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Pesquisa inédita mapeia projetos e programas de REDD+ no Brasil

Levantamento sistematiza 118 projetos voluntários e 30 iniciativas jurisdicionais de REDD+ e reúne dados sobre impactos, conflitos ambientais e lacunas de transparência no mercado de carbono brasileiro

acritica.com
25/08/2026 às 19:20.
Atualizado em 25/08/2026 às 19:20

(Foto: Divulgação)

Um levantamento inédito sobre projetos voluntários e programas jurisdicionais de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD+) no  Brasil foi concluído por pesquisadores da Fundação Rosa Luxemburgo e do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA), da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) em parceria com o Coletivo de Pesquisa Desigualdade Ambiental, Economia e Política.

A pesquisa reúne e organiza dados sobre os projetos e políticas, além de informações sobre comunidades atingidas e conflitos ambientais associados a essas iniciativas. No caso dos programas jurisdicionais, o estudo concentrou-se inicialmente nos estados da Amazônia Legal e no Mato Grosso do Sul, considerando o avanço dessas políticas nesses territórios.

O estudo identificou e sistematizou 118 projetos voluntários de REDD+ no Brasil, a maior parte concentrada na região amazônica. Quanto às iniciativas jurisdicionais, foram identificadas 30 leis, decretos, editais, e programas nos nove estados da Amazônia Legal e em Mato Grosso do Sul.

O levantamento reúne dados sobre localização, área, status, atores envolvidos, comunidades atingidas e comercialização de créditos pelos projetos, além de denúncias públicas, relatos comunitários e documentos sobre conflitos socioambientais associados às iniciativas de REDD+ e ao avanço do mercado de carbono no país. A pesquisa também identificou lacunas de transparência que dificultam saber quem financia determinadas iniciativas, quem administra os recursos e de que forma as comunidades participam das decisões.

O objetivo do mapeamento é dar visibilidade não só aos projetos e políticas em andamento, mas às a disputas territoriais, violações de direitos e outras formas de violência registradas em áreas onde esses projetos estão em operação. A partir da análise de diferentes fontes, os pesquisadores buscaram compreender também como as iniciativas de REDD+ se relacionam com processos de financeirização da natureza, controle territorial e mudanças nas formas de uso da floresta.

Nesta primeira etapa, o estudo concentra-se principalmente na Amazônia, região que reúne a maior parte dos projetos de REDD+ em operação no Brasil. A expectativa é ampliar gradualmente o escopo do levantamento para outras regiões do país à medida que novos estudos forem realizados.

Segundo Elisangela Soldatelli Paim, coordenadora do Programa Latino-Americano de Clima e Energia da Fundação Rosa Luxemburgo, a pesquisa surgiu diante da dificuldade de acessar informações detalhadas sobre projetos e políticas de REDD+, frequentemente dispersas entre diferentes fontes e apresentadas em linguagem técnica. “A pesquisa reuniu informações que estavam dispersas em diferentes documentos, relatórios e registros públicos. Ao tornar esses dados mais acessíveis, esperamos fortalecer o debate público sobre os impactos dessas iniciativas nos territórios e contribuir para a defesa dos direitos das populações afetadas”, afirma.

Nos últimos anos, denúncias públicas, reportagens e estudos passaram a relacionar parte dos projetos brasileiros de mercado de carbono a situações de assédio, falta de informação adequada e restrições ao uso tradicional dos territórios. As iniciativas envolvidas comercializam créditos de carbono gerados por uma redução do desmatamento que, em muitos casos, é questionada e estão localizados em territórios de povos indígenas, comunidades tradicionais, camponeses e outras populações rurais.

Para Elisangela, esses registros levantam uma questão central sobre o funcionamento do mercado de compensação de emissões: até que ponto as empresas podem compensar suas emissões por meio de projetos associados a conflitos sobre direitos territoriais ou a restrições ao uso tradicional dos territórios?.

Valores e compradores

Entre novembro de 2025 e março de 2026, os pesquisadores analisaram registros de organizações internacionais e das principais certificadoras que operam os padrões do mercado voluntário de créditos de carbono no Brasil, Verra e Cercarbono, para identificar projetos brasileiros voltados à redução do desmatamento.

Os registros consultados informam volumes de créditos comercializados e seus beneficiários, mas não tornam públicos os valores efetivamente pagos nas transações. Essa ausência de informações impede identificar com precisão quanto dos recursos movimentados pelo mercado chega aos projetos, aos intermediários e às comunidades envolvidas.

Para dimensionar o mercado, o levantamento adotou como referência uma estimativa média de R$ 35 por crédito de carbono. O valor, no entanto, não permite determinar quanto foi efetivamente pago em cada operação nem como os recursos foram distribuídos entre os diferentes agentes envolvidos.

Plataforma de consulta

Os resultados do levantamento passam a ser disponibilizados na plataforma Territórios em Disputa: REDD+ e Conflitos no Brasil , criada para reunir e tornar acessíveis informações sobre projetos de REDD+, agentes envolvidos, territórios impactados e registros de conflitos socioambientais associados a essas iniciativas.

O portal reúne dados sobre a localização dos projetos e sobre empresas, certificadoras, governos, organizações e outros atores envolvidos, além de informações relacionadas aos territórios e às comunidades afetadas. A proposta é funcionar como uma fonte pública de consulta para pesquisadores, jornalistas, organizações da sociedade civil, gestores públicos e comunidades interessadas no tema.

Além do banco de dados, a plataforma apresenta a metodologia utilizada na pesquisa, permitindo compreender os critérios de coleta, análise e sistematização das informações. Também disponibiliza materiais explicativos sobre REDD+, mercado de carbono e os diferentes agentes que atuam nesse setor.

A plataforma foi concebida como um instrumento permanente e colaborativo. Usuários poderão enviar contribuições, relatos e sugestões para auxiliar na atualização e na ampliação das informações disponíveis. As contribuições podem ser encaminhadas pelo e-mail territorios.em.disputa@gmail.com ou pelo formulário disponível no site.

Desdobramento de pesquisa anterior

O levantamento é um desdobramento do relatório Em Nome do Clima: Mapeamento Crítico (2024), organizado pelas pesquisadoras Elisangela Soldatelli Paim e Fabrina Furtado. Também integra este trabalho o terceiro volume da coleção Politizando o Clima: poder, territórios e resistências, sob o título “Mercado de carbono e o negócio da compensação". Essa coleção é composta por quatro livros dedicados a uma leitura crítica dos desafios climáticos contemporâneos e está disponível para download em: Politizando o Clima: poder, territórios e resistências - Fundação Rosa Luxemburgo .

Intitulado Mercado de carbono e o negócio da compensação, o volume examina os mecanismos econômicos e financeiros que sustentam esse mercado e discute as implicações da transformação de florestas e ecossistemas em ativos financeiros. A obra analisa como esse processo pode ampliar oportunidades de acumulação para grandes corporações e, ao mesmo tempo, impor novas restrições à autonomia de povos da floresta sobre seus territórios.

Elisangela Soldateli Paim  - é jornalista, doutora em Ciências Sociais pela Universidade de Buenos Aires e coordenadora do Programa Latino-Americano de Clima e Energia da Fundação Rosa Luxemburgo. Sua atuação articula produção de conhecimento, cooperação internacional e diálogo com movimentos sociais em toda a América Latina, com foco em justiça climática, transição energética e defesa de territórios.

Atualmente, é pós-doutoranda pelo CPDA da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), onde desenvolve pesquisas sobre o entrelaçamento entre militarização, crise climática e o aprofundamento das desigualdades, bem como sobre os impactos territoriais das políticas ambientais e energéticas. É coordenadora do relatório Em Nome do Clima: Mapeamento Crítico – transição energética e financeirização da natureza (2024), iniciativa que analisa o avanço de mecanismos de mercado, como o crédito de carbono, e seus efeitos sobre territórios indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.

Fabrina Pontes Furtado - Professora do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Pesquisadora do Coletivo de Pesquisa Desigualdade Ambiental, Economia e Política e da Coletiva Roça. Atuou na Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais e na Rede Jubileu Sul e foi assessora da Relatoria do Direito Humano ao Meio Ambiente da Plataforma DHESCA.

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