Especialista alerta para os efeitos da comparação constante entre corpos, cargas e resultados compartilhados na internet
(Foto: Freepik)
Há alguns dias me peguei pensando em um padrão que tenho percebido nas redes sociais. As pessoas estão viciadas em performar. Especificamente no que se refere a performance esportiva. Parece que não dá pra postar um vídeo na academia sem dizer a carga pesada que estava usando. Ou postar uma foto correndo sem mencionar o ‘pace maneiro’ que teve no strava. E essa hiperinflação dos corpos?
Outro dia eu estava no instagram e me deparei com um vídeo de um influenciador fitness problematizando exatamente isso. Era uma foto de um cara atlético, shape bom, pele fina, bastante seco, notava-se que ele treinava diariamente e seguia uma dieta, porém, o físico não era tão grande e volumoso quanto o de um fisiculturista. E a maioria das pessoas, nos comentários, falavam coisas do tipo “tá faltando whey”, “come mais um pouco”, “capa do Batman”, etc. E eu me perguntei: em que momento um físico atlético natural e padrão deixou de ser impressionante?
A hiperinflação dos corpos e da performance esportiva precisa ser ‘desnormalizada’. Sabe aquela premissa cômica de que ‘se não postar o tá pago, o shape não vem’? Pelo visto as pessoas levaram a sério essa frase jocosa e hoje em dia o que mais vemos nas academia são pessoas se gravando enquanto treinam, fazendo fotos no espelho para mostrar o ‘pump’, correndo 5km em 25min e postando o print do strava. Essa comparação com o outro pode ser a porta de entrada para baixa auto estima, medo de continuar treinando e até transtornos mentais.
A Quarta Fit conversou com o psicólogo clínico João França, que esclareceu a origem desse tipo de comportamento bastante fomentado nas redes sociais.
João França, psicólogo clínico
1. Por que hoje parece que não basta treinar, mas é preciso mostrar performance nas redes sociais?
Porque vivemos em uma sociedade de performance, em que muitas vezes não basta treinar: é preciso mostrar que estamos performando bem. Quando a pessoa não tem um crivo próprio, passa a buscar no olhar dos outros a validação que não encontra dentro de si. E a rede social potencializa isso, porque dita padrões, tendências e expectativas de aceitação. No fim das contas, o problema não é a busca pela evolução. É quando deixamos de nos perguntar “isso é bom para mim?” e passamos a nos questionar “isso será bom o suficiente para os outros?”. Quando nosso valor próprio depende da aprovação alheia, nunca alcançamos uma medida que seja verdadeiramente nossa.
2. Como a comparação com shapes, cargas e paces de outras pessoas pode afetar nossa autoestima e percepção do próprio corpo?
A comparação é inerente à vida. O problema surge quando medimos nosso valor pela conquista do outro. Ao avaliar meu próprio progresso com base no shape, na carga ou no pace de alguém, ignoro minha trajetória única. Cada indivíduo possui um corpo, uma história, um tempo e uma realidade distintos. Sem uma medida interior, fico preso ao ciclo da comparação, sempre encontrando alguém mais forte, mais rápido ou com um corpo que se alinha mais ao padrão da época. A questão não é superar o outro, mas preservar minha identidade ao buscar alcançá-lo.
3. Em que momento a busca por evolução física deixa de ser saudável e passa a ser uma cobrança ou obsessão?
A evolução deixa de ser saudável quando melhorar já não é uma escolha, mas uma fonte de sofrimento psíquico; quando, em vez de trazer leveza e prazer, começa a alterar a própria percepção que a pessoa tem de si. Ela evolui, alcança resultados, mas já não consegue enxergá-los como antes. O olhar se torna cada vez mais exigente, e aquilo que deveria ser uma conquista passa a parecer insuficiente. Porque, quando a busca pelo próximo nível começa a distorcer a forma como enxergamos a nós mesmos, a cobrança deixa de ser instrumento de evolução e passa a ser o próprio problema.
4. Essa cultura de hiperperformance pode contribuir para transtornos de imagem corporal, como a dismorfia? Quais sinais merecem atenção?
A cultura da hiperperformance pode contribuir para o agravamento de transtornos relacionados à imagem corporal, principalmente quando encontra na pessoa uma necessidade de validação que já estava latente. Ela começa a buscar mais, mais e mais, mas nunca consegue chegar a um ponto em que se reconheça ou se sinta satisfeita com aquilo que conquistou. É como se a própria percepção fosse diminuindo diante de uma exigência que só aumenta. Muitas vezes, quando você conversa mais profundamente com essa pessoa, percebe que essa sensação de nunca ser suficiente não começou no esporte.
O esporte acaba encontrando um espaço que já existia dentro dela e passa a ser uma tentativa de preencher essa falta por meio do corpo, da performance e da aprovação externa. Alguns sinais merecem atenção: quando a preocupação com o corpo ou com o desempenho começa a ocupar tempo excessivo do dia; quando a pessoa não consegue descansar sem culpa; quando deixa de participar de momentos sociais por causa da alimentação, do treino ou da própria aparência; quando precisa se olhar ou se pesar repetidamente, comparar-se constantemente ou buscar confirmação dos outros; quando uma falha no treino ou um resultado abaixo do esperado interfere profundamente no humor, no trabalho e nas relações.
Também é importante observar quando a pessoa já alcançou grandes feitos, mas é incapaz de reconhecê-los. Ela diminui as próprias conquistas porque sempre existe um próximo nível a alcançar. E talvez esse seja um dos sinais mais importantes: não é apenas o corpo que ela passa a enxergar de outra maneira, mas a própria história. Ela já conquistou muito, mas internamente continua se vendo como alguém que precisa provar o próprio valor. No fundo, quando a pessoa nunca consegue reconhecer o que já construiu, talvez a questão já não esteja apenas no corpo que ela quer transformar, mas na maneira como aprendeu a enxergar a si mesma.
5. Estamos treinando para ter saúde ou para ter algo para postar? O que essa necessidade de validação revela sobre nossa relação com o exercício?
Uma pessoa pode estar treinando para cuidar da saúde, para melhorar o condicionamento, para ter mais qualidade de vida, e isso é excelente. Mas, ao mesmo tempo, ela pode transformar esse processo em um mecanismo de validação. O exercício deixa de ser apenas sobre aquilo que ela está construindo dentro de si e passa a depender da recompensa que vem de fora: a foto, a curtida, o elogio, o comentário, a sensação de pertencimento a determinado grupo.
Essa necessidade de validação revela, muitas vezes, uma falta. Uma falta de validação interna, de segurança, de pertencimento. A pessoa começa a se perguntar: “Qual é o meu pace?”. Mas talvez a pergunta mais importante seja: “Qual é o pace que eu preciso alcançar para mim?”. Porque existe uma diferença enorme entre superar o seu próprio limite e precisar superar um limite para que o outro reconheça o seu valor.
Hoje, muitas vezes, o exercício também virou uma espécie de moeda social. Não basta correr; é preciso mostrar o pace. Não basta treinar; é preciso mostrar o shape. Não basta se cuidar; é preciso provar para alguém que você está se cuidando. E aí o exercício, que deveria ser uma ferramenta de construção pessoal, acaba se tornando uma ferramenta de validação social. E talvez seja justamente aí que a gente precise olhar para dentro. Porque a superação que realmente importa não é aquela que faz o outro olhar para você e dizer “esse cara está bem”. É aquela que faz você olhar para si mesmo e perceber: “Eu estou melhor do que estava antes”. No fim, cada pessoa precisa responder: eu estou treinando porque isso faz sentido para mim ou porque preciso que alguém veja que estou treinando?