ARTICULAÇÃO POR VERBAS

Amazonas busca mais verbas federais para combater queimadas e fumaça

Valores ainda não estão consolidados e dependem do envio de planos de trabalho do estado para os entes federais

Lucas dos Santos
12/10/2026 às 16:13.
Atualizado em 12/10/2026 às 16:13

Comitê Permanente de Enfrentamento a Eventos Climáticos e Ambientais (Copec) e representantes das prefeituras municipais tratam de ações de prevenção e combate às queimadas no Amazonas (Foto: Daniel Brandão/A CRÍTICA)

O governador Roberto Cidade (União) informou, em coletiva nesta segunda-feira (12), que está em articulação com representantes do governo federal para obter recursos emergenciais contra os incêndios e a fumaça que vêm prejudicando a população do Amazonas nas últimas semanas. Segundo o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), R$ 45 milhões foram disponibilizados pelo Fundo Amazônia para o projeto ProAmazon, voltado a equipar o Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) especificamente para combater incêndios. Desse montante, o estado já recebeu R$ 34,7 milhões. Ainda há R$ 10 milhões disponíveis para serem utilizados.

Ao todo, o estado já recebeu mais de R$ 372 milhões desde 2023 para socorro, ajuda humanitária, reconstrução e restabelecimento de serviços essenciais. De acordo com o ministério, foram aprovados 262 planos de trabalho, sendo 243 de assistência humanitária, seis de restabelecimento e 13 de reconstrução.

O governador Roberto Cidade informou que esse novo pedido ainda não possui valores definidos. A gestão estadual deverá apresentar planos de trabalho que viabilizem a liberação dos recursos. Também serão verificadas as demandas individuais das prefeituras afetadas pela emergência.

“Nós vamos solicitar o que é emergencial e também os pós, quando passar essa fumaça. Eles pediram para a gente apresentar esses planos de trabalho e também os da estiagem. Nós já estamos executando isso. O valor eles estão dimensionando e também tem as questões do que as prefeituras vão solicitar”, disse o governador.

No último sábado, Cidade assinou um decreto de emergência em 36 municípios por conta dos incêndios florestais, reconhecido no mesmo dia pelo Ministério da Integração. O secretário nacional de Proteção e Defesa Civil, Wolnei Wolff, esteve no Amazonas e ressaltou que insistiu “na celeridade para que o Estado decretasse a emergência e fizesse o pedido de reconhecimento” urgentemente.

O ministro Waldez Góes, titular da pasta, ressaltou que não faltaria nada para o enfrentamento ao fogo, incluindo “equipamentos, veículos, homens, recursos, tudo o que for preciso será disponibilizado. É assim que o Governo Federal vem fazendo desde 2023”.

(Foto: Jorge Alberto/A CRÍTICA)

Atuação

 À imprensa, Roberto Cidade lembrou ainda do decreto de emergência climática feito em junho, que o tornou alvo de críticas de terceiros. “Disseram que eu estava fazendo isso para tentar pegar recursos. O resultado está aí, nós estávamos certos, tomamos a decisão no momento certo.”

“Agora a gente entende que é momento de ser bombeiro, é momento de resolver a questão, mas hoje nós poderíamos estar muito mais preparados para esses eventos. O que já me preocupa é que nós depois teremos uma estiagem severa, ou mais ou menos, mas não importa, o povo lá da ponta está precisando de apoio”, disse.

O governador informou que os planos de trabalho para combater os efeitos das queimadas estão sendo concluídos junto à Defesa Civil, que enviará os dados à Defesa Civil Nacional. Representantes do Sistema Único de Saúde (SUS) farão o mesmo, com foco nas situações de maior emergência. Segundo Cidade, os recursos executados neste ano foram disponibilizados em 2025, sem que novas verbas tenham chegado por parte da União.

“Mas isso não importa. O momento agora é de evitar narrativas polêmicas, confrontos. O momento agora é de união, de construção e de enfrentar o problema da melhor forma possível. Já estamos recebendo apoios do governo federal, acredito que foi muito rápido, mas nós já esperávamos que isso ia acontecer”, disse.

(Foto: Daniel Brandão/A CRÍTICA)

 Coordenação

O coronel do CBMAM Orleilso Muniz disse que foi realizada uma grande reunião entre a gestão estadual, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) e as Forças Armadas para definir as ações dos próximos dias.

Segundo ele, a coordenação operacional dos recursos aéreos está concentrada em uma sala de situação do Corpo de Bombeiros. Foram definidas como áreas prioritárias o entorno de Manaus, áreas do município de Autazes e a região do Baixo Amazonas, podendo chegar até Parintins. Uma aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB) já havia iniciado os trabalhos.

“Hoje de manhã o avião KC-390 já está realizando o combate. Os Air Tractors estão aguardando ter teto por conta da fumaça que ainda não permitiu [o voo]. Nós teremos base em Itacoatiara e em Manaus. Em Itacoatiara ficarão quatro aeronaves, porque cobrirá toda a área do entorno até Parintins, e Manaus vai cobrir todo o eixo da BR-319. São as áreas mais impactadas a partir dos nossos monitoramentos”, disse.

A força-tarefa também instalou equipes em solo nas regiões de Manacapuru e Careiro Castanho, além de uma base no km 53 da rodovia AM-254, que liga Autazes à BR-319.

A dificuldade no combate às queimadas, segundo o governador Roberto Cidade, tem sido agravada pelo fenômeno El Niño, ativo desde maio e que ganhou intensidade em setembro. No Brasil, ele provoca calor e tempo seco no Norte, enquanto o Sul é atingido por chuvas torrenciais e enchentes.

“É um efeito mundial. Às vezes, têm pequenos focos de incêndio, de fumaça, que acontecem no meio da floresta por conta das pastagens secas. Outro fato são as queimadas criminosas, pequenos focos, um cigarro jogado, algo que ateie o fogo também. Nós precisamos comunicar a população do estado do Amazonas que um pequeno gesto pode causar um transtorno muito grande, especialmente neste período”, frisou.

Tempo

Há divergência sobre quanto tempo mais a nuvem de fumaça permanecerá sobre Manaus. Nesta segunda-feira, a capital amanheceu pelo quinto dia seguido com os níveis de qualidade do ar variando de muito ruim a péssimo, de acordo com o Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

O superintendente do Ibama no Amazonas, Joel Araújo, afirmou que essa nuvem pode se dissipar nos próximos quatro dias com as ações coordenadas no estado. Segundo ele, o grupo tem “a melhor estratégia para diminuir a fumaça em Manaus”. Por outro lado, o coronel Orleilso Muniz afirmou que não é possível prever quanto tempo levará para a fumaça ser totalmente dissipada, já que boa parte do material que chega à capital tem origem no oeste e no sul do Pará.

“Temos conversado tanto com os estados vizinhos e esse ano, diferente de todos os outros anos, em virtude de termos implantado diversos quartéis no sul do Amazonas, ele está pouco impactado. As prefeituras são muito importantes nesse processo também, porque o conceito de ocupação é exatamente isso: grupamentos integrados de combate a incêndio e proteção civil”, informou.

Questionado sobre os incêndios em outras localidades que afetam o Amazonas, Joel Araújo confirmou que poderá haver parcerias com o governo do estado vizinho para mitigar os efeitos da fumaça.

“A região Oeste do Pará, principalmente ali no sul de Santarém, é uma região que queima bastante todos os anos. Nós temos brigadas atuando naquela região pelo Ibama, mas precisa reforçar o trabalho, que nem a gente está fazendo aqui. Porque o que acontece: Manaus acaba sentindo muito a fumaça. Lá, as grandes cidades não passam pelo mesmo, então a sensação deles em relação à fumaça é diferente do que a gente tem aqui”, declarou.

Reunião

O Comitê Permanente de Enfrentamento a Eventos Climáticos e Ambientais (Copec) reuniu, nesta segunda-feira, prefeitos de municípios do interior do estado para tratar das demandas locais e alinhar estratégias de prevenção e combate às queimadas, além de medidas para enfrentar os impactos da estiagem no Amazonas. Durante o encontro, prefeitos e representantes municipais apresentaram as necessidades locais e contribuíram para o planejamento das medidas emergenciais.

A prefeita de Rio Preto da Eva, Socorro Nogueira, ressaltou a importância da união entre os governos e da participação dos municípios nas decisões.

“A gente ficou feliz e esperançoso que teremos apoio. Essa união é muito importante, tanto do Governo Federal quanto do Governo do Estado, e os municípios, até porque estamos ali na ponta e sabemos da nossa realidade, então, saímos daqui com a expectativa muito grande para que a gente possa juntos solucionar esse problema que está atingindo todo o estado Amazonas”, afirmou.

O enfrentamento às queimadas no Amazonas reúne diferentes frentes de atuação. Entre elas está a operação Amazonas+Verde, iniciada em maio, que integra ações de combate aos incêndios florestais, educação ambiental, enfrentamento aos ilícitos ambientais e ampliação da capacidade operacional. A iniciativa atua no combate imediato aos focos em 33 municípios e alcançou mais de 43 mil pessoas com atividades educativas entre junho e agosto.

A operação Tamoiotatá intensificou as ações de campo na Região Metropolitana de Manaus e nos municípios de Manaquiri, Autazes, Careiro Castanho e Careiro da Várzea. Enquanto o CBMAM atua diretamente no combate ao fogo, o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) realiza fiscalizações para coibir o uso irregular do fogo.

O estado também conta com a operação Alerta Fogo, que utiliza monitoramento por satélite, drones e equipes em campo para identificar e fiscalizar infrações ambientais.

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