Entre escolhas pessoais e desafios modernos, especialistas explicam por que tantas pessoas permanecem solteiras e como esse período pode ser essencial para construir relacionamentos duradouros.
(Foto: Daniel Brandão)
No Dia dos Namorados, enquanto muitos casais celebram o amor compartilhado a dois, cresce também o olhar para aqueles que ainda estão em busca pelo parceiro ideal. Ser solteiro, hoje, não é apenas uma condição passageira: especialistas afirmam que é um fenômeno social marcado por escolhas pessoais, desafios modernos e novas formas de se relacionar.
Entre expectativas, redes sociais, aplicativos de relacionamento e encontros e a construção de vínculos afetivos duradouros, o período de “solteirice” pode ser mais do que uma espera, entretanto representa também uma fase de autoconhecimento e preparação para relações mais saudáveis.
Em entrevista ao A CRÍTICA, a psicóloga Adriana Areque, especialista em adolescentes e adultos, explica que atualmente muitas pessoas permanecem solteiras por longos períodos por razões de autonomia e realização pessoal, o que demanda investimento no autoconhecimento podendo, muitas das vezes, conflitar com relacionamentos.
“Isso está relacionado muito ao contexto que a gente vive atualmente, onde as pessoas buscam muito pela sua autonomia e isso demanda um investimento no autoconhecimento. Você quer adquirir autonomia para o seu crescimento pessoal e profissional. Muitas pessoas prolongam esse estado de estar solteiro, focam na questão da solitude para priorizar esse investimento pessoal”, explicou.
Há também quem opte conscientemente por permanecer solteiro. Areque explica que para essas pessoas, a decisão não está ligada à falta de oportunidades, mas ao entendimento de que um relacionamento exige tempo, maturidade emocional e investimento afetivo. Essa escolha revela uma vertente cada vez mais comum: a de indivíduos que preferem priorizar outras áreas da vida antes de se engajar em uma relação amorosa.
“Um relacionamento demanda muito tempo, exige maturidade emocional e o investimento que muitas pessoas não estão dispostas. Tem que investir tempo, entender o conflito, estar disposto a amadurecer junto, e existe uma parte dessa geração atual que não está disposta a isso, por não ter a vontade de investir nesse lado. Um relacionamento exige manutenção, isso dá trabalho e muitas pessoas não estão preparadas, nem dispostas a aprender a se relacionar e a desenvolver um relacionamento”, frisou.
Outro aspecto observado na opção por permanecer solteiro está ligado à seletividade e à criticidade. Muitos sujeitos, ao investir em seu crescimento pessoal e profissional, passam a buscar parceiros que compartilhem da mesma visão e maturidade, tornando a escolha por um relacionamento ainda mais criteriosa.
“As pessoas entendem que estão se desenvolvendo, isso implica buscar pessoas que estejam com o mesmo nível de pensamento, leves, maduras e que queiram crescimento. Então estão mais seletivas. Ora, se eu estou investindo em mim, se eu busco um crescimento, se eu sou uma pessoa que estou me equilibrando com o passar do tempo, entendo que para estar ao meu lado tem que ser pessoas que estejam no mesmo nível de relacionamento e maturidade”, destacou.
Os desafios na busca por um relacionamento duradouro
Começar um relacionamento pode ser desafiador, especialmente para quem carrega histórias de frustrações e padrões não elaborados de relações anteriores. Sem esse trabalho de autoconhecimento, há o risco de repetir comportamentos e não conseguir enxergar a nova relação como uma construção diferente.
(Foto: Daniel Brandão)
“Muitas pessoas têm essa dificuldade de estar numa relação e se doar para outra pessoa e ao mesmo tempo priorizar e valorizar a sua individualidade. Então tem esse conflito: ou eu sei ser sozinho individualmente ou eu sei estar numa relação. E isso muitas vezes por falta da maturidade emocional, que exige autoconhecimento”, detalhou Areque.
Para além deste obstáculos a serem superados, muitos enfrentam o dilema entre preservar a autonomia e se entregar à intimidade, o que exige maturidade emocional para equilibrar individualidade e vida a dois. Areque explica que, quando não há essa compreensão sobre a solitude, pode surgir na relação o problema da dependência emocional.
“Exige um trabalho de entender quem eu sou só, quem eu sou com outra pessoa e como eu vou conseguir gerenciar um relacionamento ao mesmo tempo priorizando a minha individualidade, porque a gente precisa disso. I é um grande desafio hoje, porque tem pessoas que não sabem priorizar a sua individualidade mesmo estando numa relação. Muitas vezes isso chega a se tornar uma dependência emocional”, explicou.
Começar um relacionamento pode ser desafiador, sobretudo em um contexto em que a liberdade é valorizada. Muitos solteiros buscam vínculos que preservem a autonomia, permitindo momentos de solitude, tempo dedicado ao próprio crescimento e espaço para atividades individuais ou sociais além da vida a dois. Trata-se de uma busca por relações em que amizade e parceria sejam a base, sem abrir mão da individualidade.
“Analisando o contexto atual, onde se preza e se prega a liberdade, então os solteiros hoje buscam um relacionamento onde haja um mínimo de liberdade. E essa liberdade não necessariamente é para ter várias relações ao mesmo tempo, mas, apesar de estar num relacionamento, ter o seu tempo sozinho. A base dos relacionamentos hoje é a liberdade de ser aquilo que se é, prezando pela saúde mental e pela paz, longe de relacionamentos abusivos, de pessoas que prendem”, assegurou Areque.
Estar solteiro contribui para a construção de um relacionamento saudável
Estar solteiro não significa apenas ausência de companhia, mas pode representar um momento estratégico de crescimento pessoal. A chamada “solteirice” oferece espaço para autoconhecimento, amadurecimento emocional e fortalecimento da autonomia, fatores que se tornam fundamentais na construção de vínculos mais saudáveis e duradouros, quando surge a oportunidade de iniciar uma nova relação.
“Se a pessoa passar esse tempo investindo no seu autoconhecimento, isso é algo muito positivo, porque ela vai aprender a regular as suas emoções, vai entender quais são os seus limites, e dentro de uma relação que se inicia, ela vai poder se impor em relação a isso, dizer não, entender realmente quais são os seus limites, o que aceita, o que não aceita e como que pode também, através do autoconhecimento, ser empática com o outro e a partir disso, construir uma relação saudável”, salientou a psicóloga clínica.
Areque detalha que o período em que se está solteiro é propício para a construção de empatia, responsabilidade e maturidade, tendo em vista a construção futura de um relacionamento saudável.
“Vai haver empatia e maturidade. Então, estar solteiro e construir essa solteirice de uma forma saudável com esse autoconhecimento, vai evitar dependência emocional, apego disfuncional ou exagerado e, principalmente, vai propiciar uma relação mais madura”, detalhou.
Ações que contribuem para a construção de um relacionamento saudável e duradouro
No Dia dos Namorados, a pressão comercial e a enxurrada de imagens de casais nas redes sociais podem levar muitos solteiros a interpretar sua condição como um sinal de fracasso. Para especialistas, estar sozinho é também resultado de escolhas e objetivos pessoais, e deve ser encarado como parte de um processo de amadurecimento.
“Estar solteiro tem que se pensar que é uma escolha por se haver critérios para ter alguém e não necessariamente é um fracasso. É muito importante ter esse posicionamento de se validar sim, enquanto muitas vezes, gostaria de estar com alguém, mas no momento não apareceu, não significa que isso não vai aparecer”, frisou Areque.
Nessa perspectiva, validar as próprias emoções, compreender o motivo da “solteirice” e reconhecer que o futuro pode trazer novas possibilidades são passos fundamentais para transformar esse período em preparação para relações mais equilibradas e duradouras.
“Não se devem deixar levar pelas pressões das redes sociais ou pela cobrança social que se impõe através de uma data, que é importante para quem tem os seus relacionamentos, mas tem muito a ver com a questão comercial. Se houver um anseio, sintomas ansiosos, que muitas vezes fazem a pessoa cair num grau de tristeza muito grande, é importante buscar ajuda profissional”, ressaltou a psicóloga.
Orientações profissionais
“A psicologia sempre vai sugerir e orientar as pessoas, para que elas invistam sempre no seu autoconhecimento. Porque se eu me conheço, se eu invisto nesse autoconhecimento, se busco psicoterapia e busco entender quem eu sou, eu estarei pronta para entrar num relacionamento”, destacou a psicóloga.
A profissional orienta que essas ações contribuem para evitar problemas como a dependência emocional, no estabelecimento de limites e, principalmente, na compreensão sobre os próprios sentimentos e emoções.
“Todo relacionamento vai ter desafios, afinal são pessoas diferentes que vão se conhecer e vão se entender até chegar a um consenso para lidar um com o outro. Vai haver uma troca, uma parceria, no entanto, isso só vai ser possível se eu estiver com as minhas emoções reguladas”, assegurou a psicóloga.
“Sempre sugerimos o autoconhecimento para que haja uma relação saudável, quebra de padrões de relacionamentos passados, e que a gente consiga se comunicar, entender a linguagem do outro, e realmente uma seja troca. Um relacionamento é uma via de mão dupla”, concluiu a psicóloga Adriana Areque.