Dia dos Professores

Professores transformam obras em salas de aula e ajudam trabalhadores a estudar

Histórias de educadores do Escola Nota 10, da MRV, mostram como a educação de jovens e adultos, com metodologia adaptada à dinâmica dos canteiros e às necessidades individuais de aprendizagem, pode abrir novos caminhos profissionais e pessoais

acritica.com
15/10/2026 às 09:57.
Atualizado em 15/10/2026 às 09:57

(Foto: Divulgação)

O Brasil tinha 8,4 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que não sabiam ler e escrever em 2025, segundo a PNAD Contínua Educação, divulgada pelo IBGE em junho deste ano. Embora seja a primeira vez, desde o início da série histórica em 2016, que o índice fica abaixo de 5%, o número ainda evidencia a dimensão do desafio da alfabetização de jovens e adultos no País.

É nesse contexto que professores que atuam fora do ambiente escolar tradicional também desempenham um papel importante. No Escola Nota 10, iniciativa da MRV voltada à alfabetização e escolarização de trabalhadores da construção civil, eles transformam os próprios canteiros de obras em espaços de aprendizagem e acompanham alunos que, muitas vezes, passaram décadas afastados dos estudos.

As histórias de Silvana Bárbara, de Curitiba (PR), e Yuri Sena, de Manaus (AM) representam diferentes caminhos que levam à docência e ajudam a mostrar os desafios e as descobertas de quem escolheu ensinar adultos.

De uma formação técnica à sala de aula

Silvana Bárbara, 36 anos, não tinha como plano inicial seguir a carreira acadêmica. Formada em Design de Produto e com mestrado em Engenharia de Produção, ela teve o primeiro contato mais próximo com a docência durante o estágio de ensino do mestrado. A experiência despertou seu interesse pela educação e, depois, ela passou a dar aulas em cursos técnicos.

Anos mais tarde, surgiu a oportunidade de trabalhar com alfabetização e escolarização de jovens e adultos por meio da Alicerce Educação, parceira do Escola Nota 10. Silvana iniciou sua atuação no projeto em 2024 e, desde então, passou a conviver com trabalhadores que, em alguns casos, haviam deixado a escola ainda na adolescência.

“O grande desafio é encontrar pessoas que há décadas não estudavam, algumas com mais de 50 anos e que pararam de estudar na adolescência. A metodologia é diferente, é personalizada, e eu acabei gostando bastante desse projeto e do impacto que ele traz”, conta a professora.

Ao longo dessa trajetória, ela acompanhou histórias que mostram os efeitos da retomada dos estudos. Um de seus alunos, hoje próximo dos 60 anos, voltou a estudar em 2024 depois de interromper a educação aos 13. No ano passado, conseguiu a certificação do ensino fundamental pelo ENCCEJA e, posteriormente, realizou a prova para o ensino médio.

A experiência também mudou a própria relação da professora com a profissão. “É muito satisfatório ter a sua profissão e, junto com ela, promover esse impacto social. É difícil encontrar isso e eu consegui unir os dois”, afirma.

Da experiência religiosa à sala de aula

Em Manaus, a trajetória de Yuri Sena, 31 anos, também começou de maneira diferente do caminho tradicional. Formado em 2021, ele teve no Escola Nota 10 seu primeiro emprego como professor. Desde 2022, atua em projetos da Alicerce Educação, incluindo as aulas realizadas nos canteiros da MRV, voltadas aos trabalhadores da construção civil.

A aproximação com a educação, no entanto, começou antes da faculdade. Yuri passou quatro anos em uma experiência de formação religiosa para o sacerdócio e, nesse período, teve contato com uma escola mantida pela congregação. Foi nesse ambiente que ele começou a se envolver com a educação e, posteriormente, decidiu seguir a carreira docente.

Em seus anos no Escola Nota 10, uma das histórias que mais o marcou foi a de uma trabalhadora que tinha dificuldades de leitura quando entrou no projeto. Depois de aproximadamente um ano de participação, ela, segundo Yuri, atribuiu ao aprendizado adquirido no projeto parte do impulso para sua trajetória profissional e chegou à função de encarregada de obra, um perfil essencial na operação.

A experiência reforçou no professor a percepção sobre o alcance da educação. “Para mim, a educação muda vidas. E quando a gente toca vidas, ela muda a nossa vida também”, resume Yuri.

Iniciativa amplia o acesso à educação nos canteiros de obras

As histórias de dois professores integram uma iniciativa que tem ampliado o acesso à educação nos canteiros da MRV. O programa Escola Nota 10, fundado em 2011, oferece educação básica nos locais de obra, abrangendo desde a alfabetização até a preparação para o Encceja, com o intuito de aprimorar as competências de leitura, escrita e raciocínio lógico. Atualmente, o programa conta com 39 turmas em operação, além de modalidades online.

As aulas são realizadas nos próprios canteiros, três vezes por semana, com duração de uma hora e meia, integradas à jornada de trabalho. Essa abordagem busca minimizar obstáculos como o deslocamento e a incompatibilidade de horários, que frequentemente impedem a retomada dos estudos na vida adulta.

O processo de ensino inicia-se com um diagnóstico individualizado das lacunas de aprendizagem. A metodologia, concebida especialmente para adultos e ajustada à dinâmica dos canteiros, foi aprimorada em 2022 mediante parceria com a Alicerce Educação.

Esta proposta reflete uma realidade persistente no país. O analfabetismo possui uma forte correlação com a idade: em 2024, a taxa era de 5,3% para pessoas com 15 anos ou mais e chegava a 14,9% para indivíduos com 60 anos ou mais, conforme dados do IBGE, extraídos da PNAD Contínua – Educação.

"Percebemos que, para alguns colaboradores, a oportunidade de continuar os estudos também representa uma perspectiva de crescimento dentro da companhia. Poder concluir a formação e ampliar os conhecimentos contribui para que essas pessoas enxerguem novas possibilidades para a própria carreira e para o futuro", afirma José Luiz da Fonseca, gestor executivo de Relações Institucionais e Sustentabilidade da MRV.

Professores no centro da transformação

O trabalho desenvolvido por Silvana e Yuri se conecta a um desafio mais amplo da educação brasileira: formar e valorizar profissionais capazes de atuar em diferentes contextos e modalidades de ensino. Dados do Censo Escolar 2025 apontam que o Brasil tinha 2,4 milhões de docentes na educação básica, considerando as diferentes etapas de ensino. Desse total, cerca de 200 mil atuavam na Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Ao falar sobre os desafios da profissão, Silvana destaca justamente a necessidade de maior reconhecimento dos professores e de estímulos para que novos profissionais ingressem e permaneçam na carreira. Para ela, além de atrair jovens para as licenciaturas, é necessário valorizar também quem já está na docência.

Para Paulo Emílio de Castro Andrade, presidente do Instituto iungo, instituição sem fins lucrativos que tem objetivo de promover o desenvolvimento profissional de educadores de todo o Brasil, investir no desenvolvimento dos professores é também uma forma de fortalecer a qualidade da educação. 

“Valorizar os educadores significa reconhecer a complexidade e a importância do trabalho que realizam e, ao mesmo tempo, criar condições para que possam se desenvolver continuamente ao longo da carreira. A formação é parte essencial desse processo, porque amplia repertórios, fortalece práticas pedagógicas e contribui para que os professores respondam aos desafios de uma educação cada vez mais diversa e complexa. Investir no desenvolvimento dos educadores é, portanto, investir na qualidade da educação e garantir que esses profissionais possam exercer plenamente seu papel na formação integral dos estudantes”, finaliza.

  

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