Artesãs de várias etnias se unem e enfrentam a falta de oportunidade no mercado de trabalho confeccionando artesanatos indígenas.
Caroços, sementes e fibras naturais ganham formato colorido e genuinamente indígena (Foto: Lucas Motta)
Aos 50 anos de idade, a dona Justina Cândido ainda executa as técnicas que aprendeu com a avó, na adolescência. Os caroços, sementes e fibras naturais ganham um formato elegante, colorido e indígena. A artesã, da etnia Tuyuka, enxerga em cada peça uma parte da própria história.
São colares, brincos, bolsas e outros acessórios, cada um tem seu tempo de produção, que pode variar de horas até dias, mas no fim se transformam na fonte de renda para a artista.
Justina Cândido, na adolescência, aprendeu as técnicas do artesanato com a avó
Ela faz parte de um grupo de 50 artesãs que moram na comunidade Parque das Tribos, no bairro Tarumã-Açu, zona Oeste de Manaus. No local, há a maior concentração de indígenas territorialmente na cidade, são mais de mil famílias de diversas etnias. Cada uma das artesãs tem um trabalho individual, mas dependendo do que se produz, pode haver a união de duas ou mais mulheres.
Algumas das artesãs chegam na comunidade vindas de municípios do interior do Amazonas e tem dificuldades para se encaixar no mercado de trabalho, muitas vezes pela falta de profissionalização técnica, então usam a tradição do artesanato como fonte de renda.
Há também os casos de mulheres com mais de 50 anos que, por causa da idade, não conseguem um emprego. A Ana Vidal, da etnia Tuyuka, é um exemplo, com 57 anos ela ouviu “não” de muitas empresas.
Ana Vidal é da etnia Tuyuka e tem 57 anos de idade. Sem conseguir emprego devido à idade, ela sobrevive do artesanato
Para ajudar as artesãs a aperfeiçoar técnicas, aprender novas modalidades e saber quais as melhores forma de vender os produtos, a Danielle Delgado, da etnia Baré, promove algumas oficinas. A ideia também é aproximar as mulheres e fazer com que toda a comunidade possa se fortalecer como uma só, em especial no quesito econômico.
O relato sobre a dificuldade de se conseguir emprego dentro da comunidade é algo apontado por muitas das famílias. Geralmente alguns homens ainda conseguem o posto de trabalho, mas fora dos limites do Parque das Tribos; enquanto as mulheres ficam sem opções. Através do artesanato e da venda desse material essa realidade pode começar a mudar.
Artesanato são confeccionados por indígenas de várias etnias que moram na comunidade Parque das Tribos, na zona Oeste de Manaus.
A avaliação é da economista Karla Martins, que defende a movimentação e diversificação econômica dentro deste território como uma importante engrenagem para fazer com que essa população tenha mais oportunidade de renda e geração de emprego via o empreendedorismo.
A especialista se baseia no exemplo de outras comunidades que fazem o uso de turismo de base comunitária, agricultura familiar ou venda de produtos ou serviços e que conseguem criar uma cadeia tanto de geração de trabalho quanto a própria circulação de dinheiro dentro do local.
Sobre o empreendedorismo com o artesanato, Karla entende que há a oportunidade de agregar valor nas peças com parcerias entre as artesãs e marcas consolidadas ou até mesmo selos de garantia da origem do produto.
“Como fazemos isso? Agregando a história e o significado a esse produto. Isso por si só vai fazer que haja a validação de onde é aquele material e que ele, de fato, é original. Isso tem melhor valor no mercado” disse.
Venda de produtos ajuda na complementação da renda de indígenas
Por outro lado, também é importante que haja investimento do poder público para ajudar nessa mudança de cenário. Uma das principais reclamações das artesãs é a falta de espaços para expor os produtos dentro das comunidades e também de divulgações sobre os trabalhos que são realizados por essas mulheres no Parque das Tribos. Danielle explicou que chegou a inscrever algumas propostas para o local em programas do Governo Federal, mas ainda não obteve retorno.
Além do reconhecimento com o objetivo de gerar renda, as artesãs também esperam levar os símbolos das tradições adiante com esses produtos. Cada etnia tem sua própria raiz, que é refletida nos artesanatos, mas todas ganham quando essa cultura rompe as barreiras das aldeias ou comunidades e podem ser entendidas por quem não é indígena.
“Esse artesanato assegura a minha identidade, fortalece a nossa cultura e é a sobrevivência da nossa etnia. Precisamos de apoio para que isso tudo não seja perdido, mas perpetuado” disse Justina.