Investigação segue sem conclusão e advogados apontam falhas médicas e demora na apuração da morte do menino de apenas 6 anos de idade
Mãe de Benício se emociona durante coletiva em que família cobrou celeridade nas investigações (Foto: Nilton Ricardo/A CRÍTICA)
Os advogados dos pais de Benício Xavier cobraram, nesta quinta-feira (2), o relatório final da Polícia Civil do Amazonas (PC-AM) sobre a morte da criança. Falta de celeridade na emissão de laudos e dificuldades de acesso à documentação estão entre as principais reclamações da família da vítima.
Após 120 dias do falecimento do menino de seis anos, Joyce Xavier e Bruno de Freitas questionam a demora na conclusão das investigações sobre a morte do filho, após um episódio de erro na prescrição de adrenalina pela médica Juliana Brasil, dentro do Hospital Santa Júlia, em Manaus. A entrega do relatório foi adiada por mais 45 dias, a pedido da PC-AM, e os advogados afirmam que, embora a medida seja legal, os trabalhos precisam respeitar o luto da família, que há quatro meses clama por justiça.
Advogado Paulo Feitoza destacou o impacto da demora para a família. Foto: Nilton Ricardo/A CRÍTICA
Os representantes da família cobram a emissão de um laudo produzido pelo Instituto Médico Legal (IML), que pode determinar se a causa da morte foi a aplicação de adrenalina. Segundo eles, o documento é peça fundamental para a conclusão do inquérito policial, mas ainda não foi disponibilizado aos investigadores. Sem a finalização dessa etapa, o Ministério Público do Estado do Amazonas (MP-AM) não pode formalizar denúncia contra os suspeitos e dar andamento ao processo judicial.
Devido a essa pendência, os advogados afirmam que estão impedidos de acessar integralmente os autos reunidos até o momento — documentos, depoimentos e provas — o que, segundo eles, compromete a atuação da defesa da família. Em nota, a Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM), responsável pelo IML, informou que “o laudo já foi encaminhado pelo Departamento de Polícia Técnico-Científica (DPTC) aos órgãos competentes solicitantes”.
Caso Benício mobiliza familiares e advogados em coletiva. Foto: Nilton Ricardo/A CRÍTICA
Os representantes também afirmaram que pretendem ingressar com um pedido junto ao Conselho Regional de Medicina (CRM) para que a médica Juliana Brasil tenha a cassação definitiva do direito de exercer a profissão em todo o território nacional. Para o advogado Nil Ferreira, a médica agiu com “desprezo” durante momentos críticos do atendimento.
“Não há isenção da responsabilização dessa médica. Por vezes demonstrou, sobretudo, desprezo. Como já demonstrado, estava em outra atividade naquele momento, fazendo vendas de seja lá o que for, não dando a devida atenção à necessidade naquele momento crítico que Benício estava passando”, afirmou.
A médica está em liberdade, embora afastada de suas atividades profissionais. A defesa dela solicitou o afastamento do delegado responsável pelas investigações, Marcelo Martins, alegando suposto vazamento de informações sigilosas e condução tendenciosa do caso.
Benício Xavier, de seis anos, morreu após atendimento em hospital particular; família cobra conclusão das investigações
Para a família, o Hospital Santa Júlia também deve ser responsabilizado pela morte da criança. Segundo os advogados, além da prescrição equivocada do medicamento, falhas sistêmicas no atendimento contribuíram para o desfecho.
“Não temos nenhuma dúvida de que essa morte era evitável. Há falhas graves e sistêmicas; são três horas até a criança ir para a UTI. São falhas que vão se somando”, disse o advogado Ricardo Albuquerque.
Os representantes também afirmaram que o hospital não possuía estrutura adequada para tentar reverter os efeitos da aplicação equivocada do medicamento. Outro ponto levantado é que, segundo eles, a morte já era considerada suspeita desde o início, e o protocolo adequado seria o encaminhamento do corpo ao IML para exames.
Isso não ocorreu. O corpo foi submetido à aplicação de formol e liberado para a família, que precisou interromper o velório para a realização dos exames, o que, segundo os advogados, pode ter comprometido a coleta de evidências.
“Você entra em um hospital em que confia e espera sair bem de lá. Mas há várias falhas. A preocupação com a vida humana era zero. A partir do momento em que eu não tenho o básico para tentar reverter qualquer situação, demonstro descaso com a vida humana”, afirmou Feitoza.
A equipe de A CRÍTICA procurou o hospital e aguarda posicionamento.