar essa tradição.

Para quem conhece o romance, essa versão oferece o prazer do reconhecimento bem executado. Para quem chega sem essa base, é uma introdução honesta a uma das histórias mais complicadas e mais fascinantes que a literatura já produziu.

Assuntos
Compartilhar
Sobre o Portal A Crítica
No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.
Portal A Crítica - Empresa de Jornais Calderaro LTDA.© Copyright 2026Todos direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por