HERANÇA

Amor de vô e vó deixa marcas por toda a vida

Histórias de famílias amazonenses mostram como carinho, ensinamentos e acolhimento deixam marcas

Amariles Gama
cidades@acritica.com
26/07/2026 às 13:17.
Atualizado em 26/07/2026 às 13:17

Hugueth Frota encontrou na criação da neta Jasmine um novo sentido na vida (Foto: Nilton Ricardo/AC)

Há quem ensine a pintar, goste de contar histórias da juventude ou passe adiante ensinamentos capazes de atravessar gerações. Para algumas famílias, ser avó é compartilhar experiências. Para outras, é recomeçar a maternidade quando a vida muda de rumo. Neste Dia dos Avós, celebrado neste domingo (26), histórias de famílias amazonenses mostram que esse vínculo vai muito além do carinho e se transforma em aprendizado, legado e acolhimento.

Arte que une gerações

Foi entre telas, tintas e peças de cerâmica que a estudante de Psicologia Ada Manuela Bandeira, de 23 anos, cresceu observando a avó, a artista plástica Ada Assante, de 76 anos. Batizada em homenagem à avó, ela aprendeu, desde pequena, técnicas de pintura e cerâmica. Hoje, os papéis se invertem, e a neta também assume, de vez em quando, o papel de "professora", ajudando a avó a acompanhar as novidades da tecnologia e até temas ligados à psicologia.

"Eu cresci vendo a minha avó pintar. A casa dela sempre foi cheia de quadros feitos por ela. Ela me ensinou algumas técnicas de pintura a óleo, também me mostrou a cerâmica e os moldes de gesso que fazia, e eu ia aprendendo observando. Hoje eu também ensino algumas coisas para ela, principalmente relacionadas à tecnologia. Ela gosta muito de smartwatch, então estou sempre ajudando a conectar ao celular, configurar as funções e mostrar como usar", contou Ada Manuela.

Ada Assante diz que a neta sempre esteve muito próxima dela e, por isso, foi natural despertar o interesse pela arte. Sobre a homenagem de dividir o mesmo nome, ela conta que a notícia foi uma surpresa e motivo de muita felicidade. Aos 76 anos, afirma que continua aprendendo tanto quanto ensina.

"A vida é um aprendizado. Eu ensino, mas também aprendo com os meus netos. Eles são meus professores. Eu sempre digo para eles que o dia perfeito é o agora. Ontem não existe mais e amanhã nem chegou. O melhor dia é o momento que a gente está vivendo. Eu ensino que tudo começa dentro da gente. Primeiro precisamos nos encontrar e nos amar. O resto vem para somar", afirmou.

A arte aproximou avó e neta desde a infância. Hoje, as duas seguem aprendendo uma com a outra (Foto: Daniel Brandão)

Uma vida dedicada ao próximo

O legado também pode ser medido pelas vidas que uma avó ajuda a transformar. Aos 89 anos, Elisa Guimarães Ferreira é lembrada pela família não apenas pelo carinho dedicado aos netos, mas também pela atuação como parteira na comunidade Vila Feliz Nazaré, em Nova Olinda do Norte, interior do Amazonas.

O jornalista Jonathan Ferreira, de 28 anos, conta que a avó ajudou a trazer ao mundo inúmeras crianças em uma época em que o acesso aos serviços de saúde era escasso.

"Minha avó foi parteira, costureira, produtora rural e ajudou a construir uma comunidade inteira. Sempre dedicou a vida ao próximo. Depois que meu avô morreu, ajudou a criar netos e outros familiares. Aos quase 90 anos, continua sendo a maior referência da nossa família. Ela trouxe inúmeras crianças ao mundo quando não havia médicos na região", relata Jonathan.

Quando ser avó é recomeçar

Em algumas famílias, ser avó significa assumir novamente a maternidade. Foi o que aconteceu com a assistente social Hugueth Frota, de 54 anos. Em 2021, durante a pandemia, ela perdeu a filha caçula, Dayna Kate, aos 26 anos. Desde então, passou a criar a neta Jasmine Estela, que tinha apenas um ano e cinco meses e hoje está com 7 anos.

"Quando achei que não teria mais noites acordadas, preocupações com escola e desafios de formar um bom caráter, tudo mudou. Voltei a cuidar da minha neta quando ela tinha um ano e cinco meses. Achei que não seria capaz de fazer tudo de novo, mas, graças a Deus, deu certo. O luto não passa. Ele acompanha a gente para o resto da vida", contou Hugueth.

Elisa Guimarães ajudou a trazer ao mundo gerações de amazonenses (Foto: Arquivo Pessoal)

Apesar da dor da perda nunca deixar de existir, Hugueth afirma que foi na missão de criar a neta que encontrou forças para seguir em frente.

"Hoje a Jasmine ajuda a acalmar o meu coração. Ela também sente muita saudade da mãe, e eu procuro ser forte por ela. Tenho certeza de que ela vai levar um pedaço de mim para o futuro, assim como hoje traz alegria para nossa família", destacou.

Amor que permanece

Neste Dia dos Avós, a homenagem é para todos aqueles que, de diferentes formas, marcaram a vida de suas famílias. Para os que ainda podem ser abraçados e para os que vivem apenas na saudade. Porque algumas lembranças nunca se apagam.

Esta repórter, por exemplo, ainda se lembra da avó Maria Suzana pelos vestidos floridos de cetim, pelo perfume que ficava neles e pelo amor que o tempo não levou.

Famílias em transformação

Os avós têm papel cada vez mais importante na dinâmica das famílias brasileiras.   Embora o IBGE não tenha um levantamento específico sobre avós que criam os netos, pesquisas mostram mudanças na composição dos lares e no cuidado entre gerações.

Em números

  • 26,9% das famílias brasileiras são formadas por casais sem filhos, percentual que mais cresceu entre 2000 e 2022;
  • 13,7 milhões de brasileiros moravam sozinhos em 2022, mais que o triplo registrado em 2000, refletindo as mudanças na estrutura familiar;
  • 53,2 milhões de brasileiros realizavam atividades de cuidado de pessoas, como crianças, idosos e pessoas com deficiência, segundo a PNAD Contínua do IBGE;
  • Entre os cuidadores de idosos, 5,1 milhões eram familiares, mostrando o fortalecimento do cuidado entre gerações dentro das famílias brasileiras.

Dia dos avós

A data homenageia Santa Ana e São Joaquim, considerados pela tradição cristã os pais de Maria e avós de Jesus Cristo.

Com o tempo, o 26 de julho passou a ser celebrado em diversos países como uma homenagem aos avós, reconhecendo o papel que desempenham na transmissão de valores, tradições, histórias e no fortalecimento dos vínculos familiares.

Mais do que cuidar dos netos, os avós ajudam a preservar a memória das famílias e a conectar diferentes gerações.

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