Um levantamento do Instituto Reuters, divulgado neste mês, mostra que 47% dos brasileiros evitam se informar. Além disso, entre os que buscam notícias, há uma clara preferência pelo ambiente digital.
(Foto: Junio Matos)
Para o professor emérito da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e doutor em Ciências da Comunicação (USP) Walmir Albuquerque, os modelos de negócio dos jornais, que considera obsoletos, e o cansaço da sociedade com a informação, nem sempre de qualidade, ajudam a explicar a perda de interesse dos brasileiros por se informar.
Um levantamento do Instituto Reuters, divulgado neste mês, mostra que 47% dos brasileiros evitam se informar. Além disso, entre os que buscam notícias, há uma clara preferência pelo ambiente digital.
Albuquerque discute a resistência dos veículos tradicionais nesse meio, como os impressos, mas deixa um alerta: as pessoas também vão se cansar das redes sociais. Confira a entrevista.
Segundo levantamento do Instituto Reuters publicado neste mês, 47% dos brasileiros evitam se informar. Esse dado é um sintoma do quê?
Eu ainda estou me surpreendendo com a quantidade de gente que está conseguindo se informar por essa mídia tradicional, porque, vi a pesquisa, e há 62% de confiança nos meios tradicionais, o que significa que a imprensa dita tradicional ainda não morreu.
Eu não vejo isso como uma redução tão drástica num país que não tem uma tradição de leitores de jornal. O Brasil sempre teve um número muito reduzido de leitores cativos da imprensa, embora você tivesse um período no final dos anos 50, até a ditadura, em que os jornais populares conseguiam uma abrangência muito grande junto a esse público. Mas a grande limitação para o jornalismo impresso era o índice de analfabetismo muito alto do país. As tiragens dos jornais eram poucas, eram números mais modestos, e você já tinha um público de leitores pequeno em função disso.
Além do mais, você tem uma tradição no Brasil que é a do próprio rádio. O rádio exerceu um papel muito mais importante que o jornalismo impresso na informação do brasileiro. Tanto é que, nos períodos difíceis, nos grandes episódios nacionais, era muito comum que os jornais colocassem "boca de ferro" na frente dos seus prédios para dar a notícia quando chegava na redação para um público que se acumulava em frente aos jornais.
O senhor falou da confiança na imprensa e da resistência dos veículos tradicionais, mas um dado que chama a atenção da Reuters é justamente o de brasileiros que, podendo se informar, escolhem evitar fazer isso. Por que isso ocorre?
Eu não vejo isso como uma decadência do jornalismo tradicional. Vejo como uma decadência do modelo de negócio. Esse é o grande problema. Não se trata mais de uma questão de confiabilidade na imprensa simplesmente por ser imprensa, mas a dificuldade de você poder manter o modelo de negócio com as próprias tratativas que tinha.
Você hoje não vai poder manter o jornal da mesma forma que mantinha há 30 anos atrás, porque ficou tudo muito caro para fazer jornalismo. Apesar de estar muito mais fácil, no mundo globalizado, com uma mídia eletrônica, você ter a informação na hora, a imprensa não vai fazer o investimento. A imprensa tradicional não está em condições de mudar o seu modelo de negócio e adequá-lo aos novos tempos.
O que esse leitor de jornal está esperando? Um jornalismo mais interpretativo, mais investigativo. Isso custa muito caro. Então, de repente, fica mais fácil o jornal diário fazer aquela cobertura imediata, porque há uma questão de velocidade, a informação chega primeiro, está circulando.
A outra coisa é a competitividade. Esses veículos de comunicação estão competindo com um outro sistema que é pesado e diferente. Tanto é que você tem, hoje, uma tentativa de aproximação dos próprios jornais com a internet. Se pegar a Folha, por exemplo, tudo que vai para o impresso vem para o portal, e o que está no portal vai para a edição impressa.
E o terceiro ponto que eu chamaria a atenção, que dificulta a imprensa tradicional manter esse próprio vínculo, é que ela passou a não ser mais o carro-chefe da organização de comunicação. Ela é um apêndice do conglomerado financeiro de investimento. Isso vale não só para o jornalismo, mas também para a televisão, o rádio, etc.
Você pega os grandes jornais, a Folha, que foi o carro-chefe no começo da empresa, como também o Estado de São Paulo no início. Hoje, eles são apêndices de um conglomerado econômico, e isso, para mim, interfere na credibilidade. Veja bem: quando eu estou lendo a Folha, eu estou lendo a maquininha de cartão da Folha. Quando eu digo isso, é uma associação com o mercado. A Folha hoje não está pensando no leitor, ou melhor, é claro que pensa, porque precisa dele para se manter, mas ela está querendo vender uma mercadoria, uma notícia que está cunhada sob o sinal de uma mercadoria, no mercado financeiro no qual ela está inserida.
Essa opção do leitor de não se informar não guarda relação também com esse excesso de informação provocado pela internet e a redes sociais? Uma sociedade cansada da informação?
É uma opção dele que tem que ser respeitada, mas, às vezes, ele pode ser levado a isso por outros motivos. Quando influenciado, por exemplo, por certas tendências, por certos aparelhos, como o religioso. É claro que, para mim, não existe essa história de país dividido, para mim, isso é balela, isso não existe. Mas se cria; então, quando você cria, você cria esse choque.
Não é possível você ter 220 milhões de pessoas divididas, 110 de um lado, 110 do outro. Isso não existe, é impossível, inclusive pela própria diferença de origem e tudo, enfim. Mas há certos componentes do discurso institucional que contribuem para que os indivíduos tomem determinadas posições.
Quando as matérias da própria imprensa reproduzem isso, elas estão reforçando isso. E hoje a internet faz isso através do algoritmo. Ela sabe se você é de esquerda, se você é de direita, se você é conservador, se você é progressista, se você gosta de pornografia, se você não gosta de pornografia, se você gosta de oração, se você gosta de determinada moda. O algoritmo te remete para isso, ele te alimenta, e ele está casado com o pensamento das instituições nas quais você está inserido.
Esse é o papel do discurso ideológico, que está em todo lugar, seja de direita, seja de esquerda, seja mais neutro, de centro, ou o que se diz de centro. Você vê isso nos veículos e na própria internet, que é muito mais ágil em fazer isso, porque ela faz isso através do algoritmo.
O senhor citou a integração dos veículos tradicionais com os portais on-line, mas hoje muitas pessoas não se informam mais nem pelos sites, e sim pelas redes sociais, por textos curtos. Não há um risco nisso?
Bem, há uma diferenciação, uma gradação muito forte, porque você tem a imprensa tradicional, ela já tem uma estrutura de apuração e ela leva mais tempo para poder fabricar, digamos assim, a notícia, porque ela passa por certos cuidados. Há os portais de notícias que estão aí na internet, primam pela velocidade, mas, ao mesmo tempo, estão oferecendo uma quantidade muito grande de informação. E, para além desses portais, a gente tem páginas, perfis na internet que não são jornalísticos, mas que publicam notícias, porque ela está livre para todo mundo. A difusão da informação deixa de pertencer aos veículos tradicionalmente constituídos, e ela se torna livre com a internet, e cada um se torna produtor de notícias. Há uma multiplicidade de produtores de notícias, com qualidade ou não.
E há aqueles que mesclam, por terem um público, não são os influencers, não são ainda tudo isso, mas que gostam de difundir informação e têm uma certa credibilidade, um certo público cativo, que fazem isso por vários meios, pelo seu blog, por uma lista de amigos para a qual você manda e faz comentários, e repassa a informação, e colhe a informação, e depois socializa isso.
E há uma outra, que é essa grande maioria que está fora desse nicho formal da imprensa tradicional ou dessa cativa mais selecionada, mais ligada à informação, que é da rede social pura, como eu digo. E essa vale tudo. E começa pelos influencers. E aí é que eu vejo um certo perigo, porque quem está na imprensa formal, quem está na imprensa dos portais, dos blogs, etc., tem um compromisso com a informação. O outro, não. Ele usa a informação e a projeta na sua imagem pessoal de influenciador de pessoas, com a monetização de engajamento que as redes pagam.
O senhor falou muito de modelo de negócios. A internet é o caminho? Se não, quais opções considera possíveis? O New York Times tem apostado nas assinaturas, com 13,1 milhões de assinantes, embora isso não seja o suficiente, mas contribua.
Primeiro nós vamos ter que considerar o conjunto de todas as mudanças do mundo. E aí é que a gente vai ter que se perguntar: o jornal tradicional ainda cabe nesse mundo? Essa é a pergunta que todos nós fazemos. Cabe outra coisa? Acho que cabe.
Ele deixa de ser, acho eu, o veículo mais importante para a informação, porque ele vai ter que se ajustar ao mundo de hoje, ao mundo do momento, e vai ter que mudar sua configuração, como mudou o New York Times: respeitado, tradicional, hoje foi comprado por uma grande empresa que tem outros negócios.
Então, a imprensa, essa mais tradicional, precisa perder, talvez, essa ideia de tradicionalismo para se engajar nesse novo mundo. Ela tem dificuldade, porque, quando tenta entrar, tropeça no tal modelo de negócio. Então, ela deixa de ser o carro-chefe do grupo e passa a ser um apêndice, como é a Folha do mercado que a Folha serve.
Quem a Folha deveria cobrir? Manter a imagem dela, intelectualizada, de estar inspirando os modelos nacionais? Ou ela teria que estar ouvindo o cara que usa a maquininha dela? Ela dá ouvidos a ele? O modelo de negócio dela é a maquininha de pagamento, mas ela não está cobrindo o dia a dia desse cara que a sustenta.
A maquininha já está no modelo de negócio, mas o cara que usa a maquininha não está no modelo de negócio. Esse é um exemplo, como o New York Times, que tem que servir aos grandes negócios do mundo, do business americano. Ele seleciona, recorta, mas ele vai ter sempre a sua importância. Trabalhar esse cotidiano, mesmo que não se aprofunde, porque não tem mais recursos para isso, mas que ainda faz o registro histórico, o registro que alimenta uma série de outras coisas, para os que leem, para os que fazem, para os que vão fazer.
Nós vamos pegar a informação por muitos outros meios. Provavelmente, essa internet que a gente conhece hoje vai se fragmentar em outras. A rede social está com seus dias contados, de certa forma, porque, assim como a gente pode dizer que as pessoas cansaram do jornal, elas vão cansar também da rede social, da forma como ela se coloca.
Já tem esse excesso, justamente. Já tem o detox, já tem as doenças, já tem outras coisas, tem os níveis de conscientização. Então, não se pense também que essas formas vão se perpetuar... não, elas vieram para ficar, mas elas têm uma capacidade camaleônica de se ajustar muito mais do que a paquidérmica empresa tradicional de notícia. Porque ela tem uma estrutura, se mexe devagar, não pode destruir todos os seus mecanismos rapidamente para se adaptar a uma circunstância.