Excesso de responsabilidades pode contribuir para ansiedade, depressão e esgotamento; especialistas alertam para sinais de sofrimento
A contadora Rociane Rebello concilia maternidade, trabalho e cuidados com a filha e relata que continua em acompanhamento psicológico diante da sobrecarga da rotina (Foto: Junio Matos/ A CRÍTICA)
Por trás da mulher que trabalha, cuida dos filhos, administra a casa, paga as contas e tenta manter tudo funcionando, pode existir uma dor que ninguém vê. A sobrecarga feminina e materna, muitas vezes naturalizada como parte da rotina, pode esconder quadros de ansiedade, depressão e esgotamento emocional, TOC, dentre outras patologias. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que cerca de uma em cada cinco mulheres apresenta algum problema de saúde mental durante a gestação ou no primeiro ano após o parto. A entidade alerta ainda que essas condições podem permanecer sem reconhecimento e, em casos graves, estar associadas a pensamentos de autolesão ou até mesmo suicídio.
No Brasil, a dimensão do problema também aparece nos dados sobre a divisão do trabalho. Segundo o IBGE, as mulheres dedicaram, em média, 21,3 horas semanais aos cuidados de pessoas e aos afazeres domésticos em 2022, enquanto os homens dedicaram 11,7 horas. Entre as mulheres ocupadas, a tentativa de conciliar trabalho remunerado, casa e família cria uma jornada que ultrapassa o expediente formal. É nesse espaço entre o “dar conta de tudo” e o não conseguir mais continuar que muitos sinais de sofrimento podem ser confundidos com simples cansaço.
A contadora Rociane Rebello conhece de perto esse limite. Mãe de uma menina, ela conta que precisou conciliar trabalho, maternidade, dificuldades financeiras e cuidados com a filha, que passou por diferentes tratamentos médicos por ter nascido prematura. “Eu tinha que me desdobrar em 30. Eu tinha que dar um jeito para pagar médico particular, pagar babá. Todo o dinheiro era basicamente para comprar leite especial para a dieta dela, comprar medicação, para tudo”, relata. A rotina, segundo ela, exigia que a vida profissional continuasse mesmo quando o corpo e a mente pediam pausa.
A situação se agravou depois do fim do relacionamento. Rociane conta que havia conseguido uma promoção profissional, aumentado o salário significativamente e quitado aproximadamente R$ 80 mil em dívidas. Quando acreditava estar finalmente reorganizando a vida, enfrentou a separação e passou a vivenciar crises de ansiedade.
Foi nesse momento que Rociane buscou terapia. O tratamento, aliado à retomada da atividade física e a mudanças na rotina, ajudou a controlar as crises. Mas o fim da ansiedade não significou o fim da sobrecarga. Atualmente, ela relata que continua em acompanhamento psicológico.
Foto: Junio Matos/A CRÍTICA
De acordo com o Ministério da Saúde, os problemas financeiros, falta de apoio familiar, isolamento, privação de sono e estresse estão entre fatores que podem contribuir para o surgimento ou agravamento de problemas de saúde mental relacionados à maternidade. Entre os sinais de alerta estão tristeza persistente, ansiedade, alterações no sono e no apetite, cansaço extremo, culpa, dificuldade de concentração e perda de interesse pelas atividades. No caso do burnout, o Ministério da Saúde aponta exaustão física e mental, dificuldades de concentração, alterações de humor, insônia, isolamento e sensação de fracasso entre os possíveis sintomas.
Para a psicóloga Yngrid Mabel, um dos principais perigos é justamente transformar o sofrimento em obrigação cotidiana. “A sobrecarga pode afetar profundamente a saúde mental de uma mãe, porque, muitas vezes, ela precisa assumir tudo sozinha: cuidar dos filhos, trabalhar, organizar a casa, administrar as finanças e ainda tentar permanecer emocionalmente forte. É como se ela não tivesse o direito de parar, adoecer ou demonstrar fragilidade”, explica. Segundo ela, choro frequente, irritabilidade, culpa, dificuldade de concentração, isolamento e a sensação de nunca fazer o suficiente são sinais que não devem ser ignorados.
Yngrid ressalta que o momento de procurar ajuda não precisa chegar acompanhado de uma crise. “O sinal de alerta aparece quando aquilo deixa de ser pontual e começa a interferir na vida da mulher. Quando o cansaço não melhora nem depois de descansar, a ansiedade se torna constante, a tristeza permanece por vários dias e ela já não consegue realizar atividades simples da rotina como antes, é importante procurar ajuda”, orienta. A psicóloga também chama atenção para situações ainda mais graves, como pensamentos de desaparecer, morrer ou acreditar que os filhos estariam melhor sem a mãe.
Para a psicóloga Yngrid Mabel, sinais como irritabilidade devem ser observados
Rede de apoio
A rede de apoio, nesse cenário, deixa de ser um detalhe e passa a ser parte do cuidado. Para Yngrid, ajudar uma mulher sobrecarregada não significa apenas oferecer conselhos, mas dividir responsabilidades concretas. “Rede de apoio é quem oferece ajuda prática, acolhimento e presença: cuidar da criança por algumas horas, acompanhar em uma consulta, ajudar em uma tarefa ou simplesmente escutar sem julgar”, afirma. Quando essa rede não existe, a profissional recomenda buscar grupos, serviços comunitários, projetos sociais e outras mulheres que vivenciem situações semelhantes.
O cuidado também pode começar pela rede pública. Segundo o Ministério da Saúde, o SUS oferece tratamento para problemas de saúde mental, com possibilidade de atendimento e encaminhamento pela rede de saúde, incluindo os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) nos casos que necessitam de acompanhamento especializado. Para Yngrid, a falta de dinheiro ou de tempo não deve significar desistir de procurar ajuda.
A história de Rociane mostra que, muitas vezes, a mulher não desaba quando tudo parece dar errado, mas justamente quando acredita que finalmente deveria conseguir respirar. Ela venceu dívidas, vê a filha ótima e crescendo com saúde, conquistou espaço profissional, cuidou da filha, retomou a atividade física e buscou tratamento, mas descobriu que sobreviver a uma sequência de responsabilidades não significa estar bem. “Eu sei que é a pressão do trabalho, porque também não posso ficar sem trabalho. Eu preciso dele para poder dar uma vida de qualidade para minha filha, uma vida boa para minha filha”, desabafa. Entre a necessidade de ser provedora, profissional e mãe, existe uma mulher que também precisa ser cuidada. E reconhecer isso não é fraqueza: é, talvez, a primeira forma de impedir que o silêncio da sobrecarga se transforme em adoecimento.