Ela é uma das muitas mulheres que viveu um desafio a mais durante um período tão importante
(Foto: Arquivo pessoal)
A gestação traz muitos impactos na vida de uma mulher, porém, em meio a uma pandemia os desafios da gravidez foram potencializados. A experiência foi vivenciada por Nathallya Castro Monteiro Alves, que deu à luz a Joaquim Luiz, no dia 27 de novembro de 2020, quando não havia sequer previsão de início da vacinação contra a Covid-19 no Brasil, tampouco tratamento para a doença que já havia vitimado milhões de brasileiros.
Enfermeira por formação e mestre em Educação para Saúde, Nathallya é a primeira mulher a ocupar o posto de reitora do Centro Universitário Luterano de Manaus (CEULM/Ulbra) em quase 30 anos de atuação no Amazonas. A posse como reitora e a chegada de Joaquim foram dois presentes para Nathallya durante a pandemia, mas celebrar essas conquistas tiveram seus percalços em meio a uma crise sanitária.
“Eram várias as indagações: como iria fazer o pré-natal? Como seria o parto? Joaquim nasceu naquela trégua da pandemia, em novembro. Houve bastante insegurança, muito medo por estar no hospital, e só podia ficar com um acompanhante... A gestação traz muito impacto, choro e incertezas. A chegada dele foi muito feliz, contudo, teve muito impacto psicológico”, relata.
Há sete meses à frente do centro universitário, Nathallya atualmente mora com o esposo, o filho de 10 meses, e a mãe, no campus da Ulbra, em Manaus. O local tem como vista o campo de treinamento do time amazonense Fast Clube. Porém, durante a quarentena, Nathallya dividiu um pequeno apartamento com o esposo e o pai dela. Alguns detalhes dessa convivência ela contou ao A Crítica com exclusividade.
Lembranças da quarentena
Nathallya, que é maranhense, conta que cumpriu o período de isolamento com o esposo e o pai, que veio do Maranhão em visita a Manaus, e não conseguiu retornar devido às restrições impostas pela pandemia. No primeiro momento, segundo contou a reitora, eles aproveitaram para assistir TV e adotaram um rodízio de culinária. “Cada dia, um fazia um prato de comida diferente. Com isso vieram muitos quilos”, disse sorrindo e continuou o relato.
“Nunca se falou tanto em convivência e distanciamento social. Antes eu trabalhava mais de 8 horas por dia, então, parar e ter essa ruptura na rotina é complicado, é uma ressignificação da relação em família. Por causa dos afazeres, às vezes, acaba não sendo uma convivência, mas um momento do dia a dia. Então, foi um momento de reaproximação, era uma convivência e uma oportunidade e não uma obrigação”, destacou.
Mas a convivência prolongada também trouxe conflitos que precisaram ser conciliados, como detalhou a reitora. “Na nossa família ficou muito marcado porque ficamos em um apartamento pequeno e nunca havíamos passado tanto tempo juntos. Isso trouxe muito conflito porque um trabalha remotamente e exercer o trabalho nesse ambiente gera conflitos, tínhamos horários diferentes, juntar isso tudo em um só ambiente ficam lacunas e conflitos que precisam ser conciliados”, disse.
Naquele período, Nathallya ainda trabalhava como professora em uma instituição de ensino de Manaus e teve que adotar o trabalho remoto. Em casa, ela precisou adaptar um quarto que se tornaria a sua nova “sala de aula” provisória. Paredes foram pintadas e um plano de fundo foi montado para que ela pudesse lecionar para as turmas. Neste período, a família acabou se desfazendo também de bens que se tornaram desnecessários, segundo eles avaliaram.
Saudade da rotina de trabalho
Ao comentar sobre o que mais sentiu falta no auge da pandemia em Manaus, a reitora confessa que foi da rotina de ir para o trabalho e de estar com os alunos em sala de aula. Ela também conta que sentia um anseio de estar junto à equipe de saúde trabalhando como enfermeira em meio à crise sanitária.
“Eu chorava incessantemente querendo ir, mas não podia pela minha condição [de gestante]. Senti muita falta de atuar como enfermeira quando a humanidade mais precisou, quando faltou pessoal e precisava-se de atendimento humanizado”, contou a enfermeira e reitora.
Nossa Manaus
Para Nathalya, embora Manaus tenha sofrido muito com a pandemia, a cidade, contudo, conseguiu se ressignificar e identificar pontos fortes. “Muitos microempresários conseguiram segurar a peteca, se adaptaram, conseguiram se ressignificar, pararam de pagar aluguel, ficaram no delivery e os impactos foram amenizados com maestria”, opinou.
“O fato de não poder viajar fez com que a classe média, que costumava viajar pela Europa e outros países de férias, com a pandemia, eles conseguiram valorizar nossas paisagens, acabaram olhando para o intrínseco, e vendo nossas belezas naturais passaram a valorizar mais o que temos de melhor por aqui”, completou.