Proposta aprovada

TJ-AM aprova oito novos desembargadores em sessão marcada por desagravo à Corte

Por unanimidade, 19 desembargadores aprovaram anteprojeto que também cria 80 cargos em comissão e 24 funções gratificadas; expansão será escalonada até 2028

Omar Gusmão
21/08/2026 às 15:21.
Atualizado em 21/08/2026 às 15:21

(Foto: Jeiza Russo)

Teve tom de desagravo a sessão do pleno que aprovou, por unanimidade, o anteprojeto de Lei que prevê a criação de oito novos cargos de desembargadores no Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM). Sem citar nomes, todos os desembargadores que se pronunciaram durante a sessão reclamaram de notícias falsas publicadas em “blogs” e do excesso de trabalho a que um desembargador do TJ-AM é submetido, justificando o aumento de 26 para 34 no número de desembargadores da Corte.

Todos os 19 desembargadores presentes à sessão votaram a favor da criação dos cargos, que além dos oito para desembargador, preveem ainda a criação de 80 cargos em comissão e 24 funções gratificadas. Foram anunciadas as ausências justificadas dos desembargadores Flávio Pascarelli, Mirza Telma, Wania Marques Marinho, Paulo Lima, Onilza Gerth, Claudio Roessing e Nélia Caminha Jorge.

Uma vez aprovado pelo pleno TJ-AM, o projeto segue agora para a análise e votação da Assembleia Legislativa do Amazonas, que tem efetivamente o poder de criar os cargos reivindicados pela Corte de Justiça estadual. “Nós vamos remeter para a Assembleia e aí, a Assembleia aprovando, vai para a sanção. Em seguida começaremos os processos internos administrativos”, revelou o presidente da Corte, desembargador Jomar Fernandes.

O presidente defendeu o anteprojeto justificando que houve consulta prévia ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), e que o órgão de controle do judiciário autorizou a criação das oito vagas de desembargador com os respectivos cargos. Ele também explicou a criação escalonada dos oito gabinetes: serão quatro implementados ainda em 2026, dois em 2027 e mais dois em 2028, acrescentando que a expansão está prevista no orçamento do judiciário.

“Como já relatado na sessão em que aprovamos nossa proposta orçamentária, a criação desses cargos de desembargadores, respectivas funções e cargos de gabinete, teve toda essa despesa prevista no orçamento do ano que vem. E há disponibilidade orçamentária para que nós instalemos esses gabinetes dos quatro desembargadores ainda este ano”, garantiu, sem, contudo especificar o impacto da criação dos novos cargos no orçamento.

O presidente afirmou também que alguns órgãos de imprensa têm, de forma não verdadeira, criticado a criação desses novos cargos, sem conhecer tecnicamente as estatísticas e as necessidades do TJ-AM. Esses mesmos órgãos, segundo o presidente, vêm publicando informações referentes à Corte estadual, principalmente no interior, que não são verdadeiras. 

“Há um blog mentiroso que disse que não há juízes nas comarcas, o que é obviamente uma mentira deslavada, porque hoje nós temos titularidade em todas as 61 comarcas, e até naquelas em que há mais de uma vara. E temos ainda um cadastro reserva de juízes que foram aprovados no concurso aguardando nomeação”, declarou.

(Foto: Jeiza Russo)

 Jomar Fernandes chegou a ser mais duro em sua denúncia-desagravo. “Então, eu quero contestar essas notícias inverídicas desses órgão de imprensa mentirosos, sensacionalistas, que desconhecem a realidade fática do Poder Judiciário do Amazonas”, afirmou. 

Ele declarou, sem revelar nomes, que se trata de um único órgão de imprensa que está revelando muita inverdade sobre a Corte. “Um único órgão que não teve a preocupação sequer de ir no nosso projeto de execução orçamentária para o ano que vem, onde nós projetamos concurso para servidor, aumento do número de desembargadores, aumento do número de juízes”, afirmou.

“Então, esse tipo de notícia tem que ser combatida, por isso é que houve a manifestação unânime do plenário que a gente precisa combater essas inverdades, inverdades não técnicas, não checadas. Hoje, por exemplo, estão nos chamando de todos poderosos, os desembragadores são todos poderosos. Quer dizer, isso é uma ofensa ao Tribunal de Justiça do Amazonas porque nos aponta como se fossemos os vilões da República”, reclamou.

DESAGRAVO E FARDO ÁRDUO

Durante seus pronunciamentos sobre o tema, os desembargadores se solidarizaram com o presidente em discursos de desagravo às mentiras proferidas contra a corte e ao não reconhecimento do árduo fardo que carregam.

Decano da Corte, o desembargador João Simões deu início aos discursos solidários a Jomar Fernandes. “Nós temos defasagens, sim, necessidades, sim, de mais magistrados e mais servidores.  Eu quero destacar, presidente, que em 2020, e os números não mentem, nós, como desembargadores, recebíamos aqui, no segundo grau, aproximadamente mil processos por ano. E hoje, em 2026, nós estamos recebendo, por mês, aproximadamente 500 novos processos”, relatou. 

Segundo o decano, os números evidenciam que no intervalo de seis anos, entre 2020 e 2026, o trabalho dos desembargadores quadruplicou. “E, em 2020, esta Corte já tinha esta mesma composição. Ou seja, 26 desembargadores. E a mesma quantidade de juízes. Então, na base, o Tribunal fez o concurso, já há novos juízes nomeados. Então, essas mentiras deslavadas precisam ser rebatidas com muito vigor. Evidentemente, que nós precisamos de mais força de trabalho, lógico que precisamos. O trabalho está aí à espera, então precisamos de mais obreiros nessa obra”, defendeu.

O desembargador Délcio Luís Santos engrossou o coro: “Nós precisamos que o Tribunal cresça para atender esse ritmo grande de demandas. Então, quero me solidarizar com vossa excelência e com esta Corte contra essas mentiras”, declarou.

Mais técnica, a desembargadora Ida Maria Costa de Andrade evidenciou que os requisitos legais para a expansão dos cargos da segunda instância do TJ-AM foram devidamente atendidos. Ela defendeu que o TJ-AM exponha na mídia as verdadeiras motivações que levaram à necessidade de expansão.

“A indicação sobre o crescimento populacional nos indicadores do IBGE, o aumento das ações judiciais em segunda instância, a taxa de congestionamento, tudo conforme a Justiça em Números, porque isso existe e é possível fiscalizarmos e sermos fiscalizados”, disse, ao se solidarizar com a presidência da Corte.

(Foto: Jeiza Russo)

 A desembargadora Socorro Guedes falou sobre o excesso de trabalho dos desembargadores e até mesmo sobre o comprometimento da saúde dos magistrados. “Na verdade, uma das dificuldades da magistratura brasileira, não é só Amazonas, é que nós trabalhamos muito, mas trabalhamos muito pouco para a população daquele serviço essencial que é prestado”, disse.

“Eu trouxe, uma simples experiência de uma das câmaras, porque estou numa câmara cível. Na nossa câmara cível, às segundas-feiras, a sessão começa às 9h e, quase sempre, quando termina cedo, termina às 15h. São mais de 7 horas julgando processos sem interrupção. Isso aqui é um fato cotidiano”, contou a desembragadora. “Mas nós somos humanos, temos que cuidar da saúde e a saúde de todos os magistrados acaba sendo comprometida por conta dessa situação”, pontuou.

ORÇAMENTO INCREMENTADO

Para 2027, o orçamento do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM) foi contemplado na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) aprovada pela Assembleia Legislativa do Amazonas (ALE-AM), com um acréscimo. 

O duodécimo, repasse mensal orçamentário, do Tribunal subiu de 8,31% em 2026 para 9% da Receita Tributária Líquida em 2027. 

O aumento do teto de repasses se deu a pedido do TJ-AM justamente para custear a ampliação de cargos aprovada pelo tribunal, que decidiu pela realização de um concurso público para 42 vagas de juízes e 400 de servidores, além da ampliação do número de desembargadores de 26 para 32.

No entanto, o aumento enviado pelo governo estadual e aprovado pela ALE-AM menor do que o pleiteado pelo Judiciário, que buscava ampliação de 1,25% no duodécimo para 2027.

CUSTO ESTIMADO

O TJ-AM não informou o impacto que a criação dos oito gabinetes dos novos desembargadores terá no orçamento. Nem mesmo os valores brutos necessários para a expansão.

Um cálculo informal tendo como base os salários pagos atualmente para os cargos e funções necessários para o funcionamento do gabinete de um desembargador leva a um valor estimado de R$ 1,5 milhão a R$ 1,9 milhão por ano por cada gabinete. O cálculo inclui o provento do desembargador (R$ 41.845,49), mais folha bruta de 10 assessores, com salários que variam de R$ 4,2 mil a R$ 19,3 mil brutos por mês, multiplicando por 12 meses mais o impacto do 13º salário e terço de férias de toda a equipe.

Ou seja, os oito novos gabinetes podem representar cerca de R$ 15 milhões a R$ 20 milhões por ano em remunerações, considerando os valores atuais dos cargos e funções previstos na estrutura, sem incluir outras despesas de funcionamento.

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