NOVA ETAPA

Iphan inicia licitação para nova etapa da restauração da Igreja São Sebastião em Manaus

Obra de R$ 6,2 milhões terá prazo de 18 meses e busca preservar características originais do patrimônio histórico

Lucas Motta*
04/06/2026 às 07:59.
Atualizado em 04/06/2026 às 07:59

Fechada desde janeiro, a Igreja São Sebastião deve avançar para uma nova etapa de restauração ainda neste segundo semestre, com previsão de 18 meses de obras após a contratação da empresa responsável (Foto: Daniel Brandão/A CRÍTICA)

A superintendência amazonense do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) vai dar continuidade à restauração da Paróquia de São Sebastião, no centro de Manaus, a partir deste segundo semestre. O processo de licitação vai priorizar a capacidade técnica entre as empresas concorrentes.

Fechada desde janeiro de 2025, a igreja, que recebeu o nome do largo que também abriga o Teatro Amazonas, dá mais “um passo” em direção à reabertura para o público. O Iphan se prepara para o processo de licitação da segunda etapa dos restauros, que vão focar na cobertura, na torre, em ajustes na fachada e na recuperação das pinturas.

Andaimes ocupam parte da Igreja São Sebastião durante os trabalhos de recuperação e preservação dos elementos históricos do templo.Foto: Daniel Brandão

 De acordo com a superintendente do instituto no Amazonas, Beatriz Calheiros, os arquitetos da entidade fizeram um estudo técnico de prioridades e, em julho, a licitação deve entrar em fase de publicidade.

“São 35 dias de publicidade. Ela é uma licitação do tipo ‘preço/técnica’, em que a técnica tem peso maior. Depois dos dias de publicidade, tem o processo de licitação, vai ter uma vencedora e a gente acredita que os trabalhos comecem em setembro, na igreja”, disse.

A superintendente do Iphan no Amazonas, Beatriz Calheiros, afirma que a capacidade técnica das empresas terá peso maior no processo licitatório da nova fase do restauro.Foto: Paulo Bindá

 Essa proporção de colocar a técnica em prioridade quando relacionada aos custos está definida pela legislação por meio da Lei nº 14.133/2021 (Nova Lei de Licitações). Geralmente, a divisão é de 70% para os critérios técnicos e 30% para o preço. A partir do momento em que a obra começar, serão 18 meses até o prazo de conclusão. É nesse período que o trabalho se torna mais detalhista para preservar o máximo de originalidade possível.

A segunda etapa da restauração da Igreja São Sebastião será conduzida pelo Iphan, que prepara a licitação para obras na cobertura, torre, fachada e pinturas do templo histórico.Foto: Paulo Bindá

A restauração

 A Paróquia de São Sebastião é uma igreja centenária. Foi aberta ao público no dia 7 de setembro de 1888, é a “irmã” mais velha do Teatro Amazonas e, como ele, preserva história e técnicas de arquitetura com características daquele período. Por causa desse contexto, a restauração precisa obedecer a todos os regimes estabelecidos por um conjunto de regras criado pela literatura e pela legislação. Entre os principais elementos estão a intervenção mínima, a reversibilidade, a autenticidade, o uso de materiais compatíveis e a preservação dos valores culturais identificados.

“Nós esperamos fazer com que essa obra seja visitada para dar maior transparência para a população, os religiosos e também os próprios profissionais da arquitetura e da engenharia”, explicou Beatriz Calheiros.

O restauro envolve pesquisas técnicas e intervenções especializadas para recuperar áreas afetadas pelo tempo sem descaracterizar o patrimônio histórico.Foto: Daniel Brandão

A restauração da igreja segue critérios de preservação patrimonial para manter as características originais da construção inaugurada em 1888.Foto: Daniel Brandão

 O orçamento da obra é de R$ 6,2 milhões. A proposta é recuperar o que for possível e reestruturar o que tiver necessidade. Esse segundo item obedece a critérios como a facilidade de manutenção por parte da igreja e a segurança. É claro que as escolhas não têm o objetivo de descaracterizar a construção. Por isso, quando algo não puder ser substituído por um item original, um muito semelhante será usado, e essa diferença não será escondida, mas ficará exposta e será explicada.

Imagens religiosas foram protegidas durante as intervenções realizadas no interior da igreja, que está fechada para restauração desde janeiro deste ano.Foto: Daniel Brandão

 A superintendente reforçou que é muito comum ocorrerem “surpresas” em restaurações de locais centenários. Isso acontece por causa dos métodos construtivos que não são mais usados, e recuperá-los demanda uma vasta pesquisa que, nem sempre, conta com documentos disponíveis para consulta. Um dos grandes desafios é o restauro das pinturas do forro.

“A gente entende que vai ser bastante trabalhosa a parte dos pigmentos das pinturas. Vai ter toda uma pesquisa do material por parte dos restauradores. São telas em tecido e não pintadas diretamente no forro. Hoje, estão guardadas, ‘respirando’ e aguardando seu retorno ao ponto original”, disse.

Um templo que resplandece da cultura

Na rua 10 de Julho, sem número, esquina com a Tapajós, a igreja surge como parte da identidade manauara. Quem a vê de fora, especialmente do largo que a batiza, tem a impressão de que as árvores formam um portal, como se conduzissem quem passa por ali a fazer uma visita. Carregada de beleza, ela também guarda muitas histórias e algumas lendas. Uma das mais conhecidas diz que a segunda torre naufragou antes de chegar à capital amazonense. Relato que arranca risadas do frei Paulo Xavier, que explica o motivo da torre única na construção.

O frei Paulo Xavier destaca a importância da reabertura da Paróquia de São Sebastião, referência religiosa e cultural no Centro de Manaus.Foto: Daniel Brandão

“O material para a torre já existia, mas foi usado para solucionar um sinistro que houve aqui. Então, não foi por falta de material ou porque caiu no mar. Depois que o problema foi resolvido, não retomaram mais essa questão e a igreja se caracterizou por ter só uma torre”, comentou.

 O frei é um dos que mais aguardam a reabertura da paróquia. Ele afirma que, vista sob a ótica do evangelho, ela é a igreja da acolhida, que recebe peregrinos de todo o Brasil, mas também de outros países. Além disso, é conhecida pela forte atuação missionária e pela capacidade de dialogar com todos.

“Dialogar com o mundo inteiro através deste espaço. Os capuchinhos estão aqui desde o início. Eles são aqueles que acolhem”, comentou.

*Colaborou com a reportagem Daniel Brandão. 

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