Meio Ambiente

Comissão alerta para poluição de 87% dos mais de 60 igarapés de Manaus

Estudo da Ufam aponta que destruição da mata ciliar retira barreira natural contra as altas temperaturas 

Lucas Motta
19/09/2026 às 10:25.
Atualizado em 19/09/2026 às 10:20

Igarapé sofre com a contaminação e perda de cobertura vegetal. (Junio Matos/ A Crítica)

Imagine você não poder andar pela calçada nas ruas do seu bairro. Talvez até pior: imagine ser obrigado a ficar preso dentro de sua casa, sem poder usar nenhum espaço público por risco à sua saúde. Assustador, né? Mas e se eu te contar que isso, na prática, é muito parecido com uma realidade que já vivemos em Manaus?

Essa situação está ali, dispersa em 67 igarapés oficialmente reconhecidos pela prefeitura e divididos em quatro grandes Bacias Urbanas: São Raimundo, Educandos, Tarumã e Puraquequara.

É que, de acordo com as estimativas da Comissão Interinstitucional em Defesa dos Igarapés de Manaus, 80% deles estão poluídos. Condição que não apenas os adoece, mas também afasta um bem público da população, como bem explicou a pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Marcela Amazonas.

“Tem um contexto prejudicial em todas as dimensões. É um espaço que os filhos não podem usar para brincar, onde os idosos não podem ter uma praça. O igarapé poluído afeta a vida”, comentou.

A poluição desses espaços está relacionada a outra dificuldade enfrentada pela população em geral na capital do estado: o calor. Pesquisas desenvolvidas pela Divisão de Estudos Ambientais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) dizem que a perda de cobertura vegetal no entorno desses igarapés retira uma ferramenta importante no combate às altas temperaturas. Ocorre que as árvores reduzem o calor ao bloquear a radiação solar com suas sombras e ao liberar vapor de água na atmosfera por meio da evapotranspiração.

Bibiano Filho é coordenador de uma comissão em defesa dos igarapés

Antigamente…

 Outro ponto observado é o de se refrescar com banho. Isso era comum algumas décadas atrás aqui na capital, mas se perdeu com o avanço da poluição e a invasão de áreas verdes. Lembra da falta de acesso a espaços públicos do início desta reportagem? Ela também aparece nesse contexto.

“A própria vegetação é responsável por proteger os igarapés; ela mantém o nível normal de água, além da própria qualidade da água”, disse a chefe da Divisão de Estudos Ambientais da Ufam, Rosana Lopes.

As pesquisas  acadêmicas não apontam para um fator único como o culpado pela poluição dos igarapés em Manaus. Na verdade, são muitos os fatores sugeridos pelos estudos. Eles vão desde o crescimento desordenado de ocupações irregulares até a falta de educação ambiental da própria população na cidade. Soma-se também o pouco interesse do poder público em resolver essa realidade ao longo das décadas.

Por outro lado, a forma como o esgoto é tratado na capital chama a atenção de entidades como a própria Comissão Interinstitucional em Defesa dos Igarapés de Manaus – ligada à Arquidiocese da capital. Eles dizem que a falta de saneamento, do tratamento do esgoto, muitas vezes despejado nesses cursos d’água, impede a recuperação deles.

“Se a prefeitura não tomar para si a responsabilidade de cobrar da empresa em questão, vamos continuar com igarapés sendo violentamente degradados. Já deveríamos ter saneamento em toda a cidade de Manaus”, disse Bibiano Filho, coordenador da Comissão Interinstitucional em Defesa dos Igarapés de Manaus.

A empresa citada é a Águas de Manaus.  Ela respondeu à solicitação de A CRÍTICA, a respeito da cobertura do saneamento na cidade.

Por meio de nota, informou que: “O sistema de esgotamento sanitário de Manaus está em expansão. Com os investimentos da Águas de Manaus, a cobertura de esgoto na capital saiu de 16% para 42% entre 2018 e 2026, e a meta é chegar à universalização em menos de dez anos. Para isso, o programa Trata Bem Manaus prevê cerca de R$ 2 bilhões em investimentos até 2033. Mas essa transformação só é visível quando todos participam. Conectar o imóvel à rede disponível e usar o sistema corretamente é o que garante que o esgoto seja de fato tratado. Sem a adesão da população, o investimento não alcança todo o seu resultado”.

É possível recuperar

Não há um  cálculo geral, uma estimativa única que possa ser usada para dizer quanto custaria a recuperação de um igarapé poluído, seja para os cofres públicos ou para iniciativas privadas. A pesquisadora Marcela Amazonas estima, porém, o tempo: cerca de dois anos para o estágio inicial.

“Pelo menos dois anos, é o que a ciência mostra. Primeiro, o envolvimento do entorno. Frear a válvula da poluição. Isso também passa pela separação dos resíduos sólidos dentro das casas”, comentou.

Existem alguns projetos na capital com esse intuito, um deles feito pela própria Arquidiocese de Manaus.

A proposta é recuperar o “Igarapé do Coroado”, nas proximidades da Ufam. Com o sucesso da operação, a entidade espera conseguir apoio do Governo Federal para realizar esse processo em escala na cidade de Manaus.

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