Práticas reforçam espiritualidade, mas rotina moderna desafia vivência do verdadeiro sentido da Páscoa entre fiéis
(Foto: Junio Matos/ A CRÍTICA)
Durante a Semana Santa, práticas como o consumo de peixe e o jejum voltam ao centro da vivência cristã. Mais do que tradição, esses hábitos carregam significados ligados à fé, à reflexão e à renúncia, especialmente no período da Quaresma.
No livro do apóstolo João, capítulo 21 e versículos 12 e 13, Jesus ressuscitado surge em uma praia e convida seus discípulos, que estavam exaustos após uma pescaria, para comerem. O episódio é marcado pelo Mestre servindo pão e peixe, estando presente fisicamente e em comunhão com eles, sem a necessidade de que perguntassem quem Ele era, pois sabiam “que era o Senhor”.
Na tradição cristã, o peixe sempre esteve presente. Seja no milagre da multiplicação, seja na alimentação diária, seja no ofício de trabalhadores; peixe era sinal de fartura, simplicidade e comunhão entre as pessoas. Nos dias atuais, o sentido não mudou tanto, mas ganhou um sinônimo além, onde a substituição da carne vermelha por peixe, acompanhada do jejum e outras práticas cristãs, tornou-se uma tradição de penitência, renúncia e respeito ao sacrifício de Jesus Cristo.
Em entrevista para A CRÍTICA , o padre Gutemberg Gonçalves, pároco da Paróquia de São Francisco de Assis, explicou sobre o fundamento cristão do consumo de peixes e prática de jejum durante a Quaresma. Para ele, a prática tem por objetivo fundamnetal aproximar o cristão à Deus e fortalecer a fé.
Embora seja uma prática de renúncia seja comum entre os fiéis, há quem não possa cumpri-la ou não tenha condições de fazê-la. Em razão disso, o pároco da Paróquia de São Francisco de Assis recomenda um outro tipo de jejum: um jejum de palavras.
“O Papa Leão XIV, na orientação sobre o jejum, nos falou que devemos fazer jejum de palavras. Palavras que dividem, que ferem, que machucam, que matam, que gera ódio. Fazer jejum de palavras”, recomendou.
Em meio às exigências da vida moderna, com jornadas de trabalho intensas, preocupações pessoais e até limitações de saúde, muitos cristãos encontram dificuldade em viver plenamente o espírito da Quaresma e da Semana Santa.
(Foto: Arquivo/ AC)
O tempo de reflexão e recolhimento, que tradicionalmente convida à pausa e ao fortalecimento da fé, acaba sendo atravessado por rotinas exaustivas e distrações cotidianas.
Embora estes desafios sejam presentes na vida de muitos fiéis, esse período permanece como uma oportunidade de reencontro com o sentido mais profundo da Páscoa e da vida cristã.
“A Quaresma nos propõem uma vida espiritual mais profunda. Viver com mais intensidade a oração, a caridade e a penitência”, salientou o padre Gutemberg Gonçalves.
Viver o período de renúncias e reflexão da Quaresma não se resume a deixar de comer carne vermelha. Para muitos fiéis, significa abrir mão de hábitos cotidianos que podem afastar do verdadeiro sentido da Páscoa. É o caso da estudante de direito Beatriz Sarmento, que opta por desapegar do consumo de doces e reduzir o uso excessivo do celular e de pensamentos negativos, como forma de fortalecer sua fé.
Nascido em uma família católica e tradicional nos costumes cristãos, o fotógrafo Renison Nascimento compartilhou que se abstém do consumo de carne vermelha todas as sextas-feiras do ano. Para além disso, ele contou que um dos sentidos mais belos da Quaresma é a renúncia com o propósito de vivenciar a vida de Cristo, no jejum, na oração, na caridade e na misericórdia.
“Durante a Quaresma eu procuro evitar mais os hábitos que nos levam a pecar e sempre coloco o propósito de jejuar aquilo que mais tem me afastado de Deus ou tomado meu tempo [...] e até mesmo jejuar algumas coisas que eu mais gosto, pq o sentido do jejum é isso, tirar aquilo que você gosta para que você possa sentir realmente a falta e ver que tudo isso tem um propósito”, refletiu.
Sarmento destacou que, com sua experiência pessoal de vida cristã, aprendeu que a fé não está somente nos grandes gestos de renúncia e reflexão, mas está presente também nas pequenas ações do cotidiano.
“A Quaresma sempre me faz refletir sobre quem eu estou sendo e no que posso melhorar, seja tendo mais paciência, sendo mais grata ou ajudando mais o próximo. É um período que me convida a crescer como pessoa e fortalecer minha espiritualidade de forma mais sincera”, salientou a estudante.
Para Nascimento, a preparação para vivenciar a Páscoa não é somente um simples momento, contudo carrega um sentido extremamente especial em sua vida e sempre busca vivenciá-lo da forma com que aprendeu com seus familiares: servindo a Cristo.
A Semana Santa, além de marcar um período de fé e reflexão, também se revela como um momento de encontro e fortalecimento comunitário. Os ritos e celebrações não apenas preservam tradições, mas criam espaços de união entre famílias e fiéis, reforçando valores de solidariedade e partilha.
“Manter os ritos da semana santa é fundamental para nossa vida de cristão, isso nos fortalece em nossa caminhada de comunidade e de paróquia. Participando das celebrações, procissões, celebrações penitenciais, são momentos de profunda união das famílias, isso nos leva a sermos mais solidários uns com os outros e fortalecendo nossos laços de cristãos”, concluiu o padre Gutemberg Gonçalves.