Levantamento mostra aumento de 53% no número de moradores em áreas vulneráveis a deslizamentos
No bairro Mauazinho, na zona Leste de Manaus, famílias vivem sob tensão durante as chuvas (Foto: Lucas Motta)
Há 15 anos a secretária do lar Josielma Carvalho vive no bairro Mauazinho, zona Leste de Manaus. Nos últimos meses, a rotina dela começa e termina da mesma forma, olhando com receio o barranco que cerca sua casa. Ela mora em uma área de risco na rua São Francisco, onde um deslizamento já condenou residências e ameaça atingir outras mais.
De acordo com um levantamento feito pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB), entre 2019 e 2025 houve um aumento no tamanho das áreas de risco, em Manaus; isso fez o número de moradores desses locais saltar de 73 mil para aproximadamente 112 mil pessoas, alta de 53%.
Com o avanço das erosões e o crescimento das áreas de risco, mais de 100 mil pessoas vivem vulneráveis
Desde 2012 o SBG faz esse tipo de mapeamento, que está em sua terceira edição. Nela, a capital do Amazonas registra 438 setores classificados como de Risco Alto (R3) e Muito Alto (R4), são locais sujeitos a diversos desastres como inundações, alagamentos, enxurradas e o que chama mais atenção dos pesquisadores: as erosões.
O pesquisador em geociências do SGB, Marco Oliveira, explicou que esses deslizamentos são chamados de voçorocas, um termo que tem sua origem no tupi-guarani e significa "rasgão na terra" ou "buraco grande", é um estágio avançado de erosão do solo, caracterizado por grandes crateras profundas que começam, geralmente, por causa de um problema de drenagem.
Essas voçorocas possuem, em média, 50 metros de altura e 100 metros de cumprimento. Outra característica bastante vista em Manaus é a presença de entulho na fase inicial dessas erosões. Muitas das vezes os moradores jogam esse tipo de material na tentativa de conter o avanço do buraco, mas é uma escolha que resulta no efeito oposto.
“Isso gera um problema futuro porque você não vai conseguir conter a erosão, que é algo interno, água subterrânea que está erodindo e colapsando o solo. Apenas acumula uma quantidade enorme de material inerte e diante de uma chuva extrema ele pode desabar”, comentou Marco.
Gerenciamento das áreas de risco
O estudo feito pelo SGB é direcionado para as Defesas Civis do município do estado, mas segundo Marco Oliveira existe o Plano de Municipal de Redução de Risco (iniciativa feita em todo o país, através do Governo Federal) feito em parceria com a Universidade Federal do Amazonas. Esse trabalho não somente identifica os locais propícios aos desastres, mas indica soluções como obras de intervenção ou estruturais.
A Prefeitura informou, através da Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf), que mantém um trabalho contínuo de monitoramento e intervenção em áreas com processos erosivos na capital. Segundo a nota da pasta, nos últimos cinco anos, 35 pontos de erosão já receberam obras de contenção executadas pela Prefeitura, com intervenções estruturais voltadas à proteção de moradias, vias públicas e à segurança das famílias que vivem nessas regiões.
Além dessas ações, 13 novas obras de contenção foram viabilizadas por emenda parlamentar, destinadas a áreas classificadas como de risco.e já estão em execução, como as obras na rua ladário, no Conjunto Canaranas, bairro Cidade Nova, Zona Norte, e na rua topázio, no bairro Jorge Teixeira, Zona Leste, que recebem serviços de contenção simultaneamente.
Mapeamento
com a maior quantidade de moradias em áreas de risco são Jorge Teixeira, Cidade Nova, Gilberto Mestrinho, Alvorada, Nova Cidade e, é claro, Mauazinho. Juntos, eles registram 194 setores de R3 e R4, o que significa mais de 13 mil moradias e 52 mil pessoas expostas aos riscos.
Moradores de áreas vulneráveis convivem diariamente com o medo de deslizamentos em Manaus
Apenas onde mora a dona Josielma Carvalho existem 22 setores classificados como risco alto e 12 setores como risco muito alto. Essa classificação indica, no primeiro quesito, áreas com alta probabilidade de ocorrência de desastres naturais, principalmente quando agravados por chuvas fortes ou problemas hidráulicos. Agora, no segundo, locais que já apresentam sinais significativos de instabilidade, onde eventos extremos podem resultar em danos severos às estruturas, perda de moradias e risco à vida dos moradores.
Com total de 438 áreas de risco, a capital do Amazonas lidera a lista de cidades com mais registros no país, dentro do mapeamento feito pelo Serviço Geológico do Brasil. Manaus deixa municípios como Ouro Preto (MG - 313 áreas); Nova Friburgo (RJ -com 254) e Brusque (SC - com 199) para trás no ranking.