Entrevista

‘Título amplia visibilidade do Teatro Amazonas’, diz superintendente do Iphan-AM

Beatriz Calheiros fala sobre os benefícios  da aprovação do Teatro Amazonas como Patrimônio Mundial Cultural da Unesco e os próximos passos para a preservação do bem amazonense

Marcelo Guilherme - Especial para A CRÍTICA
08/08/2026 às 17:01.
Atualizado em 08/08/2026 às 17:01

A superintendente do Iphan-AM também falou sobre as ações e projetos do instituto (Paulo Bindá/AC)

O Teatro Amazonas e o Theatro da Paz, em Belém (PA), amanheceram na última segunda-feira, 27 de julho, com um novo status: o de Patrimônio Mundial Cultural da Unesco. A aprovação, feita pelo Comitê do Patrimônio Mundial reunido na Coreia do Sul, consagrou os dois teatros sob a designação conjunta "Teatros da Amazônia" e tornou o Amazonas e o Pará os primeiros estados da Região Norte a ter um bem cultural na lista da organização. Mas o que muda, na prática, para quem passa em frente ao teatro todos os dias?

Segundo a superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Amazonas (Iphan-AM), Beatriz Calheiros, o reconhecimento é, antes de tudo, um compromisso de longo prazo. "O reconhecimento como Patrimônio Mundial é um compromisso de longo prazo do Estado brasileiro com a preservação desse patrimônio frente à comunidade internacional", afirma.

Na prática, isso significa a criação imediata de um comitê gestor com representantes do poder público e da sociedade civil, responsável por conduzir um plano de gestão com ações, prazos e recursos definidos, além da elaboração de um projeto de restauração com verba federal já em curso para o Teatro Amazonas.

O título, construído a partir de um dossiê apresentado em 2025 após anos de integração à Lista Indicativa Brasileira, também abre portas que iam além da preservação física: acesso a redes internacionais de especialistas, cooperação técnica com organismos como o Fundo do Patrimônio Mundial e o fortalecimento da gestão compartilhada entre União, estado e município. Na dimensão econômica, segundo Beatriz, o título amplia a visibilidade do teatro e cria condições para o desenvolvimento do turismo cultural e da economia criativa, temas contemplados na própria documentação técnica da candidatura.

A superintendente do Iphan-AM também falou sobre as ações e projetos do instituto, entre eles o programa Casa do Patrimônio, iniciativa nacional do instituto que prevê a sede como polo irradiador de ações de educação patrimonial em todo o território estadual. Confira a entrevista completa.

O título de Patrimônio Mundial para o Teatro Amazonas veio em conjunto com o Theatro da Paz, sob a marca "Teatros da Amazônia". Como foi, na prática, o processo de construção dessa candidatura conjunta com o Pará, e há quanto tempo o Iphan vinha trabalhando nesse dossiê?

A candidatura dos Teatros da Amazônia integra a Lista Indicativa Brasileira há alguns anos e, após uma série de reuniões para a elaboração do dossiê, o documento foi apresentado em 2025.

Este é o primeiro bem cultural da Região Norte a entrar na lista da Unesco. O que isso representa concretamente para o Amazonas, em termos de turismo, visibilidade internacional e também de responsabilidade institucional?

O reconhecimento internacional traz um conjunto de benefícios: o fortalecimento da gestão compartilhada entre União, estado e município, que ganha agora novo peso, e o acesso a redes internacionais de especialistas, como o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos), e a outros bens Patrimônio Mundial com desafios semelhantes. Na dimensão econômica, o título amplia a visibilidade do teatro e cria condições para o desenvolvimento do turismo cultural e da economia criativa, temas contemplados na própria documentação técnica da candidatura.

No plano local, já existem parcerias com a Universidade Federal do Amazonas em ações de conservação e pesquisa. Existe também um diálogo com a Universidade Federal do Pará, para dar suporte no caso do Teatro Amazonas, e o mesmo vai acontecer no Pará, além do acesso a essa rede internacional de especialistas.

Após esse reconhecimento, a cobrança por preservação aumenta. Qual seria o primeiro passo prático do Iphan agora? Há um plano de manutenção ou um possível processo de restauração já mapeado para o Teatro Amazonas?

O reconhecimento como Patrimônio Mundial é um compromisso de longo prazo do Estado brasileiro com a preservação desse patrimônio frente à comunidade internacional.

O próximo passo imediato é a instituição do comitê gestor, instância colegiada com representações do poder público e da sociedade civil responsável pela gestão da preservação do bem. O instrumento de planejamento será o plano de gestão, com ações, responsabilidades, prazos e recursos definidos.

Para o Teatro Amazonas, está em curso a elaboração de projeto de restauração com recursos federais, como etapa prévia ao diagnóstico detalhado dos danos e à execução das obras.

Além do Teatro Amazonas, o Estado já tem outros bens tombados, como o Mercado Adolpho Lisboa, o Paço da Liberdade e o Palacete Provincial, e patrimônios imateriais como a dança do Gambá. Como a senhora avalia hoje esse conjunto de proteção?

O momento é positivo em termos de gestão compartilhada; hoje os três entes (União, estado e município) atuam de forma mais integrada. O estado tem avançado no registro de bens imateriais, e a Prefeitura de Manaus ampliou sua atuação na área. No âmbito do Iphan, estão em andamento processos de tombamento do Seminário de Tefé e de registro do Beiradão como patrimônio imaterial.

Muitos casarões e praças históricas do centro de Manaus enfrentam abandono e risco de demolição irregular. O Iphan tem hoje capacidade de fiscalização para impedir isso?

O esvaziamento dos centros históricos é um desafio nacional. No caso de Manaus, o Iphan atua por meio de fiscalização, autorização de intervenções e, atualmente, da elaboração de um plano de conservação para o Centro Histórico, com foco em imóveis abandonados e subutilizados, visando reverter esse cenário. A atuação conjunta com o município é considerada fundamental, dado o caráter transversal do problema, que envolve tanto questões patrimoniais quanto urbanísticas. A soma das equipes técnicas dos diferentes entes amplia a capacidade de resposta.

Existe algum programa de educação patrimonial em andamento para aproximar a população desse cuidado com os monumentos e tradições?

O Iphan no Amazonas está estruturando o programa Casa do Patrimônio, iniciativa nacional do instituto que prevê a sede como polo irradiador de ações de educação patrimonial em todo o território estadual.

Entre as iniciativas planejadas estão espaços de informação e capacitação sobre patrimônio cultural e a produção de um podcast, que funcionará como instrumento de difusão das políticas patrimoniais. O formato prevê a participação tanto do próprio Iphan quanto de detentores do patrimônio material e imaterial, ampliando o alcance e a diversidade de vozes sobre o tema.

Fora da capital, muitos bens históricos e arqueológicos de municípios do interior não têm inventário nem proteção legal. Isso é uma prioridade do Iphan-AM hoje?

O desafio é significativo. O Amazonas tem dimensões territoriais únicas e, historicamente, a política patrimonial esteve concentrada em Manaus. Ampliar essa atuação exige trabalho em rede com governos estaduais e municipais, o que tem sido construído de forma gradual.

O Iphan tem integrado ações patrimoniais às visitas realizadas nos municípios do interior, aproveitando deslocamentos para fiscalização arqueológica ou salvaguarda do patrimônio imaterial para dialogar com escolas, grupos de detentores e gestores locais. Paralelamente, está sendo implantado o Sistema Nacional de Patrimônio Cultural, sistema setorial atrelado ao Sistema Nacional de Cultura, cujo foco é exatamente esse trabalho em rede entre os entes federados.

Agora que o Teatro Amazonas carrega esse reconhecimento da Unesco, isso abre portas para captar recursos internacionais que antes não estavam disponíveis?

O reconhecimento amplia o acesso a recursos e cooperações técnicas nessa esfera. O primeiro passo é a conclusão do diagnóstico detalhado e a elaboração dos projetos de restauração, que estão em processo de contratação e subsidiarão a captação de recursos para a execução das obras. Além da conservação física, o interesse se estende a ações de formação, intercâmbios técnicos e culturais, e melhoria da acessibilidade e interpretação nos espaços públicos que integram a candidatura, no caso do Largo de São Sebastião.

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