Meteorologistas alertam para novo evento intenso nos próximos meses; médicos listam grupos de risco e itens essenciais para ter em casa durante a estiagem
Meteorologista Juliane Querino aponta que o aquecimento do Pacífico vai reduzir as chuvas no Amazonas (Foto: Junio Matos/A CRÍTICA)
Depois da seca histórica, da fumaça intensa e das dificuldades de abastecimento registradas nos últimos anos no Amazonas, especialistas alertam que a população pode começar desde já a adotar medidas básicas de preparação para enfrentar novos eventos climáticos extremos associados ao possível “Super El Niño”.
O alerta ganhou força após órgãos meteorológicos internacionais apontarem a possibilidade de um novo evento intenso do fenômeno climático nos próximos meses. Em 2023 e em 2024, o Amazonas enfrentou uma das secas mais severas da história recente, com rios atingindo níveis mínimos históricos, isolamento de comunidades, aumento de queimadas e piora da qualidade do ar em diversas cidades do estado.
Entre os principais cuidados recomendados estão hidratação constante, atenção à saúde respiratória, armazenamento adequado de água e redução da exposição à fumaça durante períodos de calor intenso e estiagem severa.
Segundo a meteorologista e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Interação Biosfera Atmosférica na Amazônia (GPIBA) da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Juliane Querino, o fenômeno El Niño costuma provocar redução das chuvas e aumento das temperaturas na região amazônica.
“A ocorrência do fenômeno El niño (aquecimento das águas do oceano Pacífico Equatorial), influencia a circulação atmosférica, e normalmente provoca para região Amazônica um diminuição no volume de chuvas, e aumento da temperatura do ar”, explicou à reportagem de A CRÍTICA.
Manaus encoberta por fumaça. Foto: Arquivo/JUNIO MATOS/AC
De acordo com a pesquisadora, os impactos atingem diferentes setores da vida cotidiana.
“Causando impactos na agricultura, na pesca, na alimentação, na energia, na sociedade. Quanto maior a intensidade do El niño, mais intenso as suas consequências”, afirma.
A especialista destaca ainda que o período seco favorece queimadas e piora da qualidade do ar. “Com o aumento dos focos de queimadas mais poluentes na atmosfera, afetando a qualidade do ar e a saúde da população”, diz.
Entre as recomendações para enfrentar períodos de calor extremo, Juliane orienta medidas simples dentro das residências.
“Como será um período mais quente e seco, a população precisa buscar manter-se hidratados, beber bastante água. Evitar atividades físicas em horário de maior intensidade solar (11:00 -15:00). Manter o seu ambiente úmido com umidificadores, bacias de água, panos úmidos nas frestas de janelas e portas”, afirma Querino.
Ela também alerta para os impactos sociais provocados pela estiagem severa no interior do Amazonas.
“Há situação em que algumas comunidades possuem acesso apenas pelos rios, e correm o risco do isolamento. E por isso, o estado precisa pensar em um planejamento para dar assistência as essas famílias”, declara a pesquisadora.
A fumaça provocada pelas queimadas é um dos principais fatores de preocupação para a saúde da população durante períodos de seca extrema.
Segundo a médica e coordenadora do curso de Medicina da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Itacoatiara, Bruna Borges, doenças respiratórias costumam se agravar nesses períodos.
“Pacientes que têm asma, pacientes com DPOC, que é doença pulmonar obstrutiva crônica, pacientes com quadros respiratórios gerais, como rinite, sinusite, costumam, nesse período, com certeza, se sentirem mais cansados”, pontua Borges.
Ela explica que alguns grupos exigem atenção especial. “Os grupos mais vulneráveis que nós consideramos são as crianças. Lembrar que eles ainda não têm o sistema respiratório plenamente formado, especialmente os menores de 5 anos”, diz.
A médica também cita gestantes e idosos entre os mais afetados. “Gestantes são sempre grupo de risco, idosos especialmente, porque os idosos já têm uma disponibilidade ali do pulmão menor do que o restante da população”, completa.
Dentro de casa, a recomendação é reduzir ao máximo a entrada da fumaça nos ambientes.
“Em casa, a gente sempre orienta que as janelas permaneçam fechadas. Quanto menos contato eu tiver com a fumaça, menor a chance de contaminação”, orienta Bruna Borges.
O uso de umidificadores e a manutenção correta do ar-condicionado também ajudam a diminuir os impactos respiratórios.
“Cuidado com a higienização do ar-condicionado. Manter ele sempre limpo e se utilizar o ar-condicionado, utilizar aquele modo que mantém a circulação interna”, ressalta a médica.
Entre os itens considerados importantes para ter em casa durante períodos de seca e fumaça, a médica destaca o soro fisiológico.
“Eu diria que o item fundamental, na verdade, não é nem só nesse período, é o sorofisiológico. A lavagem nasal é extremamente recomendada para todos nós”, afirma.
Kit básico
Especialistas recomendam que famílias amazonenses passem a considerar alguns itens básicos dentro de casa durante períodos de seca extrema e calor intenso:
- Água potável e recipientes para armazenamento;
- Soro fisiológico;
- Umidificadores ou bacias de água;
- Medicamentos de uso contínuo;
- Máscaras;
- Atenção à limpeza de aparelhos de ar-condicionado;
- Evitar exposição ao sol entre 11h e 15h.
Foto: Arquivo/Seca no rio Negro/JEIZA RUSSO/AC
Para a meteorologista Juliane Querino, o avanço dos eventos climáticos extremos exige planejamento contínuo das autoridades e da sociedade.
“É necessário que autoridades possam pensar em um planejamento de assistência para a sociedade, um planejamento ambiental para minimizar os impactos causados pelo fenômeno”, conclui Querino.