Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) aponta o crescimento de mulheres em 105% de 2015 a 2017 no Brasil
(Nathalle Figueira, 26 anos, amazonense, piloto privado de avião)
Lugar de mulher é onde ela quiser, seja na terra, seja no ar. Essa é a premissa que norteia várias mulheres a ingressar no ramo da aviação. Apesar de não ter nenhum estudo com recorte do Amazonas, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) aponta o crescimento de mulheres em 105% de 2015 a 2017 no Brasil.
Uma destas mulheres é a jovem amazonense de 26 anos, Nathalle Figueira, que se interessou pela aviação ainda nova, aos 10 anos de idade. Inicialmente, Nathalle queria ser seguir a carreira de comissária de bordo, porém pensou melhor e decidiu almejar objetivos ainda mais altos.
"Após perceber que eu não iria atingir os requisitos mínimos de altura para ser comissária, eu fiz uma reflexão: se um homem, nas mesmas condições e capacidades físicas/psicológicas que uma mulher, pode pilotar um avião, por que uma mulher não poderia? E com isso decidi que queria ser piloto de avião. O que me motivou a ser piloto foi uma decisão que fiz de que eu queria fazer a diferença na profissão que eu escolhesse, não importando a área, e na aviação, só pelo fato de ser mulher, que são poucas, eu já estaria fazendo a diferença", descreveu a amazonense.
A paixão pela aviação também começou cedo na vida da mineira Eliana Ferreira, piloto da Azul Linhas Aéreas, que comandou o voo inaugural de Manaus-Parintins no início do mês (2).
"Desde muito jovem, em minha cidade natal, eu já admirava os aviões que sobrevoavam a região. Tinha consciência de que seria um longo caminho até chegar ao comando de uma daquelas máquinas. As dificuldades jamais me desanimaram. Muito pelo contrário. A cada pedra no caminho eu me fortalecia ainda mais. A paixão pela aviação já era muito forte", comentou Ferreira.
Comandante Eliana Ferreira, piloto de avião da Azul Linhas Aéreas
Luta contra preconceitos
Apesar de estarmos no século XXI, grande parte da sociedade ainda possui pensamentos preconceituosos. Nathalle relembra de vários episódios onde acabou sendo vítima de machismo.
"Eu sofri machismo sim! Quando eu ainda não era nem piloto, era apenas estudante de aeroclube e era a única mulher da sala. A minha turma visitou a torre de controle do aeroporto e, quando chegamos a um determinado setor, a pessoa responsável pelo mesmo perguntou: 'O que essa piloto fêmea está fazendo aqui?', relembra a piloto de avião privado.
Nathalle também produz diversos conteúdos nas redes sociais onde aborda a rotina de mulheres na aviação e como às vezes tem que se deparar com situações onde tem que lidar com o preconceito apenas por ser mulher.
"O que me inspirou foi o fato de querer mostrar aos meus seguidores como é a nossa realidade, como é o treinamento (horas de voo), para informar e entreter, e também revelar qual é a reação das pessoas quando falamos que somos pilotos de avião! Muitos tem admiração, porém ainda existe preconceito. Já ouvi coisas do tipo: 'Nossa, nunca vou querer pegar um voo com você pilotando', 'Ser piloto é coisa pra homem', e muitos outros comentários que prefiro nem citar. Tudo o que posto em minhas redes é real, foram coisas que já ouvi, ou que aconteceram comigo", relata Nathalle.
Por outro lado, a mineira Eliana Ferreira revela que apesar dos preconceitos existentes na sociedade, sempre teve apoio de todos e todas por onde passou.
"A profissão ainda é reconhecida como uma profissão masculina, mas estamos vivendo uma transformação em nossa sociedade. As aeronaves estão cada vez mais automatizadas e a força bruta tornou-se desnecessária. Preconceito, machismo, nada disso. Muitas pessoas me ajudaram, entre elas, muitos homens. Nunca disputei espaço com eles. O convívio sempre foi harmônico. Hoje, divido a cabine de comando com jovens, homens e mulheres, e os ajudo com a mesma boa vontade com que tiveram comigo", destacou Eliana.
Conquista de espaço feminino
A cada vez mais as mulheres vão conquistando espaço em profissões que antes eram dominadas por homens. Na aviação não é diferente. Para as pilotos isso só demonstra o quanto a mulher é forte e capaz de estar onde ela quiser.
"Eu vejo isso de uma maneira totalmente positiva, percebendo total empoderamento feminino. Vejo que nós mulheres estamos, merecidamente, alcançando lugares que antes só pertenciam aos homens por nossos méritos próprios, mostrando nossa capacidade (seja nos treinamentos, seja em pleno exercício da função) e quebrando conceitos e tabus, como o de 'sexo frágil'. Estamos mostrando que de frágil não temos nada e que somos capazes de desempenhar qualquer função com maestria, seja em solo ou nos ares", comentou Nathalle.
"As mulheres têm uma característica que as diferencia dos homens. Somos estudiosas, concentradas, perfeccionistas e levamos uma leveza para as cabines. A tendência é cada vez mais ocuparmos mais assentos a bordo. A profissão de comissária é em sua maioria feminina, e estamos progredindo nos postos dentro do cockpit. Vejo com bons olhos esse avanço feminino. A força de trabalho se traduz em crescimento do país é isso é o que importa", acrescentou Eliana.
Perseverança e estudo
Para as mulheres que estão interessadas em ingressar na área de aviação, Nathalle ressalta que é preciso ter bastante perseverança e não desistir dos seus sonhos. Nathalle precisou sair do Amazonas para conquistara formação em Ciências Aeronáuticas.
"Que acima de tudo, tenha certeza de que é isso (ser piloto de avião) que realmente quer para a sua vida, pois assim como qualquer outra profissão, tem obstáculos e muitas renúncias. Que pesquisem bastante sobre a aviação, conversem com gente da área, com pilotos; e que assim que tiverem certeza de tudo, estudar bastante, se dedicar. E que não desistam nunca. Desafios terão, preconceitos existem sim (principalmente os velados), porém quando se tem certeza de onde está e onde se quer chegar, nada tende a abalar", comentou Nathalle.
Eliana Ferreira, que também é bacharel em Administração de Empresas, acrescenta que a dedicação nos estudos é essencial para ser piloto de avião.
"Não foi fácil e nunca será. Demanda muito estudo e dedicação. Cuide de sua saúde física e mental. Comece cedo. Estude matemática, física, química, inglês, entre outras matérias necessárias para a sua base acadêmica. Estude, estude e estude. Tenha a certeza de que vale muito esse esforço. Você será recompensada conhecendo lugares maravilhosos, pessoas interessantes e terá uma estabilidade financeira que lhe proporcionará tranquilidade para viver nos ares", pontuou Eliana.