CUIDADO

Crimes cometidos na internet levam 4 por dia à delegacia no AM

Mais de 1,6 mil pessoas foram vítimas de crimes cibernéticos em 2019. Novo crime cibernético: perfil de usuário é clonado e induz vítimas a realizar transferências bancárias

Karol Rocha
28/01/2020 às 10:27.
Atualizado em 10/03/2022 às 19:24

(Foto: Eraldo Lopes/Freelancer)

Mais de 1,6 mil pessoas foram vítimas de crimes cibernéticos, em 2019, no Amazonas. Os cibercrimes mais comuns registrados pela Secretaria de Segurança Pública do Estado (SSP-AM), no ano passado, são atentados contra a honra ou a reputação de alguém, o que caracteriza difamação, falsa identidade, ameaça, estelionato, injúria, invasão de dispositivo informático, dentre outros.

O Amazonas registrou um crescimento de 23% no número de ocorrências de crimes em que a internet é o principal meio. Entre janeiro e dezembro de 2019, foram 1.627 casos contabilizados, enquanto no ano anterior, foram registradas 1.232 ocorrências.

Pela popularidade, o WhatsApp é uma das redes sociais que mais atraem os hackers e estelionatários. Um exemplo de quem foi vítima de invasão de dispositivo informático e falsa identidade foi a jornalista e tatuadora estética Ananda Chamma, de 35 anos.

Ela, em depoimento ao jornal A CRÍTICA, contou que não teve seu número clonado, mas sim que um indivíduo comprou um número de telefone, registrou uma conta no aplicativo de mensagens com a sua foto, realizou um levantamento dos seus contatos pela rede social Instagram e iniciou as extorsões via WhatsApp. “Eles compraram uma linha aqui de Manaus, pegaram uma foto minha e não sei como conseguiram o telefone dos meus amigos para enviar mensagem”, comentou Ananda.

“Eles diziam assim na mensagem: ‘Oi, amiga. Tudo bem? Eu fiz uma transferência para uma pessoa no valor de R$ 5.900 só que consegui transferir apenas R$ 3 mil. Você pode transferir os outros R$ 2.900?”, detalhou a jornalista, demonstrando como foram escritas as mensagens aos seus contatos. “Há muito tempo tenho essa linha tanto é, que muitas pessoas estranharam o número e porque eu não sou de ficar pedindo dinheiro dessa forma”, completou.

Ananda Chamma soube da situação por meio de uma amiga que tinha recebido o pedido de transferência. Porém, desde a quinta-feira, a imagem dela estava sendo usada para a extorsão. “No sábado, fui direto à delegacia registrar um Boletim de Ocorrência (B.O). Lá me perguntaram se haviam vítimas além de mim, e até então não sabia que uma outra amiga havia depositado a quantia”, revelou. 

Após a ida à delegacia, a jornalista publicou um vídeo em suas redes sociais com o intuito de alertar as pessoas para que não caíssem no mesmo golpe. Foi depois do vídeo que ela soube de que um outro contato dela havia recebido a mensagem e realizado a transferência para a conta bancária fornecida pelo falso contato.

“Uma grande amiga minha chegou a fazer essa transferência. Ela não se certificou de que não era eu. Inclusive, (ela) chegou a questionar o porquê do pedido da alta quantia, porém eles afirmaram que era para o pagamento dos fornecedores. No caso, eles se referiam aos fornecedores dos equipamentos que eu uso e ela não hesitou em ‘emprestar’ esse dinheiro”, disse Ananda, ao acrescentar que outro Boletim de Ocorrência foi feito na segunda-feira passada com a presença da amiga vítima de estelionato.

Cuidado com Wi-Fi aberto ou público

Procedimentos como a ativação de segurança em duas etapas no WhatsApp é  uma das formas de se precaver quanto aos golpes. O delegado da Delegacia Interativa (DI), Gesson Aguiar, também citou o perigo do acesso de aplicativos de banco quando o Wi-Fi é aberto ou público em locais como aeroportos ou em lojas.

“Assim que você começa a transacionar naquele ambiente, a conta já está sendo monitorada. Você pode até utilizar o Wi-Fi público, desde que não utilize para fins importantes. A gente orienta também a população para que não clique em links que estão em grupos, não abram e-mails desconhecidos por que vai infectar o aparelho. A tendência desses crimes é piorar”.

DI explica ‘modus operandi

Segundo o titular da Delegacia Interativa (DI), delegado Gesson Aguiar, uma das demandas que mais chegam à especializada é em relação ao crime de invasão do dispositivo informático, o tipo penal específico para a invasão da contas de WhatsApp. Ele destacou as ações mais comuns realizadas pelos criminosos pelo aplicativo de troca de mensagens instantâneas.

“Nós tivemos uma primeira leva em que o criminoso conseguia mudar tua linha para o chip dele, ou seja, ele conseguia fazer uma portabilidade e a vítima perdia a linha dentro da operadora. Depois que estava em posse do número, reinstalava o WhatsApp e na hora, fazia o backup de vídeos, áudios e conversas da vítima. Com a pressão das autoridades sob as operadoras, eles (as empresas de telefonia) endureceram e dificultaram a forma de você recuperar o chip”, explicou.

Titular da DI afirmou não ter risco de suspeitos clonarem linha telefônica. Foto: Alailson Santos/Assessoria da PC-AM

O delegado, especialista na repreensão de crimes cibernéticos no Amazonas, ressaltou que não há a possibilidade de clonagem da linha telefônica. Um meio, conforme Aguiar, muito utilizado pelos hackers, atualmente, é a utilização da chamada Engenharia Social.

“É através de um convencimento, uma persuasão, que ele faz com que a vítima entregue a ele o código de instalação do WhatsApp. Por exemplo, você coloca um produto seu a venda em algum e-commerce, como o Mercado Livre ou OLX, e adiciona o seu número para contato. Quando você coloca isso, você vira uma vítima em potencial desse criminoso”, explicou.

O delegado da DI também exemplificou o “modus operandi” dos cibercriminosos. “Ele vê a publicação, liga para vítima e diz que é da OLX, afirma que enviará um código e pede para a vítima informar este número a ele. E aí, ele prossegue a instalação do lado de lá dessa forma, após a pessoa informar esse código. De posse de todos os dados, ele tem acesso a toda a tua agenda de contatos e se passa pela pessoa, manda mensagem aos contatos afirmando que está em uma situação difícil e começa os pedidos de dinheiro. Esse é o ‘boom’ dentro da parte de crimes de estelionato”, ressaltou Gesson Aguiar.

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