Violência contra a mulher

Região Amazônica é um lugar letal para mulheres

Dados do Fórum de Segurança Pública mostra que, em 2024, 586 mulheres foram assassinadas na Amazônia; número é 21,8% superior à média nacional

Emile de Souza
22/11/2025 às 07:32.
Atualizado em 22/11/2025 às 07:32

Em 2024, o país registrou 3.700 homicídios de mulheres, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança (Foto: Reprodução)

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública sobre violência na Amazônia revelam que a região é um lugar letal para as mulheres. Em 2024, 586 mulheres foram assassinadas na Amazônia Legal, 21,8% superior à taxa média nacional. 

Em 2024, o país registrou 3.700 homicídios de mulheres, sendo 586 dentro da Amazônia legal. Desse total, o Amazonas teve 77 homicídios femininos. Além disso, no mesmo ano, o país registrou 1.492 feminicídios, ligados à violência doméstica ou discriminação à mulher. 229 foram Amazônia e 29 no Amazonas, o segundo maior número da região norte, atrás somente do Pará, com 50 mulheres mortas. 

O Amazonas registrou em 2023 um total de 103 homicídios femininos e registrou queda em 2024 com 77. No entanto, o feminicídio seguiu o caminho contrário, saindo de 23 casos para 29. Uma variação percentual de 24%. 

'Patriarcado'

A ativista Luzanira Varela afirmou que esses números revelam a presença do machismo e misoginia na Amazônia. 

“O patriarcado e o machismo na Amazônia é muito maior do que nos outros lugares. Os homens se acham no direito de tirar a vida das mulheres, até porque o feminicídio acontece porque ela é mulher. Os homens veem as mulheres como posse”, disse

Varela relembrou que o Amazonas demorou a deixar de “justificar” judicialmente os crimes contra às mulheres. A ativista ressaltou que durante os longos anos de sua trajetória de militância lutou para que esse privilégio masculino acabasse e a justiça fosse feita. 

Ativista Luzarina Varela participa do Fórum Permanente das Mulheres de Manaus

 “Eles sempre estão se utilizando de discursos para matar as mulheres. Primeiro eles falavam que era a questão da defesa da honra. Inclusive, se eu não estou enganada, o último caso aqui no Amazonas de defesa da honra foi o caso da professora Iara, que o esposo dela era do exército, ela estava em processo de separação, ele invadiu o Flat na Djalma Batista e a matou. Foi julgado e inocentado como crime de honra. Isso faz uns 30 anos e você vê que continua acontecendo”, disse. 

Luzanira Varela ressaltou que o estado ainda precisa avançar na garantia concreta das políticas públicas, como ampliar as delegacias 24h e cumprimentos das ordens judiciais. 

“Hoje a política e a rede de combate à violência não funcionam sem processo. Até o mês de outubro, às Delegacias da Mulher só funcionavam de segunda a sexta; apenas a unidade do Parque Dez atende 24 horas. A medida protetiva, que deveria ser obtida imediatamente, leva até 15 dias para que o agressor seja comunicado. Mesmo que a mulher saia com a medida já concedida pelo juiz, ela não é plenamente válida enquanto o agressor não for notificado”, disse.

A ativista informou que os movimentos sociais iniciaram os “21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres”, realizada no Brasil a partir desta quinta-feira (20), Dia da Consciência Negra, até 10/12, Dia Internacional dos Direitos Humanos. No dia 12 haverá uma vigília em frente ao Fórum Ministro Henoch Reis, na avenida. Umberto Calderaro. 

Para doutora em Sociedade e Cultura da Amazônia, Ivânia Vieira, a construção da sociedade Amazônica foi baseada em cima de violência, desde os povos originários às demais classes sociais.

Professora da Ufam Ivânia Vieira afirma que crescimento do feminicídio expõe falhas estruturais do enfrentamento à violência de gênero

“É fundamental compreender e considerar a ideia hegemônica de que as pessoas da Amazônia foram e continuam sendo submetidas à condição de subcidadania, a projetos e programas marcados pela imposição e, no topo, comprometidos com interesses de grupos e conglomerados, marcados pela destruição do ambiente onde vivem essas pessoas, as mulheres, as crianças, os idosos; a omissão de governos estaduais e municipais, de setores importantes da economia, da política, do judiciário, das igrejas. O cenário mantido é perfeito para a barbárie seguir adiante”, destacou.       

 Falhas estruturais

A estudiosa explicou que o crescimento do feminicídio expõe falhas estruturais no enfrentamento da violência de gênero por partes do estado e dos municípios. 

“Faltam mecanismos eficientes e eficazes acionados para enfrentar o assassinato de mulheres na região e, em recorte, no Amazonas. Falta a qualificação permanente dos recursos humanos. Falta vontade política. Não é possível aguentar mais o faz de contas da publicidade oficial onde a realidade é quase perfeita enquanto a violência contra as mulheres deste estado corre solta e o sangue da vida de tantas mulheres se espalha entre todos nós”, disse.

Ela informou que as ações continuam fragmentadas e insuficientes, refletindo a influência persistente do machismo nas prioridades governamentais. 

“No corpo da máquina estatal existem profissionais comprometidos em agir para mudar a realidade. Sinto-os sob permanente asfixia, alguns desses técnicos adoecem diante da fragilidade das iniciativas, dos paliativos e da omissão. Não conseguem inserir e demonstrar ao governo que a violência contra a mulher e o seu ato mais definitivo, o feminicídio, devem ser preocupação de toda a estrutura governamental”, ressaltou.
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